O Futuro da Política Externa dos EUA: Aprendendo com o Passado
A administração de Donald Trump foi marcada por abordagens controversas e desafiadoras na política externa dos Estados Unidos. Famoso por seu lema “America First”, Trump recebeu críticas de diversas vertentes políticas, e não sem motivos. A verdade é que sua gestão gerou uma série de descontentamentos: aliados foram alienados, rivais de grandes potências foram apaziguados, e as guerras no Oriente Médio se tornaram um ciclo difícil de romper, sem mencionar as guerras comerciais que intensificaram a crise de custo de vida nos EUA.
Entretanto, à medida que novas administrações se preparam para ocupar a Casa Branca, tanto democratas quanto republicanos precisam refletir sobre as lições que podem ser extraídas das políticas de Trump. Ele estava certo ao afirmar que a estratégia dos EUA exigia uma reformulação. Se podemos considerar alguns de seus instintos como corretos, é essencial que esses pontos de vista sejam refinados e integrados a uma nova abordagem mais eficaz.
A Necessidade de Mudança na Política Externa
É fundamental entender que a política externa de Trump não é a causa das desordens globais, mas um sintoma delas. Muitos americanos se sentem frustrados com o excesso de envolvimento internacional e as crises de acessibilidade econômica em casa. Prometendo reduzir o envolvimento internacional e reviver o setor industrial, Trump conseguiu captar uma indignação válida de muitos cidadãos.
Contudo, ao invés de atender a essas necessidades, suas políticas falharam em alcançar os objetivos pretendidos. O inicio de novos conflitos, a incapacidade de resolver os anteriores, e a aplicação de tarifas que contribuíram para a inflação, sem realmente revitalizar a indústria, foram exemplos de uma implementação desastrosa. As decisões impulsivas, a desvalorização do corpo diplomático e a valorização da lealdade sobre a competência acabaram por criar um desastre que poderia ter sido evitado.
O Que Vem a Seguir
Olhar para frente exige mais do que simplesmente restaurar o que existia antes. O liberalismo internacional teve uma trajetória de sucesso para os EUA, mas os tempos mudaram. O futuro da política externa americana deve unir os impulsos realistas que caracterizam o “America First” com o ideal liberal que está na essência da experiência americana. Isso significa:
- Reduzir Compromissos: Os EUA devem reconsiderar suas obrigações no exterior.
- Formar Novas Coalizões: Cooperar através de parcerias ideológicas com os rivais de grandes potências.
- Reparar o Contrato Social: Abordar a crise democrática e social em casa como um passo fundamental para uma política externa eficaz.
Um Mapa do Novo Cenário Global
Mudanças tectônicas estão moldando um momento histórico. O poder está se deslocando rapidamente do Ocidente para o Oriente e do Norte para o Sul, com países como Brasil, China, Índia, Indonésia e Nigéria emergindo como potências significativas. A difusão de poder está alimentando rivalidades geopolíticas, gerando uma crescente resistência dos americanos a se envolver em um mundo fragmentado.
Ao mesmo tempo, as tecnologias modernas estão modificando o contrato social da era industrial e, consequentemente, desmantelando a classe média. A prosperidade compartilhada deu lugar à insegurança econômica, levando a profundas divisões políticas, sociais e até culturais.
Adaptando a Estratégia
A Retirada do Oriente Médio: É crucial que os EUA reavaliem seus compromissos no Oriente Médio e em outras áreas periféricas. Isso não significa uma retirada completa, mas um uso muito mais judicioso da diplomacia e do engajamento econômico. Quando a força for necessária, o foco deve ser em apoiar parceiros regionais e utilizar operações especiais e ações cirúrgicas.
Colaboração com Aliados: A interação com aliados deve ser fortalecida. Trump tinha a intenção de que países aliados assumissem uma parte justa do ônus da defesa, e isso está em andamento, com muitos aumentando seus orçamentos de defesa. Essa colaboração deve ser feita com respeito, planejamento e uma divisão clara de responsabilidades.
A Nova Realidade das Esferas de Influência
Outra grande mudança na estratégia dos EUA deve reconhecer o retorno das esferas de influência regionais do passado. Na atualidade, majoritários em cada região estarão mais presentes na construção de ordens regionais e na oferta de bens públicos. Os EUA devem jogar um papel mais contido, aceitando a influência de grandes potências nas suas respectivas áreas, mas sempre mantendo um padrão de colaboração e respeito pela soberania.
- Negociações Prudentes: A busca por um mundo mais estável deve incluir negociações com rivais como China e Rússia, oferecendo restrições mútuas em troca de respeito às esferas de influência.
- Exercendo uma Hegemonia Contida: A hegemonia deve ser baseada em regras e tratativas diplomáticas, não em imposições. Isso evita conflitos e encoraja outros países a agir de maneira similar.
Caminhos para a Prática Diplomática
A estratégia de Trump de “realismo flexível” precisa ser complementada com um conjunto claro de objetivos estratégicos. Colaborações com regimes autocráticos devem ser orientadas por estabilidade geopolítica. É essencial que a diplomacia seja feita com base em expertise sólida, preparando encontros que busquem resultados concretos.
- Coalizões Funcionais: Embora as coalizões informais ganhem destaque, elas devem ser adequadas aos seus propósitos. Ao invés de múltiplos membros pouco relevantes, uma equipe focada nos grandes poderes pode ser mais eficaz na gestão de crises.
Ao se reposicionar no cenário global, os EUA também devem retomar o apoio a iniciativas que promovam a saúde mundial, o combate à fome e a ação climática. Retirar-se dessas iniciativas só leva a uma deterioração do sistema, do qual o país também faz parte.
Desafios Internos e o Caminho a Seguir
A revolução antissistema que levou Trump ao poder em 2016 se deve, em grande parte, ao descontentamento com a vida cotidiana e as percepções de que muitos foram deixados para trás pela globalização e pela automação. O desafio agora é reconstruir a classe média e preparar a força de trabalho para o futuro.
- Educação e Requalificação: O foco deve ser em preparar os trabalhadores para as profissões do futuro, em setores como tecnologia, saúde e serviços. Melhorar o acesso à educação e programas de requalificação terá um impacto muito maior do que tarifas protecionistas.
É preciso agir, independentemente do resultado das próximas eleições. Se os democratas forem bem-sucedidos, eles ainda enfrentarão o desafio de reverter uma agenda que frequentemente ignora seu controle.
Os americanos devem se preparar para atravessar esta era tumultuada e focar na proteção da democracia interna. Acompanhar a interação da nova administração com a realidade global exige aprender com os erros do passado e buscar um alinhamento mais eficaz e compungente entre a estratégia externa e as necessidades do presente.
Avançando com Esperança
Embora Trump tenha introduzido uma transformação necessária nas estratégias de grandes potências dos EUA, sua abordagem falhou em criar uma política mais racional e coesa. O próximo presidente terá a tarefa de refinar essa visão, moldando-a a partir da realidade de um mundo em transformação, conectando eficazmente o bem-estar do povo americano com seus objetivos sobre as relações internacionais.
Pensar sobre o futuro da política externa dos EUA nos leva a contemplar o papel que o país deve assumir em um mundo em rápida evolução, onde a influência não é mais um privilégio unilateral, mas um esforço comum entre nações. O convite é para refletir sobre essas mudanças e considerar a participação ativa no debate sobre o nosso futuro coletivo.

