Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel por mais tempo, moldou por décadas o debate sobre segurança do país e pode deixar o poder sem que suas principais diretrizes sejam revertidas. A oposição à criação de um Estado palestino e a defesa de uma política de confronto militar com o Irã ganharam espaço entre políticos e integrantes da área de segurança, segundo a análise apresentada no texto de origem.
A possibilidade de uma mudança de liderança existe em meio à insatisfação de parte dos israelenses com os ataques de Netanyahu ao Judiciário, os julgamentos por corrupção e sua recusa em assumir responsabilidade pelas falhas de segurança anteriores ao ataque do Hamas, em 7 de outubro de 2023. Ainda assim, a troca de governo não deve, por si só, alterar a orientação do país em relação aos palestinos e ao Irã.
Estado palestino saiu do debate central
A rejeição às aspirações nacionais palestinas antecede Netanyahu. Em 1969, a então primeira-ministra Golda Meir afirmou que não existia uma nação palestina distinta. Menachem Begin aceitou os acordos de Camp David com o Egito, em 1978, sem que eles exigissem um entendimento com os palestinos. Em 1991, Yitzhak Shamir não permitiu a participação de representantes palestinos independentes na Conferência de Paz de Madri.
O texto aponta, porém, uma mudança: a possibilidade de um Estado palestino deixou de ocupar espaço relevante nas discussões políticas israelenses. O assassinato de Yitzhak Rabin, em 1995, enfraqueceu o processo de Oslo, que previa a criação de um Estado palestino, mas resultou em autogoverno limitado e na continuidade do controle israelense sobre grande parte da Cisjordânia. Ataques de grupos palestinos ao longo dos anos 1990 também ampliaram o ceticismo de israelenses em relação a um acordo de paz.
Antes de chegar ao cargo de primeiro-ministro, Netanyahu já era uma figura polarizadora. Em 1993, comparou o acordo de Oslo de Rabin com o líder da Organização para a Libertação da Palestina, Yasir Arafat, à política de apaziguamento do primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain diante de Adolf Hitler. O texto afirma que essa retórica fortaleceu opositores de concessões territoriais, incluindo o assassino de Rabin.
Após o primeiro mandato de Netanyahu, encerrado em 1999, líderes como Ehud Barak e Ehud Olmert ainda se envolveram em negociações de paz apoiadas pelos Estados Unidos. Barak também conduziu a retirada unilateral de Israel do sul do Líbano, em 2000. Em 2005, Ariel Sharon retirou cerca de 9 mil colonos israelenses da Faixa de Gaza e iniciou a saída das forças terrestres do território.
Com a ausência de um acordo, o conflito se agravou. O Hamas venceu as eleições em Gaza em 2006 e assumiu o controle total do território no ano seguinte. Israel e o grupo travaram guerras em 2008, 2012, 2014 e 2021. Netanyahu usou os ataques de foguetes de Gaza e do Hezbollah, grupo baseado no Líbano, para argumentar contra novas retiradas territoriais. Durante seus governos, a expansão de assentamentos na Cisjordânia e a divisão política entre o Hamas e a Autoridade Palestina também enfraqueceram as perspectivas de um Estado palestino, de acordo com a análise.
Confronto com o Irã ganhou apoio
Netanyahu defende há décadas uma linha dura contra o Irã. Em 1992, quando era membro do Parlamento israelense, a Knesset, alertou que o país estaria avançando para desenvolver armas nucleares. Mais de três décadas depois, encontrou no presidente americano Donald Trump um aliado disposto a apoiar uma ação militar. Em junho de 2025, Estados Unidos e Israel atacaram instalações nucleares iranianas. Em 28 de fevereiro, os dois países iniciaram uma guerra mais ampla, voltada também contra a liderança do Irã.
No início do conflito, políticos israelenses e a população demonstraram apoio amplo. Yair Lapid, líder da oposição, classificou a guerra como “justa”. Em junho, pesquisas apontaram aumento das críticas à condução de Netanyahu, mas, segundo o texto, poucos políticos questionaram a necessidade de manter pressão militar sobre Teerã. O planejamento de novos ataques continuou.
O debate sobre a estratégia já foi mais dividido. Em 2012, quando o governo Netanyahu considerava um ataque convencional às instalações nucleares iranianas, Meir Dagan, ex-chefe do Mossad, o serviço de inteligência de Israel, questionou o que uma ofensiva poderia alcançar. A discussão perdeu força depois que o governo de Barack Obama negociou um acordo nuclear interino com o Irã, em 2013, e um pacto final foi assinado em 2015. Netanyahu se opôs ao acordo. Em 2018, Trump retirou os Estados Unidos do pacto.
Depois do ataque do Hamas em 2023, Israel intensificou ações contra o Irã e grupos aliados. Entre elas, houve ataques em Teerã e Beirute que mataram líderes do Hamas e do Hezbollah, além de trocas de mísseis entre Israel e Irã em abril e outubro de 2024. Integrantes da oposição apoiaram essas ações, embora alguns tenham criticado o momento escolhido por Netanyahu.
Oposição não propõe ruptura
O texto avalia que os principais adversários de Netanyahu não oferecem uma mudança estratégica clara. Gadi Eisenkot, apontado como seu principal rival, poderia reduzir a expansão de assentamentos e combater a violência de colonos, mas não defende o fim da ocupação da Cisjordânia nem um esforço consistente pela solução de dois Estados. Após 7 de outubro, chamou a criação de um Estado palestino de “delirante”.
Também há oposição à forma como Netanyahu conduziu a guerra em Gaza, inclusive pela resistência a acordos de cessar-fogo que poderiam ter salvado reféns. Mas, segundo a análise, há menos preocupação entre políticos israelenses com os efeitos da guerra sobre os palestinos. O texto afirma que, após três anos de destruição e deslocamento em Gaza, mais de 70 mil palestinos foram mortos e Israel retomou o controle militar de quase 70% da faixa.
A avaliação é que um novo governo poderia ajustar a política, mas não necessariamente abrir mão do controle territorial em Gaza, na Cisjordânia, no sul do Líbano ou na Síria. No caso do Irã, não há um grande político israelense defendendo uma mudança de rumo. Assim, mesmo que Netanyahu deixe o cargo, as posições que ajudou a consolidar devem continuar orientando a política de segurança israelense no futuro próximo.

