O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou, em carta dirigida a parlamentares do partido, que pretende liderar a oposição a partir dos Estados Unidos, onde diz ter mais liberdade para se manifestar do que políticos de direita no Brasil. A decisão ocorreu após ele ser intimado a entregar os passaportes, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e foi tomada sem consulta prévia a aliados, segundo a notícia.
Carta promete estratégia de mobilização
No texto, Flávio disse que os parlamentares do PL não têm “a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política”. “Por isso, liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr”, escreveu.
O senador também comparou sua situação à de Rui Barbosa, que se exilou em Buenos Aires em 1893 para escapar da prisão e de possíveis represálias do governo de Floriano Peixoto. Na época, o jurista se opunha ao presidente por considerar inconstitucional seu mandato após a renúncia de Deodoro da Fonseca, em 1891, sem a realização de novas eleições.
Ao final da carta, Flávio afirmou que apresentaria nos dias seguintes uma estratégia para mobilizar a oposição e seus apoiadores por meios que chamou de pacíficos e legítimos. O objetivo, segundo ele, seria impedir que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) “consolide um regime ditatorial no Brasil”.
Parlamentares e interlocutores próximos ao senador evitaram detalhar como ele pretende atuar no exterior. A reação, segundo a notícia, foi influenciada pela surpresa com a decisão, tomada rapidamente e sem consulta a aliados. A ordem para entregar os passaportes foi emitida por Moraes na noite de domingo (25), depois de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proclamar a reeleição de Lula. O pedido da Polícia Federal, apresentado no âmbito de uma investigação sigilosa, chegou ao ministro sete minutos após o anúncio da derrota de Flávio. O senador classificou a medida como sinal de perseguição política.
Atuação no exterior pode ter limites
O jornalista e empresário Paulo Figueiredo, aliado da família Bolsonaro nos Estados Unidos, afirmou que a liderança pretendida por Flávio seria “moral”, e não uma função formal de comando sobre os parlamentares brasileiros. “A liderança não se exerce com a caneta, e sim com o exemplo”, escreveu na rede X. Ele também declarou que o movimento continuaria sob a liderança da família.
Na sexta-feira (30), Figueiredo esclareceu que Flávio não pretende disputar a Presidência em 2030. Segundo o empresário, a oposição deveria trabalhar para que novas eleições ocorram antes. Ele afirmou que “o povo vai votar Bolsonaro de novo”, sem especificar se se referia ao ex-presidente Jair Bolsonaro ou a outro integrante da família.
Figueiredo também disse que Flávio poderia denunciar, ao lado do deputado Eduardo Bolsonaro, o que considera perseguição à direita por parte de Moraes e de Lula. Na avaliação dele, o senador poderia ainda ajudar brasileiros perseguidos a obter acolhida nos Estados Unidos. “A cada ação de perseguição de Alexandre Moraes e Lula, só complica a relação entre o Brasil e os Estados Unidos”, afirmou.
O analista político Alexandre Bandeira avalia que a permanência nos Estados Unidos permitiria a Flávio criticar o governo e mobilizar apoiadores com menor exposição a decisões do STF. Ele comparou a possível atuação à do blogueiro Allan dos Santos, mas disse que o senador teria o peso do sobrenome Bolsonaro. Bandeira, porém, manifestou dúvida sobre a capacidade de Flávio comandar as bancadas do PL no Congresso: “Na política, nem sempre querer é poder”.
A analista política Yolanda Tolentino também considera que, no exterior, Flávio poderia adotar um discurso mais duro, enquanto aliados no Brasil seguiriam atuando nas instituições. Ela pondera que falas sobre fraude eleitoral sem provas, críticas a ministros do STF e a caracterização do país como um “regime de exceção” podem resultar em investigações. Tolentino citou o senador Rogério Marinho, coordenador da campanha, que afirmou não haver provas de fraude e tratou a carta como um desabafo.
Riscos políticos e diplomáticos
Tolentino aponta que a tentativa de interlocução com o governo americano também pode trazer consequências. Ela citou o caso de Eduardo Bolsonaro, condenado pelo STF por coação no curso do processo, sob acusação de incitar a administração de Donald Trump a sancionar Moraes para evitar a condenação de Jair Bolsonaro. Para a analista, um parlamentar em exercício não faria esse tipo de articulação no Brasil sem se expor a processo e possível cassação.
Entre os riscos para Flávio, Tolentino mencionou a possibilidade de prisão preventiva, alerta internacional de difusão vermelha da Interpol, bloqueio de bens e desgaste político. Ela afirmou que o senador deixou o país apesar da ordem de entrega dos passaportes e que existe um pedido de prisão no STF, mas não um mandado. Segundo ela, Flávio também perde o mandato e o foro em 31 de janeiro.
Márcio Coimbra, CEO da Casa Política e ex-diretor da ApexBrasil e do Senado, vê espaço para Flávio atuar junto a grupos conservadores, congressistas republicanos e organizações internacionais de direitos humanos. Ele avalia que o senador poderia usar transmissões e pronunciamentos para divulgar sua posição, mas ressalta que a articulação diária no Congresso exige presença em Brasília. Sem isso, disse, a liderança corre o risco de se tornar retórica e abrir espaço para políticos presentes no país, como Tarcísio de Freitas.
Coimbra também apontou que um comando concentrado no embate internacional pode dificultar a coordenação da oposição e afastar aliados de centro. Para Tolentino, as divergências sobre a acusação de fraude eleitoral podem pressionar parlamentares do PL a escolher entre acompanhar Flávio ou se distanciar. Essa tensão, afirmou, deve influenciar a reorganização da oposição até a eleição para a presidência do Senado, prevista para fevereiro.