Os futuros de soja negociados em Chicago caíram mais de 2% nesta segunda-feira, enquanto açúcar e café também recuaram, após o real perder valor frente ao dólar na reação do mercado aos resultados das eleições no Brasil. A desvalorização da moeda brasileira tende a tornar os produtos do país mais baratos para compradores estrangeiros e a favorecer as vendas de exportadores, pressionando as cotações de commodities concorrentes.
Real recua e bolsa interrompe negociações
O real enfraqueceu perto de 12% em relação ao dólar no mercado à vista quando as negociações no Brasil começaram nesta segunda-feira. Na sequência da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a bolsa brasileira acionou um mecanismo de segurança que suspende automaticamente as operações.
O movimento reverteu o otimismo que havia surgido entre investidores quando o rival de direita, Flávio Bolsonaro, liderou o primeiro turno das eleições, no início do mês. A reação cambial teve reflexos nos mercados de commodities, já que o Brasil é o maior produtor de soja, café e açúcar.
Com o dólar mais forte em relação ao real, os produtos brasileiros ficam mais acessíveis para compradores de outros países. A moeda norte-americana valorizada também pode impulsionar as vendas dos exportadores brasileiros. Esse cenário afeta os preços negociados no exterior e, no caso da soja, aumenta a pressão sobre os contratos dos Estados Unidos, que concorrem com a produção brasileira.
Soja dos EUA sente pressão
Operadores disseram que a reviravolta nas eleições foi particularmente negativa para os futuros de soja dos Estados Unidos. Jack Scoville, vice-presidente e analista de mercado do The Price Futures Group, em Chicago, relacionou a surpresa eleitoral à desvalorização do real e à queda dos preços do grão.
“Certamente a eleição foi uma surpresa, e isso está ligado à desvalorização da moeda e, consequentemente, à queda nos preços da soja”, afirmou Scoville. Segundo ele, a dimensão do movimento nos preços da oleaginosa também exerceu pressão indireta sobre o milho.
Os contratos futuros são acordos negociados para compra ou venda de uma mercadoria em uma data posterior. O contrato de soja com vencimento em novembro recuava quase 20 centavos de dólar e era negociado a US$ 12,376 por bushel por volta das 13h30, no horário de Brasília. O bushel é a unidade usada na cotação do contrato.
A queda dos futuros norte-americanos ocorreu num contexto em que a desvalorização do real pode ampliar a competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional. Como Brasil e Estados Unidos disputam compradores de soja, a variação cambial brasileira repercutiu nas cotações negociadas em Chicago.
Açúcar e café também caem
O recuo não ficou restrito à soja. Os futuros de açúcar bruto negociados na bolsa ICE, referência global para os preços do produto, perderam mais de 6% e ficaram abaixo de 18 centavos de dólar por libra-peso.
Na mesma bolsa, os contratos de café arábica caíram mais de 2%, para cerca de US$ 3 por libra-peso. Com isso, se afastaram da máxima de seis semanas registrada na quarta-feira, quando a cotação chegou a US$ 3,1820.
As quedas nos três mercados ocorreram após a reação do câmbio brasileiro aos resultados eleitorais. Como o Brasil lidera a produção de soja, café e açúcar, a desvalorização do real influencia a percepção de competitividade das exportações do país e pode pressionar preços internacionais. No caso da soja, o analista ouvido também apontou um efeito indireto sobre o milho, embora a principal reação tenha sido observada nos contratos do grão.

