Victor da Silva Machado assumiu, em 2009, a propriedade rural do pai em Jaraguari, no Mato Grosso do Sul, e transformou a área de 10 hectares em uma fonte de renda para a família. Dezessete anos depois, o Rancho Chão Parado reúne cultivo de hortaliças, criação de animais e aproveitamento de frutas do cerrado, enquanto os filhos começam a considerar a continuidade do negócio.
Projeto do pai virou atividade familiar
Machado tinha 31 anos quando deixou Campo Grande para viver no Assentamento Estrela, próximo à BR-262. Até então, trabalhava na cidade com pequenas reformas, pintura e serviços de elétrica. A mudança ocorreu depois que seu pai, trabalhador rural, recebeu um lote no assentamento e passou a viver no local. Ele morreu de câncer cerca de um ano depois de chegar à área.
Para evitar que a terra ficasse sem continuidade, Victor assumiu a chácara e levou adiante o plano do pai. Embora desejasse morar no campo, não esperava que isso acontecesse tão cedo. Sua experiência vinha, principalmente, das vezes em que acompanhava o pai nas fazendas onde ele trabalhava.
“Significou demais para mim continuar o projeto do meu pai, porque ele queria morar na área rural. As coisas aconteceram muito rápido e foi muito boa a decisão de virmos para cá”, disse o produtor.
A adaptação exigiu mudanças na rotina e na estrutura da família. Quando Victor se mudou com a esposa e os filhos, a casa era de madeira e tinha dois cômodos. A poupança que levaram da cidade acabou em cerca de um ano, e a propriedade não tinha energia elétrica nem poço. A família passou um ano sem luz e buscava água em uma nascente do assentamento para os animais; para consumo próprio, comprava água mineral.
Cinco anos após a mudança, Victor começou a construir uma casa maior. A obra levou dez anos para ser concluída. Ao longo do processo, a família também plantou árvores: o produtor estima que já colocou mais de 3 mil no terreno, entre palmeiras, coqueiros e espécies frutíferas.
Hortaliças lideram a produção
A primeira aposta para gerar renda foi o cultivo de hortaliças, como tomate, abobrinha, cheiro-verde e alface. A família levava os produtos para vender na cidade, enquanto Victor também começou a criar porcos. Hoje, a horta ocupa uma área menor, mas conta com um sistema hidropônico e produz, em média, mil pés de alface por mês. Conforme o período, parte da produção é substituída por outras culturas, como agrião.
As hortaliças continuam sendo o principal produto da propriedade. A comercialização, porém, mudou: no início, Victor procurava pequenos mercados e clientes na cidade. Atualmente, vende na própria região rural, que reúne cerca de 300 propriedades, e participa de uma feira de agricultura familiar realizada aos domingos.
A produção também inclui 15 carneiros, dois porcos e 2 mil tilápias. Parte dos 10 hectares é destinada à pastagem. Uma vez por ano, o produtor coleta frutas do cerrado e prepara licor para vender na feira de agricultura familiar no fim do ano.
A diversificação foi acompanhada por assistência do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) de Mato Grosso do Sul. Victor já plantava hortaliças, mas precisava de orientação sobre práticas como o controle de pragas. A família também recebe apoio na criação de ovinos, atividade em que os animais são vendidos a um frigorífico. Segundo o produtor, a assistência chegou em um momento importante para o desenvolvimento do trabalho.
Trabalho e planos para as próximas gerações
Victor e a esposa, Ana Paula, são a principal mão de obra do rancho. Ele cuida dos animais, da alimentação, das cercas e da manutenção da propriedade. Ana Paula se ocupa das tarefas domésticas e participa do trabalho rural quando necessário. A filha mais velha, Joianne, continua morando no local. O filho caçula, João Victor Pereira Machado, de 19 anos, trabalha em uma empresa de reflorestamento e ajuda no rancho principalmente nos fins de semana.
João começou a trabalhar com o pai aos 13 anos e pretende seguir na atividade rural. “O serviço tem que ser realizado todo dia e não pode procrastinar. Depende de você estar ali, envolvido diariamente”, afirmou. Ele também planeja juntar dinheiro no emprego atual para investir na chácara.
Entre as ideias da família está receber visitantes da cidade nos fins de semana, com venda de peixe frito e carneiro assado. Antes disso, Victor pretende reformar a pastagem e instalar telas no perímetro para evitar a fuga dos animais. “A propriedade representa uma renda que dá para a gente sobreviver bem aqui”, disse.