Unapec é criada para representar pecuaristas nas decisões da cadeia da carne


Associações de pecuaristas de oito estados oficializaram na quarta-feira (4), em São Paulo, a criação da União Nacional da Pecuária de Corte (Unapec), que será presidida por Guilherme Bumlai, presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (Acrissul). A entidade pretende ampliar a representação dos produtores em debates com a indústria, o governo e os mercados compradores, após a reação às tarifas dos Estados Unidos sobre a carne bovina brasileira, em 2025, expor, na avaliação de Bumlai, a falta de uma voz nacional do setor.

O anúncio ocorreu durante o evento Pecuária em Pauta, organizado pela Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), no Insper. A Unapec começa com organizações que, juntas, respondem por 65% do rebanho bovino nacional e por cerca de 83% da carne exportada pelo Brasil. Entre elas estão Acrimat, Acrissul, Acripará, Apron, Acrioeste, Associação Nacional dos Confinadores (Assocon), Sociedade Rural Brasileira (SRB) e Associação Grupo Pecuária Brasil (GPB). A Sociedade Rural do Paraná negocia sua entrada.

Reação às tarifas motivou articulação

Bumlai afirmou que, no dia do anúncio do aumento das tarifas americanas, a arroba do boi gordo caiu entre R$ 25 e R$ 30. A arroba é uma unidade de medida usada na comercialização de bovinos. Segundo ele, frigoríficos que não exportavam também aproveitaram o momento para reduzir preços. “No mesmo dia em que houve o tarifaço, a arroba caiu 25, 30 reais”, disse.

Na avaliação do presidente da Unapec, a queda não se sustentaria porque havia oferta restrita de animais para abate. Ele afirmou que, enquanto a indústria discutia os efeitos das tarifas na imprensa, os produtores tiveram pouca presença no debate. Em menos de 30 dias, segundo o relato apresentado por Bumlai, as cotações voltaram a subir.

O episódio reforçou a proposta de reunir entidades que, até então, discutiam a necessidade de atuação conjunta. As conversas começaram cerca de um ano antes do anúncio, inicialmente entre representantes de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Homero José Figliolini, coordenador de gestão agroambiental da Acrissul, e Francisco de Sales Manzi, diretor-técnico da Acrimat, conduziram a aproximação. As tratativas avançaram para a elaboração do estatuto, a estrutura jurídica e a participação de associações de outras regiões.

Peso econômico e participação no mercado

A dimensão da atividade ajuda a explicar o interesse das organizações em atuar em conjunto. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) estimou que a cadeia produtiva movimentou R$ 1,159 trilhão em 2025. No mesmo ano, o Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio brasileiro chegou a R$ 3,20 trilhões. Desse total, R$ 1,14 trilhão correspondeu à pecuária, ou 35,6%, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Cepea/Esalq-USP) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). O cálculo inclui produção animal, insumos, indústrias e serviços.

Em estimativa de setembro de 2026, o Ministério da Agricultura e Pecuária atribuiu à carne bovina R$ 253,4 bilhões do Valor Bruto da Produção agropecuária, o equivalente a 17,6% do total. O rebanho brasileiro soma 234,25 milhões de bovinos, segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em setembro. Para a pecuária de corte, a Abiec estima um plantel de 195,52 milhões de animais.

A produção de carne chegou a 12,35 milhões de toneladas em equivalente carcaça. Desse volume, 7,87 milhões de toneladas — 63,3% — abasteceram o mercado interno, enquanto 36,7% foram destinados à exportação. O consumo no Brasil foi de 37,04 quilos por habitante, também em equivalente carcaça, conforme o Beef Report 2026.

Tributos e rastreabilidade estão na pauta

A agenda da Unapec inclui a reforma tributária. Bumlai disse que produtores com faturamento anual acima de R$ 3,6 milhões poderão ser enquadrados nas regras da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), com possível alíquota de 4,53%. A aplicação dependerá das regras de transição e do tratamento dado a cada operação. “Isso não foi debatido, isso não foi colocado de uma forma clara a todos os produtores”, afirmou.

A entidade pretende discutir mecanismos para diferir o pagamento do imposto ao longo da cadeia, evitando que o recolhimento recaia diretamente sobre a comercialização feita pelo pecuarista. Diferimento significa adiar o pagamento para uma etapa posterior. Segundo Bumlai, a proposta é levar o tema às conversas com os demais elos do setor.

Outra frente é a rastreabilidade individual dos bovinos, prevista em plano nacional coordenado pelo Ministério da Agricultura. A implementação será gradual até 2032 e deverá substituir progressivamente o acompanhamento feito apenas por lotes, com mudanças nos controles das propriedades. Bumlai afirmou que há dúvidas entre produtores sobre a obrigatoriedade no prazo previsto e que a entidade pretende debater o assunto.

Barreiras comerciais e defesa do setor

A Unapec também quer participar de discussões sobre exigências sanitárias e ambientais impostas por outros países. Bumlai afirmou que o crescimento das exportações brasileiras pode ser acompanhado por barreiras comerciais apresentadas sob justificativas dessas áreas. A entidade pretende reunir argumentos técnicos sobre sanidade e práticas ambientais para defender a posição dos produtores.

“Nossa meta é realmente unir forças”, disse Bumlai ao descrever o objetivo da organização. Para ele, a atuação conjunta deve permitir que os pecuaristas participem de forma mais coordenada de debates sobre mercado, políticas públicas e comércio exterior. A cadeia da carne bovina movimentou R$ 1,159 trilhão em 2025, segundo a Abiec.

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