Os Segredos da Vitória da Coreia do Norte: Entenda a Estratégia por Trás do Sucesso


A Ascensão Surpreendente da Coreia do Norte: De Pária Global a Jogador de Poder

A celebração do 75º aniversário do Partido dos Trabalhadores da Coreia, em outubro de 2020, não era o evento festivo que o líder norte-coreano Kim Jong Un havia planejado. Apesar dos fogos de artifício, das exibições militares e do desfile de novos mísseis intercontinentais, ele se emocionou ao se dirigir à multidão, pedindo desculpas: “Meus esforços e sinceridade não foram suficientes para libertar nosso povo das dificuldades em suas vidas.” A pandemia de COVID-19 foi uma dura realidade para muitos países, mas para a Coreia do Norte — já marcada pela insegurança alimentar e um sistema de saúde pública em ruínas — a situação era ainda mais crítica.

Internamente, Kim enfrentava um momento de humilhação e isolamento, visto que não conseguira desbloquear alívios de sanções em encontros de alto nível com líderes dos Estados Unidos, Coreia do Sul, China e Rússia. Esse período pode ser considerado um dos mais baixos na história de 78 anos da República Popular Democrática da Coreia.

Cinco anos depois, em setembro de 2025, Kim sorria em outro desfile militar — desta vez em Pequim, acompanhado dos líderes Xi Jinping e Vladimir Putin. Tropas norte-coreanas combatiam ao lado de soldados russos na Ucrânia, o comércio com a China havia recuperado níveis saudáveis do período pré-pandemia, e Kim era parte de uma coalizão crescente que se opunha à influência dos EUA e do Ocidente. Neste notável revés de fortuna, a Coreia do Norte tornou-se uma potência regional, com Kim solidificando seu poder como nunca antes.

A Transformação de Kim Jong Un

Essa evolução de Kim é resultado de circunstâncias e habilidades. Em um mundo dividido por uma nova era de competição entre grandes potências, a Coreia do Norte tem conseguido se destacar ao utilizar seu arsenal nuclear como um escudo contra as agressões de nações maiores. O líder norte-coreano se mostrou excepcionalmente hábil em explorar oportunidades e navegar pelas correntes dessa nova geopolítica.

Na relação com China e Rússia, Kim adotou riscos inesperados, como a participação em um conflito no continente europeu e a intensificação do desenvolvimento de armas nucleares, que acabaram valendo a pena. Sua capacidade de moldar a dinâmica regional nunca foi tão forte. Enquanto Washington antes trabalhava com Pequim e Moscou em uma tentativa de conter a Coreia do Norte, agora o desafio representado pelo país é muito mais complexo e persistente. A tensão entre os EUA e China, a guerra da Rússia na Ucrânia e a crescente desconfiança dos aliados em relação aos compromissos de Washington criaram um cenário global instável.

Kim em Ascensão

Quando Kim assumiu o poder em 2011, com apenas 27 anos, a economia da Coreia do Norte dependia quase completamente de ajuda estrangeira e do comércio com a China. Relatórios realmente alarmantes indicavam que mais de 40% dos 26 milhões de norte-coreanos sofriam de desnutrição, enquanto a elite de Pyongyang desfrutava de restaurantes e shoppings luxuosos. A previsão, na época, era que ele não duraria muito no poder, sendo rapidamente usurpado ou tornando-se uma figura meramente simbólica.

No entanto, Kim não perdeu tempo: ele fez purgas sistemáticas para garantir a lealdade da elite e, de maneira chocante, assassinou seu tio e seu meio-irmão. A intensidade de seu programa nuclear aumentou significativamente, com mais de 100 testes de mísseis realizados entre 2012 e 2019, assim como quatro testes nucleares, incluindo uma bomba de hidrogênio em setembro de 2017, com uma potência estimada entre 100 e 150 quilotons. Para efeito de comparação, a bomba atômica lançada sobre Hiroshima tinha uma potência de 15 quilotons.

O cenário se tornou tenso em 2017, com Kim e o então presidente dos EUA, Donald Trump, trocando insultos, levando a uma guerra verbal que prometia um conflito militar iminente. A tensão foi tão grande que até mesmo China e Rússia endossaram sanções mais rígidas contra Pyongyang.

A Mudança de Estratégia

No entanto, em janeiro de 2018, Kim surpreendeu o mundo ao se mostrar interessado em participar dos Jogos Olímpicos de Inverno na Coreia do Sul, oferecendo um respiro em meio ao clima de confronto. A partir daí, o relacionamento entre Kim e Trump evoluiu para encontros diretos, que resultaram em uma cúpula histórica em Cingapura em junho daquele ano. Apesar de Trump declarar que não havia mais “uma ameaça nuclear da Coreia do Norte”, as negociações subsequentes estagnaram, culminando em uma segunda cúpula fracassada em Hanoi em 2019.

Com a economia do país em queda e uma seca severa ameaçando as colheitas, a situação se complicou ainda mais quando a pandemia de COVID-19 surgiu em janeiro de 2020. O comércio com a China, a tábua de salvação econômica da Coreia do Norte, despencou em mais de 80% quando as fronteiras foram fechadas, levando a previsões cada vez mais sombrias sobre o futuro do país.

Aproveitando a Crise

Kim se mostrou um líder astuto, utilizando a crise da pandemia para fortalecer seu domínio. Aproveitou a situação para expulsar diplomatas e trabalhadores humanitários, aumentando a segurança nas fronteiras da Coreia do Norte. Sua máquina de propaganda ganhou força, varrendo qualquer influência externa com a narrativa de que a COVID-19 era uma “doença” de influências externas.

Neste contexto, a Coreia do Norte encontrou oportunidades econômicas singulares. Durante os anos de sanções, Pyongyang utilizou esquemas cibernéticos para contornar as restrições e gerar receita. Entre 2017 e 2023, hackers norte-coreanos acumularam aproximadamente 3 bilhões de dólares, enquanto as diversas fraudes online aumentaram drasticamente durante a pandemia, com muitos até conseguindo empregos legítimos sob identidade falsa em empresas norte-americanas.

Kim garantiu que essas receitas fossem direcionadas, mantendo a prioridade em seu programa nuclear. Em janeiro de 2021, ele revelou um ambicioso plano de defesa de cinco anos para desenvolver armas nucleares táticas e veículos subaquáticos não tripulados. Em abril de 2025, a comunidade de inteligência dos EUA confirmou que a Coreia do Norte havia testado um novo míssil intercontinental a combustível sólido, capaz de atingir alvos na América do Norte.

O Jogo Global

Com um regime fortalecido, Kim também viu oportunidades no exterior. A competição estratégica entre os Estados Unidos e a China estava em ascensão quando o governo Biden começou a estreitar a cooperação com aliados na Indochina. Embora fosse esperado que Pyongyang se aproximasse mais de Pequim, Kim começou a mostrar um apoio inesperado à China, alinhando-se com sua narrativa contra os EUA.

Desde 2021, Kim expressou publicamente em cartas a Xi a necessidade de enfrentar os “desafios de forças hostis”, referindo-se à política do governo Biden. A partir de então, Kim começou a emitir declarações apoiando a China em questões, como a situação de Taiwan, buscando assim garantir a favorabilidade de Pequim.

O Olhar para a Rússia

Embora tenha elogiado Beijing, Kim, como seus antecessores, tentou evitar a dependência excessiva da China. O contexto da guerra da Rússia na Ucrânia possibilitou uma nova ambiência para o fortalecimento das relações bilaterais entre Pyongyang e Moscou. A urgência de Putin por apoio militar tornou-se uma oportunidade para Kim mostrar sua utilidade.

Estudos revelaram que, em 2023, a Coreia do Norte forneceu aproximadamente 40% dos munitions do exército russo. Inicialmente, Pyongyang negou sua participação, mas, ao perceber o valor de sua contribuição à causa russa, Kim decidiu se afirmar como parte de uma aliança anti-Ocidente.

Desafios e Oportunidades Futuras

Apesar de Kim ter alcançado um status elevado no cenário global, um ataque direto à Coreia do Sul ainda parece improvável, dado que isso poderia provocar represálias esmagadoras. No entanto, a nova posição de força de Kim pode levá-lo a adotar ações mais ousadas contra países vizinhos, complicando as estratégias dos EUA.

Atividades militares encobertas e movimentos de pressão sobre a Coreia do Sul começaram a surgir em sua agenda. Em 2025, a Coreia do Norte desafiou diretamente a linha de demarcação marítima entre as duas Coreias, sinalizando um aumento da assertividade em um espaço muitas vezes tenso.


Essa nova era em que Kim Jong Un se encontra oferece tanto desafios quanto oportunidades. Ele não apenas transformou a Coreia do Norte em um protagonista ativo no cenário global, mas também revitalizou seu regime, oferecendo novas esperanças de estabilidade e poder regional. À medida que o futuro se desenrola, a interação entre as potências da região e a habilidade de Kim em manobrar entre elas definirão os próximos capítulos da história da península coreana.

E assim, a história da Coreia do Norte continua a ser uma intrigante narrativa de ascensão, resiliência e manobrabilidade — uma história que ainda tem muito a revelar. O que você pensa sobre o papel da Coreia do Norte nas dinâmicas globais atuais? Compartilhe sua opinião!

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