Real, ações e renda fixa recuam após reeleição de Lula


A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, no domingo (25), provocou forte queda nos ativos brasileiros na segunda-feira seguinte e levou investidores a reavaliar onde aplicar. Com ações em baixa, dólar em alta e juros maiores nos títulos públicos, especialistas divergem sobre as oportunidades, mas recomendam cautela diante da incerteza sobre a política econômica e as contas públicas.

O Ibovespa recuou 13,88%, para 176.608 pontos, após fechar a sexta-feira acima de 205 mil. Durante o pregão, chegou a cair mais de 17% e acionou o circuit breaker — mecanismo que interrompe temporariamente as negociações em momentos de forte oscilação — pela primeira vez desde março de 2020. O dólar comercial subiu 8,25%, para R$ 5,40.

Na renda fixa, os títulos prefixados do Tesouro Direto registraram a maior alta diária de taxas da série histórica do Tesouro. O movimento superou o recorde de março de 2020, durante a pandemia de Covid-19. Para Vinícius Romano, coordenador de Investimentos da Suno Consultoria, parte da queda devolve a valorização ocorrida após o primeiro turno. Ele afirma que a eleição não deveria alterar a estratégia do investidor e recomenda evitar decisões tomadas no calor do momento.

Ações: queda não significa preço baixo

O recuo da Bolsa reacendeu a discussão sobre se as ações ficaram baratas ou apenas perderam o otimismo que havia impulsionado os preços. Felipe Balassiano, head de multimercados do ASA, avalia que o mercado devolveu o chamado prêmio eleitoral. Ele usa a relação preço sobre lucro (P/L), que compara o valor de uma ação com o lucro da empresa, como referência: para o Brasil, considera barato um indicador abaixo de 9.

Luise Coutinho, head de Produtos e Alocação da HCI Advisors, pondera que voltar aos níveis anteriores à eleição não torna automaticamente as ações baratas. A análise também depende das perspectivas para juros, crescimento e lucros das empresas. Rai Chicoli, estrategista-chefe da Monte Bravo, diz que o mercado passou a considerar maior a possibilidade de o governo não resolver a questão fiscal. Se os gastos continuarem crescendo, a Bolsa pode seguir cara mesmo após a queda, avalia.

José Faria Junior, diretor da Wagner Investimentos, também não vê oportunidade generalizada. Para ele, os lucros elevados das empresas americanas e os juros altos nos Estados Unidos reduzem a atratividade dos ativos brasileiros. Faria ainda aponta o risco de recessão caso o cenário político afete a atividade: empresários esperavam uma queda dos juros a partir da mudança de governo, mas isso não ocorreu.

Romano vê espaço para aportes graduais em empresas de qualidade, incluindo algumas dos setores financeiro e elétrico. Coutinho e Chicoli, por outro lado, esperam mais pressão sobre empresas ligadas ao consumo e ao crédito, como parte do varejo e as construtoras endividadas. Exportadoras e companhias de commodities podem resistir melhor à alta do dólar, por receberem mais reais pelas vendas. Vale e Suzano foram citadas entre as empresas que tendem a se beneficiar, embora Coutinho ressalte que custos e dívidas em moeda estrangeira também precisam ser considerados.

Juros maiores elevam dúvidas sobre o Tesouro

Na abertura das negociações de segunda-feira, a taxa do Tesouro Prefixado 2032 subiu de 12,89% para 15,78% ao ano, em comparação com o fechamento de sexta. No Tesouro IPCA+ 2050, que paga uma taxa fixa além da inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o juro real passou de IPCA + 6,42% para IPCA + 7,64%. As taxas cederam durante a tarde, mas permaneceram acima das de sexta-feira.

Bruno Corano, economista e CEO da Corano Capital, recomenda não se apressar para comprar títulos prefixados ou atrelados à inflação. O Tesouro Nacional cancelou os leilões desses papéis previstos para a semana e manteve apenas a oferta de títulos ligados à Selic, a taxa básica de juros. Para dinheiro novo, Corano considera o Tesouro Selic uma alternativa para atravessar a volatilidade: a Selic está em 13,75% ao ano.

Glauber Sá, fundador da Akros Consultoria, vê taxas reais elevadas como uma oportunidade para quem tem horizonte longo e tolera oscilações. Com base na taxa de IPCA + 6,42% do título 2050, ele estima que R$ 100 mil poderiam chegar a cerca de R$ 347 mil em poder de compra atual em 20 anos, antes do Imposto de Renda. Com IPCA + 7,8%, o valor seria de R$ 449 mil.

Para quem pretende travar uma taxa, Corano sugere dividir a aplicação em três ou quatro parcelas, acompanhando eventos como a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, e a votação do Orçamento de 2027. Especialistas também recomendam que quem já possui títulos longos evite vender na baixa. A marcação a mercado — atualização diária do preço do título conforme as condições do mercado — pode reduzir seu valor de negociação, mas a perda só se concretiza se o investidor vender o papel.

Exterior e diversificação da carteira

A alta do dólar também trouxe de volta o debate sobre investir fora do país. Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, defende manter uma parcela do patrimônio em ativos dolarizados, mesmo após a valorização da moeda. Luis Ferreira, CIO para as Américas do EFG Bank, afirma que a diversificação internacional não deve depender de quem ocupa a Presidência. Os dois ressaltam que a decisão precisa considerar a carteira como um todo, e não apenas a cotação do dia.

A Nomad indica uma faixa de 20% a 40% do portfólio para um investidor moderado. Ferreira cita de 25% a 50% do patrimônio financeiro investível para algumas famílias, sem tratar o intervalo como regra geral. Romano também vê oportunidades no exterior, inclusive em renda fixa, mas afirma que a exposição depende do que cada investidor já possui.

Ferreira alerta contra vender ações brasileiras após a queda apenas para comprar ativos em dólar. A decisão, diz, deve partir da carteira que o investidor pretende construir, e não do movimento de um único pregão. Para Romano, a estratégia também deve evitar compras concentradas de uma só vez: aportes graduais reduzem o risco de comprometer toda a aplicação em um momento de grande oscilação.

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