A Alianima divulgou nesta quarta-feira (21) a edição de 2026 do Observatório Suíno, levantamento que acompanha compromissos de bem-estar animal na cadeia brasileira de carne suína. O relatório reúne informações de 43 frigoríficos, cooperativas, supermercados e redes de alimentação e mostra que a adoção de baias coletivas para porcas avança em ritmos distintos. Entre os fornecedores que responderam, 74,1% das matrizes já estão nesse sistema, mas empresas com prazo para concluir a mudança em 2026 ainda não atingiram a meta.
A transição substitui as celas individuais de gestação por alojamentos coletivos, que permitem a movimentação e a interação entre os animais. A mudança exige adaptações nas instalações, no manejo reprodutivo e na formação dos lotes. Alegra Foods e Aurora Coop afirmaram, em declaração conjunta reproduzida no relatório, que a implementação “exige investimentos significativos por parte dos produtores rurais”, tanto para construir novas estruturas quanto para adequar as existentes.
Avanço entre fornecedores e desafios de financiamento
Das 43 empresas consultadas, 23 responderam ao questionário, o equivalente a 53,5%. Na edição anterior, a participação havia sido de 57,1%. Entre os fornecedores de carne suína, dez das 11 empresas procuradas enviaram informações. Já entre os 32 compradores, apenas 13 responderam, mantendo a participação abaixo de 50% pelo terceiro ano consecutivo. Segundo a Alianima, 53% dos compradores com compromissos públicos nunca informaram o estágio da transição ou deixaram de apresentar dados por pelo menos três edições.
As respostas dos fornecedores abrangem 1.368.112 matrizes, ou 60,9% do plantel brasileiro informado pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Desse grupo, 1.013.772 fêmeas, equivalentes a 74,1%, estavam em baias coletivas. A estimativa da Alianima para o país é menor: 45,1% das matrizes brasileiras estavam nesse sistema em 2026, ante 44,9% no ano anterior. A diferença indica que os dados das empresas participantes não representam, por si só, o conjunto da produção nacional.
Entre as empresas monitoradas, JBS Brasil, por meio da Seara, e Ecofrigo declararam ter concluído a transição, com 100% das matrizes em baias coletivas. A Pamplona informou 97%; Aurora Coop, 87%; Frimesa, 59%; e MBRF, 57%. Aurora, Frimesa e MBRF estabeleceram 2026 como prazo para completar a mudança. A Alianima avalia que o avanço registrado nos últimos anos indica dificuldades para que as três cumpram o prazo.
A Alegra Foods e a Alibem tiveram os maiores avanços percentuais da edição, com aumento de 12 pontos percentuais cada. Já a Pif Paf Alimentos recuou 11 pontos e informou que 48% de seu plantel estava em baias coletivas. A empresa também alterou o prazo de seu compromisso, de 2029 para 2045, conforme a adequação prevista pela Instrução Normativa nº 113, de 2020, do Ministério da Agricultura e Pecuária. Segundo o relatório, 34% das matrizes da Pif Paf permanecem em celas individuais por mais de 35 dias, podendo chegar a 70 dias. A Alianima não contabiliza esse grupo como alojamento coletivo.
Entre as dez fornecedoras que responderam, 80% citaram dificuldades de financiamento, 70% mencionaram a precificação do produto final e 60% apontaram o planejamento das instalações como obstáculos. A MBRF também mencionou juros elevados, poucas linhas de crédito disponíveis e baixa rentabilidade. A Frimesa citou investimentos em infraestrutura e equipamentos e diferenças entre as granjas. O relatório não apresenta um valor total para converter o plantel brasileiro.
Compradores informam resultados desiguais
Entre os compradores que apresentaram dados, o Bob’s declarou ter concluído seu compromisso: 100% da carne suína adquirida vem de fornecedores que utilizam gestação coletiva. O Grupo Madero respondeu pela primeira vez desde que passou a ser consultado, em 2022, e informou 72% de transição. A Forno de Minas reduziu o percentual declarado de 80% para 30%, e o Hippo Supermercados passou de 91% para 70%.
O Grupo Pão de Açúcar informou avanço de 61% para 80%, enquanto a Arcos Dorados, operadora do McDonald’s, passou de 90% para 92%. O Grupo Carrefour Brasil declarou 100%, mas o indicador considera apenas carne suína in natura de marcas próprias. A Alianima classificou o compromisso como irregular por não incluir todos os produtos comercializados. Entre os 13 compradores respondentes, 61,5% apontaram custo elevado e falta de fornecedores como entraves para ampliar as compras de carne produzida sem celas individuais.
O levantamento foi divulgado em um cenário de expansão da atividade. Segundo dados da ABPA apresentados no documento, o Brasil produziu 5,592 milhões de toneladas de carne suína em 2025, alta de 5% em relação ao ano anterior. O país foi o quarto maior produtor e o terceiro exportador mundial. As exportações somaram 1,510 milhão de toneladas, com destino a 94 países. O mercado interno absorveu 72,99% da produção, e o consumo médio foi de 19,1 quilos por habitante. Em dez anos, a produção cresceu 53,5%, e o plantel reprodutivo chegou a 2.247.863 matrizes ativas.
Relatório também acompanha manejo e medicamentos
O Observatório, criado em 2020, monitora ainda práticas relacionadas aos leitões e ao uso de medicamentos. As dez fornecedoras informaram idade média de desmame igual ou superior a 24 dias e declararam ter eliminado a castração cirúrgica sem anestesia. Oito disseram não realizar o desgaste rotineiro dos dentes; quatro afirmaram ter eliminado a mossa, identificação feita por cortes nas orelhas. O corte de cauda, por outro lado, não tem compromisso de eliminação em oito empresas. JBS e MBRF manifestaram intenção de interromper a prática, mas sem prazo.
Na maternidade, 70% das fornecedoras disseram não oferecer materiais de enriquecimento ambiental para as porcas construírem ninhos, e 40% não têm planos para ampliar o espaço destinado às fêmeas. Sobre antimicrobianos — medicamentos usados contra microrganismos, como bactérias —, seis empresas declararam ter eliminado antibióticos usados para promover o crescimento. Apenas três afirmaram ter banido o uso preventivo. Na metafilaxia, administração de medicamentos a um grupo quando parte dos animais adoece, a MBRF é a única com compromisso público de banimento, previsto para 2027.

