Empreendedores do agronegócio defenderam a adaptação da tecnologia às condições das propriedades rurais, a ampliação do crédito privado e a renovação de lideranças durante o painel “The New Agripreneurs: A nova geração que está reinventando o campo”. O debate ocorreu na quinta-feira (29), em São Paulo, no primeiro Forbes Under 30 Summit Brasil, e tratou de desafios para inovar e financiar negócios em um cenário de juros elevados e maior seletividade dos investidores.
Mediado por Vera Ondei, editora de Agro da Forbes Brasil, o painel reuniu Diana Jank, da Letti A²; Fabiane Kuhn, fundadora da Raks Tecnologia Agrícola; e Henrique Galvani, da Arara Seed. Os três empreendedores, reconhecidos pela lista Forbes Under 30, também abordaram a sucessão geracional e a comunicação entre produtores e consumidores.
Na abertura, Ondei afirmou que cerca de 11% da população ocupada no campo tem menos de 35 anos. Para os participantes, a baixa presença de jovens em um setor relevante para a economia abre espaço para novos negócios e soluções. “O jovem não é apenas o futuro, ele é o presente”, disse Kuhn.
Tecnologia precisa funcionar na propriedade
Kuhn contou que se aproximou do agronegócio em 2015, durante o ensino médio técnico em eletrônica. A crise hídrica daquele período despertou seu interesse pela gestão da água na agricultura. Pesquisas sobre o uso de tecnologia para apoiar decisões de irrigação levaram ao projeto que deu origem à Raks, empresa especializada em sensores de umidade do solo.
A experiência de levar o produto do laboratório para as fazendas expôs obstáculos que não apareciam nos testes iniciais. Entre eles estavam problemas de conectividade e logística, além das condições climáticas. Segundo Kuhn, a primeira versão de um equipamento, testada em ambiente urbano, não resistiu a um dia de chuva na fazenda. A falta de sinal de internet também exigiu mudanças no desenvolvimento.
“Há gargalos severos de conectividade e logística. Coisas que na cidade tomamos como garantidas chegam ao campo e simplesmente inexistem”, afirmou. A empreendedora disse que a equipe passou a desenhar o produto a partir da realidade dos usuários, em vez de desenvolver primeiro uma tecnologia e depois tentar adaptá-la ao setor.
Na avaliação de Kuhn, a variedade de culturas, solos e sistemas produtivos no Brasil exige soluções ajustadas a cada operação. A tecnologia, afirmou, deve apoiar o trabalho do produtor e ajudá-lo a tomar decisões, não competir com ele. “A tecnologia não tem que ser uma competição, ela tem que ser uma aliada dos produtores rurais”, disse.
Juros pressionam financiamento
Galvani apontou o crédito privado como uma alternativa às linhas tradicionais oferecidas por bancos. À frente da Arara Seed, plataforma voltada à captação de recursos para startups do agronegócio, ele relatou que a empresa captou cerca de R$ 45 milhões recentemente. A maior parte dos investidores da plataforma está em São Paulo e inclui fundos de investimento e grandes corporações, enquanto os negócios financiados atuam ligados ao campo.
O empreendedor afirmou que a gestão de risco e a governança das empresas precisam acompanhar os avanços tecnológicos na produção. “Apesar de os produtores adotarem muita tecnologia em campo, vemos ainda que a gestão de risco do agronegócio é o que tem muito a ser otimizado”, disse. Ele também destacou que os juros elevados tornaram os investidores mais seletivos e aumentaram a dificuldade de captação para empreendedores.
“O capital está muito mais seletivo neste momento de altas taxas de juros, o que afoga o empreendedor e faz o investidor buscar correr menos risco”, afirmou Galvani. Nesse contexto, a diversificação pode reduzir a exposição a oscilações de mercado e quebras de safra. Empresas concentradas em uma única cultura, como cana-de-açúcar ou grãos, podem ficar mais vulneráveis a mudanças nos preços e nas condições de produção.
Para expandir uma solução, acrescentou, não basta ter um produto eficiente: também é preciso dimensionar o mercado potencial e organizar canais de distribuição que façam a tecnologia chegar às propriedades.
Comunicação e sucessão no campo
Diana Jank, terceira geração de uma família ligada à produção leiteira, voltou ao negócio familiar depois de estudar publicidade em São Paulo. A experiência na cidade mostrou a ela que parte dos consumidores desconhece as diferenças entre produtos lácteos e a forma como os alimentos são produzidos. Ao lado da irmã, participou do reposicionamento da Letti A², marca ligada à Agrindus, empresa de Descalvado (SP) que trabalha com leite e derivados, incluindo uma linha de leite A2A2.
“Pela primeira vez na história, estamos precisando fazer comunicação e marketing sobre produção de comida, porque as pessoas perderam a conexão com a origem daquilo que consomem”, afirmou Jank. Ela defendeu a transparência sobre a rotina da fazenda, a alimentação dos animais, o manejo e a destinação de resíduos como parte da relação com o consumidor. Para a empresária, informações técnicas devem ser apresentadas em linguagem acessível, sem perder a base que dá credibilidade à produção.
Os participantes também relacionaram a sucessão à preparação de novas lideranças e à continuidade dos negócios familiares. Jank afirmou que a renovação é necessária para responder ao desafio de abastecer uma população crescente com uso eficiente dos recursos naturais. “É impossível fazer essa revolução sem a juventude se interessando pelo setor”, disse. Kuhn associou a participação de jovens à busca por respostas para desafios climáticos e para a complexidade da produção de alimentos, enquanto Galvani apontou gestão, governança e distribuição como frentes para o desenvolvimento do setor.

