Startup congela medula óssea de doadores falecidos para salvar pacientes com câncer


Jonathan Moore, de 48 anos, recebeu em janeiro um transplante de medula óssea de um doador falecido, após ser diagnosticado com leucemia agressiva e não encontrar um doador compatível entre familiares ou nos registros de pessoas vivas. O material foi fornecido pela Ossium, empresa que coleta e congela medula óssea para uso em pacientes. Depois do procedimento, a saúde de Moore começou a melhorar.

“Isso me deu uma nova vida”, disse o paciente. Ele considera a data do transplante seu novo aniversário. A cirurgia foi uma das 29 realizadas com medula óssea preservada pela startup, em ensaios clínicos ou programas de uso compassivo. Segundo a empresa, todos esses procedimentos foram bem-sucedidos.

Medula preservada para transplantes

A Ossium coleta tecido medular de doadores falecidos e o armazena congelado em um biobanco em Indianápolis. A tecnologia pode oferecer uma alternativa a pacientes que não encontram um doador vivo compatível ou que não podem esperar pela busca. Enquanto essa procura costuma levar de dois a quatro meses, a empresa diz que pode entregar o material em até 72 horas.

A medula óssea pode ser congelada sem perder a capacidade de uso por causa das características de suas células-tronco. Isso a diferencia de órgãos como coração e pulmão, que precisam ser transplantados poucas horas após a morte do doador e podem sofrer danos no congelamento e descongelamento.

A proposta, porém, exigiu convencer médicos de que o material preservado não acrescentaria riscos a um procedimento que já pode causar complicações, como a doença do enxerto contra o hospedeiro — reação em que as células transplantadas atacam o organismo do paciente — e danos a órgãos. “Muita gente nos disse que o que estávamos fazendo era loucura, e principalmente muitos médicos”, afirmou Kevin Caldwell, cofundador e presidente-executivo da Ossium.

A companhia decidiu conduzir estudos clínicos para reunir dados sobre segurança e eficácia, embora o armazenamento não seja regulado pela Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês). A agência enquadrou o procedimento nas mesmas regras aplicadas à medula de doadores vivos.

Os estudos indicaram que o tecido coletado pela empresa pode ter características favoráveis em comparação com o de doadores vivos. A Ossium obtém medula dos corpos vertebrais e de segmentos ósseos da coluna, regiões com grande concentração de medula vermelha ativa. Médicos não costumam retirar material dessas áreas de doadores vivos porque o acesso à coluna é considerado arriscado; em geral, coletam a medula na parte posterior do osso do quadril.

Operação e planos de crescimento

A empresa foi criada há cerca de uma década por Caldwell, ex-consultor de saúde da McKinsey, e Erik Woods, especialista em criopreservação. Eles apostaram que o tecido medular que antes era descartado por organizações de doação de órgãos poderia ser armazenado e disponibilizado quando necessário.

Desde então, a Ossium captou US$ 158 milhões de investidores, entre eles First Round Capital e General Catalyst. A última rodada, em 2023, avaliou a empresa em US$ 300 milhões. A receita deve alcançar US$ 35 milhões neste ano, ante US$ 20 milhões no ano passado. Caldwell projeta mais de US$ 120 milhões em receita no próximo ano, com mais de 60 transplantes. Para 2028, a expectativa é de quase 200 procedimentos.

A startup prepara o lançamento comercial da medula para fevereiro do próximo ano. Até agora, o material foi usado principalmente contra cânceres do sangue e, em um caso, para tratar anemia aplásica grave, doença rara em que o organismo deixa de produzir células sanguíneas em quantidade suficiente. A companhia também quer estudar aplicações em anemia falciforme e doenças autoimunes, como diabetes tipo 1.

Em 2024, a Ossium fechou um contrato de até US$ 125 milhões com a Autoridade Federal de Pesquisa e Desenvolvimento Biomédico Avançado dos Estados Unidos (BARDA, na sigla em inglês) para manter medula armazenada para o caso de uma emergência radiológica ou nuclear. A empresa também aproveita material excedente para produzir enxertos de matriz óssea congelada, usados em cirurgias ortopédicas para reparo e reconstrução da coluna, da pelve e das extremidades.

Capacidade e acesso a doadores

No biobanco de Indianápolis, o processamento dos ossos da coluna leva de quatro a seis horas. A medula é colocada em bolsas e armazenada em tanques a menos 150 graus Celsius, com capacidade para até 850 unidades. Cada doador pode fornecer material para tratar, em média, três pacientes. A empresa tem 15 patentes relacionadas à coleta e ao armazenamento, mas hoje consegue processar apenas quatro doadores por dia.

A Ossium mantém parcerias com 60% das organizações de doação de órgãos dos Estados Unidos, que representam de 7 mil a 8 mil potenciais doadores por ano. A ampliação da oferta pode reduzir um obstáculo importante: pelo menos 70% dos pacientes que precisam de transplante não têm um familiar compatível e dependem de um doador não aparentado. As chances de encontrar compatibilidade são ainda menores para pacientes negros e do sul da Ásia, devido à falta de diversidade nos cadastros.

A empresa já realizou seu primeiro transplante em um paciente de 14 anos neste ano. O primeiro procedimento ocorreu em 2024, em uma mulher de 68 anos de Detroit com leucemia e sem outras opções de tratamento. “A gente fica apreensivo até o primeiro paciente. Ela foi nossa verdadeira pioneira”, afirmou Woods.

Como o transplante envolve riscos significativos, costuma ser reservado a doenças graves e, muitas vezes, fatais. Caldwell disse que a prioridade é demonstrar que os benefícios superam os efeitos colaterais. A empresa também considera, no longo prazo, estudar o uso da medula congelada para renovar o sistema imunológico de pessoas mais velhas, mas o executivo estima que essa possibilidade ainda levará pelo menos uma década.

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