Ibovespa tem 26 ações em queda superior a 20% e apenas 11 em alta em outubro


A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), definida no último domingo, provocou forte ajuste nos preços dos ativos brasileiros em outubro. O Ibovespa caiu 9,88%, maior recuo mensal desde junho de 2022, em meio à alta do dólar, à abertura dos juros futuros e à preocupação dos investidores com as contas públicas. Nesse cenário, apenas 11 das 76 ações do índice terminaram o mês em alta, favorecidas por receitas em moeda estrangeira, geração de caixa ou perfil mais defensivo.

Juros e risco fiscal pressionam ações

Após o resultado eleitoral, os investidores reduziram a exposição a empresas mais dependentes da economia doméstica e buscaram negócios vistos como menos vulneráveis ao aumento dos juros. Os contratos de juros futuros acumularam altas superiores a 250 pontos-base em alguns vencimentos na semana posterior à eleição. Um ponto-base equivale a 0,01 ponto percentual.

O movimento refletiu a revisão das expectativas para a política fiscal do próximo governo. As preocupações com o equilíbrio das contas públicas também levaram parte do mercado a apostar na manutenção da Selic, a taxa básica de juros, em 13,75% ao ano. Juros mais altos tendem a encarecer o crédito e podem reduzir o consumo, afetando setores como varejo e construção civil.

Ao todo, 26 ações do Ibovespa recuaram mais de 20% em outubro. Vamos (VAMO3) liderou as perdas mensais, com queda de 47,11%, seguida por Cosan (CSAN3), que caiu 41,75%, e Hapvida (HAPV3), com baixa de 39,74%. Cyrela (CYRE3), CSN (CSNA3), Minerva (BEEF3), C&A (CEAB3), Cogna (COGN3) e Localiza (RENT3) também perderam mais de 30% no período.

As ações ligadas ao consumo e mais sensíveis aos juros estiveram entre as mais atingidas. Segundo o Bradesco BBI, a piora das expectativas para os juros reais levou a uma revisão dos preços-alvo de empresas varejistas. Os analistas também apontaram possíveis pressões relacionadas a mudanças trabalhistas e ao aumento da carga tributária com a implementação da reforma do consumo.

Empresas com receita em dólar se destacam

Na outra ponta, as ações da PRIO (PRIO3) avançaram 16,32%, e as da Suzano (SUZB3), 15,90%. A Petrobras subiu 9,43% nas ações ordinárias (PETR3) e 5,91% nas preferenciais (PETR4). Também fecharam no positivo Caixa Seguridade (CXSE3), BB Seguridade (BBSE3), TIM (TIMS3), Vivo (VIVT3), Embraer (EMBJ3), Brava Energia (BRAV3) e Gerdau (GGBR4).

O dólar mais forte beneficiou empresas com receitas atreladas à moeda americana. No caso da Suzano, análises de Citi, Bradesco BBI, JPMorgan, BTG Pactual e XP ressaltaram que a maior parte da receita é dolarizada, enquanto uma parcela relevante dos custos permanece em reais. Essa combinação pode ampliar a geração de caixa quando a moeda brasileira se desvaloriza.

As petroleiras também foram favorecidas pela alta do Brent, referência internacional do petróleo, para níveis próximos ou superiores a US$ 100 por barril. Bancos de investimento apontaram Petrobras e PRIO entre as principais escolhas do setor após a eleição, citando potencial de dividend yield — indicador que relaciona dividendos pagos ao preço da ação — próximo de 20% e forte geração de caixa. A Petrobras também registrou produção recorde no pré-sal, segundo a notícia.

A Embraer avançou 2,67% no mês. A companhia tem receitas em dólar e menor exposição ao consumo brasileiro. Na semana pós-eleição, o Bradesco BBI manteve recomendação de compra e elevou o preço-alvo de R$ 126 para R$ 127. O banco citou a carteira de pedidos, equivalente a cerca de cinco anos de produção na aviação comercial e três anos na executiva, e estimou crescimento médio anual de aproximadamente 20% do EBIT ajustado entre 2026 e 2028. EBIT é o resultado antes de juros e impostos.

A Gerdau, que subiu 0,20%, também foi tratada por BTG Pactual, JPMorgan e Itaú BBA como uma empresa com proteção cambial. Cerca de três quartos do Ebitda — indicador de resultado operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização — vêm da América do Norte, especialmente dos Estados Unidos. O Itaú BBA elevou a recomendação para GGBR4 de neutra para compra e aumentou o preço-alvo para o fim de 2027 de R$ 29 para R$ 31.

Seguradoras e teles atraem investidores

Caixa Seguridade e BB Seguridade subiram 7,44% e 5,44%, respectivamente. Citi e JPMorgan destacaram a geração de caixa, a distribuição de dividendos e a menor sensibilidade dessas empresas ao ciclo econômico. O Citi elevou a recomendação para Caixa Seguridade na semana posterior à eleição, citando a previsibilidade dos resultados e o perfil defensivo.

TIM e Vivo avançaram 5,21% e 4,17%. O Itaú BBA apontou os dividendos das operadoras e avaliações consideradas atrativas após a queda de outras ações. A XP destacou a resiliência dos indicadores operacionais da Vivo, atribuída à escala da companhia, à variedade de serviços e à força no segmento pós-pago.

A lista das maiores perdas também incluiu a Cosan, que anunciou um acordo tributário individual com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional e a Receita Federal, envolvendo R$ 3,2 bilhões em contingências. A operação foi apresentada no contexto da recuperação extrajudicial da Raízen, e a XP avaliou o acordo como neutro. No mês, a Cosan também encerrou negociações para vender uma participação na Rumo e afirmou que continuava avaliando alternativas para otimizar sua estrutura de capital.

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