A Revolução de Ahmed al-Shara e o Futuro da Síria
Em um ano extraordinário, Ahmed al-Shara, um ex-comandante da al-Qaeda, fez o impensável: derrubou uma ditadura que dominou a Síria por meio século. Ao se tornar o líder do país, ele não apenas conseguiu que várias sanções internacionais, impostas durante o regime de Bashar al-Assad, fossem suspensas, mas também assegurou promessas de bilhões de dólares em investimentos de nações árabes e ocidentais. Além disso, Shara se uniu à coalizão liderada pelos EUA contra o Estado Islâmico (ISIS). Essa reabilitação internacional era inimaginável quando ele emergiu das cinzas da antiga administração.
Desafios Internos: O Lado Escuro da Vitória
Apesar de seus sucessos diplomáticos, Shara enfrenta dificuldades internas. As características que permitiram à Hayat Tahrir al-Sham (HTS), o grupo militante que ele liderou até sua formal dissolução, conquistarem Damasco em dezembro de 2024 agora complicam seus esforços para reconstruir a Síria. O controle rígido, a sobrevivência priorizada e a abordagem implacável para desmantelar rivais criaram um sistema de governo que concentra poder em um círculo restrito de ex-líderes da HTS. Eles ainda não definiram uma visão clara para o futuro político do país.
Este cenário gerou incertezas entre grupos minoritários e até mesmo entre integrantes da maioria sunita, que se mostram receosos quanto à nova liderança. A tensão se intensificou no nordeste sírio, onde as forças do governo invadiram territórios controlados pelas Forças Democráticas Sírias (SDF). Um recente acordo entre a SDF e o governo, que inicia o processo de integração dessa força nas instituições estatais, pode ajudar a aliviar essas tensões, mas o progresso precisa continuar. Caso contrário, a Síria poderá enfrentar novos ciclos de violência, colocando em risco os avanços adquiridos na comunidade internacional.
Abrindo Espaço para o Diálogo Político
Para garantir uma estabilidade duradoura, é crucial que o sistema político se torne realmente inclusivo. Até agora, Shara hesitou em adotar essa abordagem. Contudo, ele é um político astuto, e ao longo da última década, ele guiou sua organização em direção a alianças estratégicas com parceiros internacionais. Mesmo antes da queda de Assad, ele já permitira reformas para responder a protestos locais em Idlib. Agora, para consolidar seu progresso, Shara precisará proporcionar aos sírios uma participação real no futuro do país.
Reabrindo as Portas para o Mundo
A reaproximação da Síria com a comunidade internacional foi surpreendentemente rápida. Quando a HTS conquistou Damasco, a Síria era vista como uma pária, sob sanções principalmente devido às repressões do regime de Assad. A própria HTS fazia parte da lista de organizações proscritas da ONU. No entanto, em poucos meses, o novo governo restaurou relações com países antes hostis e convenceu potências ocidentais a começar a reverter sanções. Em um grande passo, a ONU retirou Shara e o ministro do Interior, Anas Khattab, da lista de sanções, destaca que a HTS ainda permanece na lista, visando acalmar preocupações sobre a presença de milicianos uigures.
Entre as promessas assumidas pelo novo governo estavam:
- Combater o Estado Islâmico.
- Desmantelar a infraestrutura de armas químicas.
- Prevenir a atuação de forças alinhadas ao Irã em território sírio.
- Integrar milicianos estrangeiros na nova força militar nacional.
Essa abordagem pragmática, junto com o apoio de países como Catar, Arábia Saudita e Turquia, facilitou a rápida redução de sanções internacionais.
Gestando Relações Difíceis
O governo sírio, com sua habilidade em manejar relações complexas, conseguiu manter a cooperação com a Rússia, que apoiou o regime de Assad. Além disso, tomou medidas para restringir a influência iraniana, desmantelando milícias alinhadas a Teerã e evitando confrontos diretos. Em meio a tensões, as autoridades sírias têm buscado desescalar situações com Israel, mesmo diante de ataques contínuos.
Os Desafios da Governança
Apesar dos avanços, a transição política síria ainda é frágil. Se por um lado, Shara conseguiu unir facções armadas e tomar controle sem revoltas, por outro, o poder permanece em suas mãos e nas de seus aliados. A doação de cargos militares a comandantes de facções rivalizantes ajudou a mitigar conflitos, mas não garantiu um controle completo. Em vez de um governo inclusivo, alguns sírios veem a nova administração como uma mera reconfiguração autoritária do antigo regime.
A Inclusão Simulada
Embora o novo governo se distancie de uma agenda islâmica severa, sua composição ainda é dominada por leais a Shara, e o parlamento recém-formado não reflete adequadamente a diversidade de interesses e opiniões do país. Por exemplo, embora se tenha incluído algumas figuras não ligadas à HTS, a presença feminina é quase inexistente, com apenas seis mulheres entre os 119 membros do parlamento.
Além disso, as forças governamentais têm enfrentado críticas por sua gestão de tensões sectárias e violência, exacerbadas por sua abordagem pesada. A resposta a conflitos recentes, como em Sweida, têm causado sofrimento e desconfiança nas comunidades afetadas.
Preparando-se para o Futuro
Os desafios que a Síria enfrenta são reflexo de sua transição política incompleta. O novo governo redigiu uma constituição e estabeleceu um parlamento, mas a confiança do povo em que essas instituições permitirão uma participação significativa e farão justas distribuições de poder é escassa. Para ser sustentável, a nova ordem deve garantir uma participação política real e a proteção dos direitos das diversas comunidades.
Experiências passadas mostram que a inclusão é essencial para a paz duradoura. O diálogo aberto e as concessões genuínas são passos fundamentais. Somente com uma abordagem inclusiva é que o novo governo poderá construir um estado que represente todos os sírios, e não apenas uma facção.
Cada ação e decisão tomadora será crucial para moldar um futuro em que todos os cidadãos sírios se sintam parte do mesmo projeto estatal. Se os líderes em Damasco não conseguirem implementar essas mudanças, o risco é de que a Síria permaneça em um ciclo de crises, sem conseguir reconciliar seus diversos grupos e interesses.
Pense no futuro da Síria: será um estado que integra todas as vozes e perspectivas, ou seguirá um caminho conturbado de exclusão e conflitos? O que você acha que deve ser feito para garantir a paz e a estabilidade neste novo capítulo da história do país?


