A economia europeia enfrenta um desafio significativo e preocupante. No início do século XXI, a produtividade do trabalho na União Europeia (UE) mostrava um crescimento constante, atingindo quase 95% dos níveis dos Estados Unidos. Contudo, essa trajetória positiva teve uma reviravolta, e atualmente, a produtividade na UE é 20% inferior à dos EUA. Um dos fatores importantes por trás dessa queda é a dificuldade da Europa em acompanhar a revolução digital. Dos 100 mais valiosos gigantes da tecnologia no mundo, apenas duas empresas estão sediadas na UE. Além disso, o bloco não possui empresas de escala global nas áreas de computação em nuvem, publicidade online, dispositivos móveis ou design de chips. Na corrida para desenvolver grandes modelos de linguagem que impulsionam a atual era da inteligência artificial, restou apenas a francesa Mistral como competidora.
Mudança de Rumos?
O relatório de Mario Draghi, ex-primeiro-ministro da Itália, sobre a competitividade europeia, publicado em 2024, marcou uma mudança nas percepções. O documento sugeriu várias intervenções políticas, incluindo um aumento nos investimentos públicos em pesquisa e desenvolvimento, além da criação de uma união de mercados de capitais. Até meados de 2026, cerca de 30% das recomendações já tinham sido implementadas. Embora isso represente um bom começo, mesmo que todas as propostas fossem adotadas, elas não seriam suficientes para reanimar a competitividade europeia, pois não atacam a raiz do problema.
O verdadeiro obstáculo não é a falta de ações por parte da UE e de seus governos nacionais, mas, sim, o excesso de regulamentações que inibem essa competitividade. Com uma sobrecarga de políticas trabalhistas e tributárias, burocracias e regulamentos tecnológicos, foram erguidos obstáculos à criação de um ecossistema robusto para startups, tão vibrante quanto o encontrado nos Estados Unidos. Este ecossistema tem sido o berço de muitas das principais empresas inovadoras da alta tecnologia, bem como aquelas que impulsionam inovação e crescimento em outros setores. Se a UE não criar um ambiente propício para o desenvolvimento dessas empresas, seu declínio pode se tornar irreversível.
Grandes Empresas em Transformação
Grandes empresas costumam ser difíceis de transformar. Aquelas bem estabelecidas, com um histórico de sucesso, como muitas que existem na Europa, enfrentam desafios ainda maiores. As 50 empresas mais valiosas da UE possuem, em média, mais de 150 anos de história. Diante de mudanças rápidas e profundas provocadas pela tecnologia, essas corporações muitas vezes não conseguem se adaptar de maneira eficaz. O contraste entre as indústrias automobilística e espacial na Europa e nos EUA ilustra a importância de cultivar um ecossistema saudável de startups.
No início do século XXI, a indústria automobilística passou por duas mudanças marcantes. A primeira, impulsionada por regulamentações e por uma nova demanda, faz com que as montadoras transitem de veículos a combustão para elétricos. A segunda, oriunda de inovações em digitalização e automação, exigiu novas ofertas. Assim, enquanto fabricantes de carros na Europa lutam para se adaptar, a Volkswagen, por exemplo, se destacou. Desde 2015, a montadora anunciou metas ambiciosas para eletrificação e criou sua subsidiária de software, a Cariad. Contudo, mesmo com a venda de aproximadamente dois milhões de veículos elétricos até aquele momento, a empresa ainda enfrenta dificuldades em rotular seus esforços de eletrificação como um verdadeiro sucesso, especialmente após reorganizações e saídas de executivos.
Com a mudança do mercado chinês para veículos elétricos, as vendas de carros da Volkswagen na China, seu maior mercado fora da Europa, caíram consideravelmente, levando a uma queda de 80% nos lucros de suas operações no país ao longo da década. A avaliação da Volkswagen também seguiu um caminho alarmante, com uma diminuição de mais de 60% em termos reais de 2015 até o segundo trimestre de 2026.
A Indústria Automotiva e Seus Desafios
- Mercedes: sua capitalização de mercado caiu mais de 50% desde 2015.
- BMW: uma queda de quase 60%.
- Stellantis: enfrentou prejuízos de mais de 20 bilhões de dólares com veículos elétricos em 2026 e viu sua capitalização de mercado descer 76% desde sua abertura de capital em 2021.
A indústria automotiva representa cerca de 10% do emprego manufatureiro na UE, totalizando mais de três milhões de empregos. Esse número continuará a encolher, a menos que haja aumento na produção de empresas estrangeiras ou uma recuperação significativa entre os fabricantes europeus. Os dados sugerem que os investidores não esperam uma reviravolta nesse cenário.
Assim como a indústria automobilística, a exploração e comercialização do espaço também passaram por transformações radicais. Infelizmente, as empresas do setor espacial na Europa enfrentam desafios semelhantes. O foguete Ariane 6, da ArianeGroup, que deveria iniciar operações em 2020, só decolou em 2024, com custos de desenvolvimento aumentando de 2,7 bilhões de dólares em 2015 para 4,2 bilhões em 2022, apoiados por subsídios anuais significativos dos governos francês, alemão e italiano.
O padrão se repete em várias indústrias: as empresas europeias legadas estão se tornando menos competitivas, perdendo terreno para concorrentes estrangeiros. 25 anos atrás, companhias da UE representavam 36% da capitalização de mercado dos 100 mais valiosos do mundo; até o final de 2025, esse número caiu para menos de 10%. Em um discurso de 2026, Draghi destacou as consequências de não reverter essas tendências: “Há risco de a Europa se tornar subordinada, dividida e desindustrializada.” Esta situação merece a atenção de todos nós.
Os Desafios dos Gigantes Americanos
Nas últimas décadas, os Estados Unidos superaram a UE em competitividade, em parte porque suas empresas tradicionais têm respondido melhor a mudanças tecnológicas. Porém, gigantes como General Motors e Ford também enfrentam suas dificuldades. Nenhuma delas lançou veículos elétricos de sucesso, resultando em reavaliações drásticas de suas metas de produção. GM registrou perdas de pelo menos 8 bilhões de dólares relacionados a veículos elétricos e a Ford quase 20 bilhões.
Ainda assim, os EUA continuam liderando o lançamento de foguetes e ocupam uma posição praticamente monopolista na conectividade de Internet via satélite fora da China. O que também se destaca é a produção de veículos elétricos mais vendidos, que pode ser atribuída ao vibrante ecossistema de startups do país, conhecido como “Silicon Valley”.
Este termo não apenas remete a uma localização, mas simboliza um ambiente propício ao surgimento de inovações. Desde a criação da Tesla em 2003, a empresa produziu mais de 10 milhões de veículos elétricos e gerou lucros que superam 45 bilhões de dólares desde 2020. Adicionalmente, a Tesla já opera táxis autônomos em seis cidades dos EUA, testando suas inovações em um formato que elimina a necessidade de volante e pedais.
Aprendendo com as Melhores Práticas
Para que a Europa possa sair desta situação, é crucial desenvolver seu próprio ambiente inovador, tão produtivo quanto o encontrado na Califórnia. Apesar de alguns indicadores positivos em avaliações de startups continentais, as bases ainda são frágeis e há um longo caminho a percorrer. Em 2023, o investimento em capital de risco na UE chegou a ser superior a 20% do total dos EUA, mas caiu para 12% em 2025, mantendo um histórico de apenas 10% em relação ao total americano ao longo da última década.
Imitar exemplos bem-sucedidos é uma estratégia que a Europa pode adotar. A experiência do Silicon Valley sugere que incentivos para funcionários, como opções de ações e mercados de trabalho flexíveis, são cruciais para um ecossistema tecnológico vibrante. Esses fatores estão sob controle dos países europeus, eliminando a necessidade de coordenação entre os governos nacionais. Medidas como as implementadas por países como Dinamarca e Luxemburgo, que possuem legislações mais amigáveis para startups, mostram que ainda há espaço para melhorias.
É Hora de Mudar
A abordagem da União Europeia em relação à regulamentação tecnológica precisa urgentemente ser reavaliada. Atualmente, as autoridades parecem acreditar que a regulamentação não impõe limitações significativas à inovação. Contudo, os resultados das regulamentações, como o GDPR, mostram que a capacidade de investimento em startups diminui e a competição saudável é prejudicada. Estudos revelam que muitas aplicações deixaram de existir ou tiveram um crescimento reduzido devido a exigências de conformidade. Com isso, os custos e a burocracia se tornam um fardo, especialmente para startups.
Por isso, o momento é crítico. A Europa possui recursos valiosos, como uma população talentosa e instituições de ensino renomadas. No entanto, o sucesso futuro dependerá de eliminar barreiras que dificultam a escalabilidade e a atração de capital de risco. Se as empresas europeias não forem apoiadas adequadamente, há o risco de ficarem para trás em um cenário global cada vez mais competitivo.
Portanto, é imperativo agir agora. O tempo não é um aliado e as indústrias europeias enfrentarão desafios consideráveis nos próximos anos. As decisões políticas imediatas moldarão a capacidade da Europa de se reinventar e conquistar um espaço no futuro crescimento global. A hora de agir é agora!


