Diplomacia em Tempos Adversos: Expectativas e Realidades nas Relações EUA-China
A história da diplomacia americana no século XX é repleta de sucessos que criaram expectativas elevadas para as relações internacionais. Entre os marcos mais notáveis estão a rendição incondicional da Alemanha e do Japão em 1945, a formação da NATO em 1949 por Harry Truman, a resolução da crise dos mísseis cubanos em 1962 por John F. Kennedy e os acordos de controle de armas negociados por Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev nos anos 80. Essas vitórias moldaram a visão de muitos americanos de que seus líderes eram capazes de resolver impasses políticos complexos.
Esse anseio é especialmente perceptível entre especialistas em relações com a China. O momento decisivo de 1972, quando Richard Nixon e seu conselheiro de segurança nacional, Henry Kissinger, redefiniram o mapa geopolítico ao visitar Mao Zedong, deixou um legado profundo. Em 1979, Jimmy Carter deu outro passo significativo ao restabelecer relações diplomáticas com a China, recebendo o líder Deng Xiaoping na Casa Branca de forma emblemática.
Expectativas e a Realidade Atual
Atualmente, as relações entre os EUA e a China estão passando por um processo de crescente adversidade. O clamor por um novo momento de virada, impulsionado pela figura carismática de líderes como Donald Trump, reflete a esperança de que um novo acordo possa surgir. Trump enfatiza a ideia de que ele é capaz de alcançar acordos essenciais apenas com seu charme e personalidade. No entanto, mesmo analistas mais experientes têm, muitas vezes, expectativas excessivas sobre o potencial de sucesso em encontros como a tão aguardada cúpula entre Trump e Xi Jinping marcada para setembro de 2026.
O Encontro de May: Frustração em vez de Progresso
Infelizmente, o esperado progresso não se concretizou na cúpula de maio em Pequim, onde estive presente como jornalista. Apesar de criar uma paz evasiva, que o presidente Xi chamou de “estabilidade estratégica construtiva”, a natureza adversarial das relações permaneceu inalterada. Ambos os países estão presos em uma dinâmica de ambiguidade estratégica, caracterizada por diplomacia punitiva e exploração de cadeias de suprimentos críticas para pressionar um ao outro.
O Próximo Encontro: Expectativas com os Pés no Chão
Com a próxima cúpula de Trump e Xi se aproximando, é vital ter as expectativas sob controle. As mesmas limitações que impediram a cúpula de maio também estarão presentes. A divergência ideológica entre EUA e China é apenas parte do problema; as personalidades dos líderes também se opõem ao tipo de negociação que a rivalidade atual exige. Xi vê compromisso como sinal de fraqueza e tem dificuldades em entender a lógica do “ceder um pouco para ganhar um pouco”, que está no cerne da diplomacia. Por outro lado, Trump apresenta uma natureza contraditória e impulsiva, tornando a diplomacia eficaz quase impossível.
A Questão da Confiança
Historicamente, os encontros produtivos entre EUA e China dependiam da capacidade dos líderes de superar barreiras de desconfiança. O tipo de bajulação superficial e camaradagem em que Trump brilha não gera a confiança mais profunda necessária. Líderes chineses estão historicamente imersos em medos paranóicos sobre as intenções dos estrangeiros em relação a seus sistemas comunistas. Nixon compreendeu isso e, antes de sua visita à China, preparou o terreno com a mensagem de que era hora de acolher a China na “família das nações”.
Construindo Confiança
Para aumentar a transparência e a confiança, Nixon enviou Kissinger a Pequim para se encontrar com Zhou Enlai, o vice de Mao. Kissinger acabou por admirar Zhou, elogiando-o como um dos “mais impressionantes” que já conhecera. Essa troca de respeito mútuo criou um clima propício para negociações frutíferas. A interação entre Jimmy Carter e Deng Xiaoping em 1979 também exemplificou como uma base de respeito pode legitimar mudanças diplomáticas significativas.
Em contraste, a cúpula de maio foi marcada pela unilateralidade, com Trump proclamando que ele e Xi tinham uma “fantástica relação”, enquanto Xi permaneceu distante, respondendo de maneira contida. A ausência de um evento público compartilhado, que permitisse um momento de camaradagem, retirou do encontro elementos importantes de boa vontade.
As Armadilhas da Indiferença
A fria recepção a Trump em sua visita a Pequim destacou a falta de reciprocidade nas interações. Xi, por sua vez, pode ter sido atraído pelos elogios, mas sua desconfiança permanece profunda. A politica externa de Trump, flutuando entre conciliação e confronto, não estabeleceu a base necessária para um encontro de sucesso. Sua tendência de agir por instinto, sem um plano coerente, também foi um obstáculo.
Personalidades em Conflito
A dinâmica entre Trump e Xi reflete uma incompatibilidade fundamental em estilos de liderança. Trump tenta personalizar a diplomacia, enquanto Xi adota uma abordagem mais controlada, baseada no legalismo, uma filosofia de governança que preza pelo controle absoluto. Essa diferença torna a comunicação e a colaboração desafiadoras, já que Xi se apresenta como um líder opaco e distante, evitando momentos espontâneos que poderiam tornar a diplomacia mais eficiente.
O Futuro das Relações EUA-China
As expectativas para a próxima cúpula devem ser ajustadas. A esperança de que Trump possa persuadir Xi a atuar como um colega colaborativo através de elogios e pressão é irrealista. Xi não é um líder seguro, tendo vivido uma juventude marcada por dificuldades e traições. Seus gestos de controle, tanto em relação a seus súditos quanto a suas emoções, revelam um homem que esconde suas inseguranças sob uma fachada impenetrável.
Um Chamado à Reflexão
Portanto, é imperativo que assessores de Trump não só reduzam suas próprias expectativas, mas também estejam prontos para a possibilidade de desafios que as interações com Xi podem trazer. As nuances da personalidade de Trump, ao se sentir desvalorizado pela indiferença de Xi, podem levá-lo a adotar uma postura punitiva, comprometendo ainda mais o diálogo.
Nestes tempos de crescente tensão, o importante é que ambos os lados reconheçam que a boa vontade e a verdadeira diplomacia demandam muito mais do que discursos vazios e estratégias efêmeras. É fundamental que os líderes, ao invés de se limitarem a jargões e simpatias superficiais, se empenhem em entender as motivações uns dos outros, estabelecendo um clima de confiança genuína. Esse diálogo aberto e autêntico será a chave para enfrentar os enormes desafios que às relações entre os Estados Unidos e a China.
Se você ficou intrigado com essas reflexões sobre a diplomacia contemporânea, sinta-se à vontade para compartilhar suas opiniões e discutir suas perspectivas sobre o assunto. O futuro das relações internacionais depende da capacidade de diálogo e compreensão mútua, aspectos fundamentais que devem ser cultivados por todos nós.


