A Transformação Agrícola de San Pablo: Da Violência à Legalidade
Em San Pablo, localizada ao sul de Bolívar, na Colômbia, a produção agrícola sempre esteve intimamente ligada às características geográficas e ao contexto de violência que permeou a região. Durante os anos de maior conflito, a luta pelo controle territorial entre guerrilhas e grupos paramilitares levou muitos camponeses a se aventurarem em economias ilegais, enquanto a necessidade por uma nova perspectiva econômica se tornava cada vez mais urgente.
A História de Yoger Payares e a PromoAgrosur
Um desses camponeses é Yoger Payares, que cultiva 11 hectares e é membro da PromoAgrosur, uma associação formada por cerca de 200 famílias de produtores. Antes de optar pela palma, Yoger trabalhava com pecuária e em cultivos ilegais. Sua trajetória é emblemática, refletindo a busca da comunidade por uma estabilização por meio de uma economia legal, apesar de ainda enfrentarem desafios como infraestrutura precária, altos custos e preocupações com segurança.
Fruto da Esperança
“A palma tem sido uma bênção de Deus”, descreve Payares, evidenciando o impacto positivo que a cultura trouxe para sua vida e sua comunidade. No início, a colheita do fruto era um verdadeiro desafio. Ele se lembra de que levavam em média três dias apenas para transportar o produto até Socorro. Essa logística notoriamente envolvia não apenas o custo do combustível, mas também o pagamento de tratores, alimentação e diárias para os transportadores.
A Distância Como Obstáculo
Um dos grandes obstáculos era a localização das usinas de extração, distante do município, em Puerto Wilches, Santander, o que tornava o transporte ainda mais complicado e oneroso. Essa realidade começou a mudar com a chegada de empresas privadas, como a Extratora Loma Fresca e a Vizcaya, abrindo novas possibilidades no mercado local. Para os agricultores de San Pablo, isso significou a oportunidade de encontrar um comprador próximo e uma alternativa legal que não dependesse mais da clandestinidade.
Nascimento da PromoAgrosur
Em 2018, a união de 208 pequenos produtores resultou na formação da Promotora Associativa de Produtores do Sul de Bolívar (PromoAgrosur). O objetivo era claro, mas desafiador: promover a produção de palma sustentável, aprimorar técnicas agrícolas e reconstruir uma comunidade que havia sido marcada pela violência.
O Caminho da Certificação
Com apoio do Fundo de Apoio a Pequenos Produtores da RSPO e assistência técnica de parceiros locais, o grupo enfrentou inicialmente o desafio de se organizar. O progresso foi notável, começando com a certificação nacional (APSColombia) e visando a certificação RSPO, que oferece padrões globais e abre portas para o mercado internacional.
Impacto na Comunidade
O resultado dessa caminhada é palpável: onde antes prevalecia o medo e a ilegalidade, agora surgem plantações de palma geridas por pequenos produtores, a grande maioria dos quais está organizada de forma independente. Para um município onde a economia era geralmente movida por forças armadas ou atividades clandestinas, o óleo de palma se revelou um motor de emprego e um motivo de orgulho local.
Um Novo Modelo Econômico
Carlos Mario Murgas Lacouture, diretor de Gestão Social da Loma Fresca, destaca que a transformação começou no início dos anos 2000, com iniciativas como o Plano Colômbia e programas de substituição de cultivos, apoiados por organizações não governamentais dos Estados Unidos. O conceito era simples: direcionar recursos para que pequenos agricultores pudessem se afastar das economias ilícitas e investir em alternativas de cultivo.
Crescimento da Palma em Bolívar
Hoje, a palmicultura ganha destaque na região do sul de Bolívar, que já conta com cerca de 17.600 hectares de plantações, distribuídas entre San Pablo, Cantagallo e Cimití. Além disso, há mais 1.000 hectares no município de Arenal. Desses, aproximadamente 60% são cultivos com mais de 15 anos, já consolidando o processo de substituição de plantas ilegais, enquanto os restantes 40% são mais jovens.
O Ciclo Produtivo Fechado
Cerca de 15.000 hectares estão em plena produção, e mais de 2.000 hectares estão em fase de desenvolvimento. A implementação de plantas extratoras, como a de Loma Fresca, permitiu fechar o ciclo produtivo e reduzir a dependência de infraestrutura de outros departamentos, um fator crucial para consolidar a atividade em uma área historicamente isolada.
Desafios e Oportunidades no Setor Agrícola
Em um cenário onde as exportações colombianas cresceram de forma desigual, com o agronegócio (33,2%) superando outros setores como o minerador-energético, torna-se imperativo analisar o potencial do agro como motor da economia. Apesar dos desafios, a agroindústria, que já representa cerca de um terço da manufatura, continua a ser um pilar importante, contribuindo significativamente para o PIB do país.
Perspectivas para 2026
Entretanto, 2026 traz um conjunto de desafios, com a possibilidade do fenômeno El Niño, flutuações na taxa de câmbio e condições macroeconômicas mais adversas que podem afetar a produção agrícola. Para Camilo Montes, diretor da ANDI Alimentos, o potencial agroindustrial da Colômbia é promissor, mas é necessário transformar essa promessa em um crescimento real, superando antigas limitações estruturais.
Uma Reflexão Necessária
Diante de toda essa transformação, é fundamental que a população e os envolvidos reflitam sobre o futuro do agronegócio na Colômbia. O que podemos fazer para consolidar a agroindústria como um motor real de desenvolvimento econômico? Como apoiar os pequenos produtores na superação de desafios que ainda persistem?
As experiências de comunidades como a de San Pablo mostram que é possível trilhar um caminho de mudança, superando a violência e reconstruindo a confiança através da legalidade e da produtividade. Como cada um de nós pode contribuir para esse futuro mais sustentável e próspero? Essa é a pergunta que fica no ar, incentivando o diálogo e a reflexão sobre um tema tão crucial para o desenvolvimento do país.
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