Produtores argentinos de soja e milho antecipam a semeadura e ajustam o manejo no início da safra de verão 2026/27 para reduzir os riscos associados à previsão de chuvas intensas provocadas pelo El Niño. A estratégia busca evitar que o período mais crítico do fenômeno coincida com o plantio e proteger investimentos de cerca de US$ 15 bilhões por ciclo, equivalentes a R$ 81 bilhões.
O fenômeno climático tende a elevar as precipitações e a umidade do solo no Cone Sul, região que inclui o sul do Brasil, o Uruguai e o centro e leste da Argentina. Para os agricultores, o desafio é conciliar o calendário das lavouras com a distribuição das chuvas: o excesso pode atrapalhar o trabalho no campo, mas a umidade também pode favorecer o desenvolvimento das plantas depois que elas se estabelecem.
Safra tem peso nas exportações
A Bolsa de Cereais de Buenos Aires estima que a Argentina semeará pouco mais de 37 milhões de hectares neste ciclo. Considerando seis culturas extensivas — soja, milho, trigo, cevada, girassol e sorgo —, a produção total pode chegar a 157,9 milhões de toneladas, dependendo dos rendimentos das lavouras.
Com esse volume, o produto interno bruto agroindustrial argentino poderia alcançar US$ 54,3 bilhões, ou R$ 293,2 bilhões. As exportações e a entrada de divisas são projetadas em US$ 41,5 bilhões, equivalentes a R$ 224,08 bilhões. Segundo os cálculos citados, esse montante corresponde a quase 83% das reservas brutas do Banco Central do país.
O valor de US$ 15 bilhões investido pelos produtores em cada ciclo inclui sementes híbridas, fertilizantes, defensivos agrícolas, outros insumos e custos operacionais. A dimensão desses gastos ajuda a explicar a cautela do setor diante das projeções climáticas e a atenção à gestão de prazos e informações.
Plantio antecipado e mudanças no manejo
Na soja, os trabalhos começaram em 15 de outubro, antes do calendário habitual, que costuma ter início depois do dia 20. A Guia Estratégica para o Agro da Bolsa de Comércio de Rosário (GEA-BCR) informa que a área semeada também será 2% maior que a de ciclos anteriores. A instituição chamou a estratégia de “soja tática”.
De acordo com os técnicos da GEA-BCR, a antecipação de quatro a sete dias busca maximizar os rendimentos, otimizar a logística e reduzir problemas de implantação das lavouras. Na região núcleo — que abrange o leste de Córdoba, o centro e o sul de Santa Fé e o norte de Buenos Aires —, produtores também aumentam a quantidade de sementes por metro quadrado e estreitam o espaçamento entre linhas.
O manejo inclui intensificação do controle de plantas daninhas, preferência por ciclos mais precoces e maior uso de sementes certificadas em substituição às sementes guardadas de safras anteriores. Essas medidas são direcionadas, entre outros objetivos, a obter melhores resultados nos talhões com maior aptidão produtiva.
No milho, a recomendação também é priorizar o plantio precoce. Eugenio Irazuegui, analista de mercados agrícolas da corretora de grãos Zeni, afirmou que a tendência é favorecer as lavouras de primeira época em vez dos cultivos tardios ou de safrinha. Pelas projeções, de 55% a 60% da área destinada ao cereal deverá receber plantio antecipado.
Até 22 de outubro, a semeadura de milho para fins comerciais havia alcançado 39,8% dos 8,4 milhões de hectares previstos, segundo a Bolsa de Cereais de Buenos Aires. O avanço foi de cinco pontos percentuais em uma semana.
Chuvas podem ajudar ou interromper as atividades
Nas regiões núcleo e centro-leste de Entre Ríos, o plantio de primeira época se aproximava da conclusão. Irazuegui explicou que o início da semeadura da soja na segunda metade de outubro considera as previsões de novembro e dezembro mais chuvosos. O período de maior precipitação, que antes era esperado entre janeiro e março, agora pode ocorrer mais cedo.
O efeito do El Niño depende do momento e do local. Chuvas fortes durante o plantio podem impedir a entrada de máquinas e dificultar as operações. Depois do estabelecimento das lavouras, porém, a umidade pode favorecer o desenvolvimento vegetativo da soja e elevar a produtividade.
A Mesopotâmia argentina, que inclui o sul de Misiones, Corrientes e Entre Ríos, deve estar entre as áreas mais afetadas. A saturação do solo já provoca cheias de rios e alagamentos. Em contraste, Córdoba e San Luis registram déficit hídrico, o que, segundo Irazuegui, deixa margem no curto prazo para absorver chuvas sem danos imediatos.
As inundações também podem causar atoleiros nas lavouras, deteriorar estradas rurais, elevar os custos de transporte e de alojamento do gado e reduzir pastagens depois que a água recua. Esses impactos atingem a produção mesmo quando as plantações não sofrem danos diretos.
O trigo está na etapa final de enchimento dos grãos, e a colheita dos primeiros talhões deve começar em novembro. Irazuegui estima uma safra de cerca de 23 milhões de toneladas, o segundo maior volume histórico, atrás das 27,8 milhões de toneladas do ciclo anterior. O analista alertou que o excesso de chuva pode dificultar o acesso das colheitadeiras e reduzir a qualidade dos grãos.