A B3 interrompeu as negociações no mercado à vista nesta segunda-feira (26), depois que o Ibovespa caiu 10% em relação ao fechamento do pregão anterior. A suspensão, prevista nas regras do chamado circuit breaker, dura 30 minutos e ocorreu no primeiro dia de negociação após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), resultado que contrariou as expectativas de parte do mercado financeiro.
Esta foi a primeira vez desde 2020, durante a pandemia de Covid-19, que a bolsa brasileira acionou o mecanismo. A paralisação abrange ações, BDRs — recibos de ações negociadas no exterior —, ETFs, fundos negociados em bolsa, opções ligadas a esses ativos e títulos de renda fixa privada.
Durante o intervalo, ordens que não estiverem participando de leilão poderão ser canceladas. A B3 informou que ainda comunicaria o horário de retomada dos negócios. A suspensão do mercado de ações ocorreu em meio a uma forte reação também no câmbio: às 10h15, o dólar comercial subia 12,21%, a R$ 5,602. Por volta das 9h09, a moeda avançava 8,65%, cotada a R$ 5,425.
Regras para interrupção dos negócios
O circuit breaker é um mecanismo que interrompe temporariamente as negociações quando a queda do Ibovespa alcança determinados patamares. No primeiro estágio, acionado após recuo de 10% em relação ao fechamento anterior, a pausa dura 30 minutos.
Depois da reabertura, se a queda do índice chegar a 15%, a B3 pode suspender os negócios novamente por uma hora. Caso o recuo alcance 20%, a bolsa pode interromper as negociações por um período definido por ela, com comunicação ao mercado.
O regulamento estabelece limites para a aplicação do mecanismo perto do fim do pregão. O circuit breaker não pode ser acionado nos 30 minutos finais da sessão. Se a suspensão ocorrer na última hora de negociação, o encerramento do mercado pode ser estendido em até 30 minutos, para permitir a reabertura e a continuidade das operações.
Resultado eleitoral contrariou apostas
A queda da bolsa aconteceu no primeiro pregão após o segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25). Com 99,98% das urnas apuradas, Lula tinha 64.239.690 votos, ante 59.818.345 do senador Flávio Bolsonaro (PL).
O resultado representou uma virada em relação ao primeiro turno. Naquela etapa, Flávio havia recebido 47,03% dos votos válidos, ou 56,1 milhões de votos, enquanto Lula somou 45,16%, equivalente a 53,8 milhões. A diferença entre os dois foi de 1,87 ponto percentual, cerca de 2,2 milhões de votos, a menor entre os dois primeiros colocados em um primeiro turno desde a redemocratização.
A vitória de Lula também foi inédita desde 1989: nenhum candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar havia vencido a disputa presidencial no segundo turno, segundo os dados apresentados na apuração.
João Daronco, analista CNPI da Suno, afirmou que o desfecho foi contrário ao cenário que o mercado vinha precificando. A casa trabalhava com um leve favoritismo de Flávio Bolsonaro, e parte dos investidores apostava em uma troca de governo e em uma agenda econômica mais liberal.
Ativos vinham de período de alta
Essa expectativa havia influenciado o comportamento dos ativos depois do primeiro turno. Em 9 de outubro, o Ibovespa fechou em sua máxima histórica, aos 209.066,90 pontos. No mesmo período, o dólar chegou a ser negociado abaixo de R$ 5,00.
O movimento desta segunda-feira ocorreu, portanto, após um período de valorização dos ativos associado à leitura dos investidores sobre o resultado eleitoral. Com a reeleição de Lula, a bolsa atingiu o limite de queda previsto para a primeira interrupção e a B3 suspendeu temporariamente as negociações, enquanto o dólar registrava forte alta.

