Dólar protegeu investidores do tombo da Bolsa após o 2º turno


Carteiras diversificadas de perfis conservador, moderado e arrojado atravessaram a forte oscilação da Bolsa durante a eleição sem registrar perdas nominais entre 31 de agosto e 28 de outubro, mas todas renderam menos que o CDI, indicador de referência da renda fixa. O estudo de Bruno Guimarães, planejador financeiro certificado pela Planejar, mostra que a diversificação limitou o impacto da queda do Ibovespa e que a parcela de 15% em ativos em dólar ajudou os investimentos após o segundo turno.

Carteiras tiveram resultados diferentes

O levantamento acompanhou carteiras hipotéticas inspiradas em modelos de instituições do mercado e comparou os resultados com e sem exposição ao dólar. Para representar o desempenho das classes de ativos, foram usados índices como o CDI, o Ibovespa, indicadores de títulos públicos da Anbima, o índice de fundos imobiliários e referências para multimercados e investimentos internacionais.

Em setembro, a Bolsa e a renda fixa brasileira tiveram desempenho positivo. O Ibovespa subiu 5,03% no mês, enquanto o CDI avançou 1,08%. As três carteiras também ficaram no azul, com a arrojada à frente da moderada e da conservadora. A parcela em dólar, porém, reduziu os retornos naquele período, porque os ativos americanos recuaram e o câmbio ficou praticamente estável.

O movimento se intensificou em outubro. Depois do primeiro turno, em 4 de outubro, o Ibovespa subiu 7,70% no pregão seguinte e fechou acima dos 200 mil pontos. Até 23 de outubro, última sessão antes do segundo turno, o índice acumulava alta de 10,06% no mês.

Após a votação de 25 de outubro, o cenário mudou. No pregão seguinte, em 26 de outubro, o Ibovespa caiu 13,88%, e a B3 acionou o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações, pela primeira vez desde a pandemia. A Ptax, taxa de câmbio de referência, subiu 9,19% no dia. Títulos públicos, fundos imobiliários e multimercados também recuaram. Em 28 de outubro, o Ibovespa acumulava queda mensal de 8,23%.

A carteira conservadora foi a única a fechar outubro com ganho, de 1,08%, acima do CDI, que rendeu 0,97% no mês. A moderada recuou 0,19%, e a arrojada caiu 1,29%. Considerados setembro e outubro, os retornos foram de 1,66%, 0,86% e 0,14%, respectivamente. No mesmo intervalo, o CDI avançou 2,06%, enquanto o Ibovespa caiu 3,61%.

Na simulação, R$ 100 mil aplicados em 31 de agosto chegariam a 28 de outubro a R$ 101.661 na carteira conservadora, R$ 100.862 na moderada e R$ 100.137 na arrojada. No CDI, o valor alcançaria R$ 102.062. Os resultados são nominais: não descontam a inflação.

Diversificação e dólar reduziram o impacto

Segundo Guimarães, a diversificação fez com que até a carteira arrojada, que tinha 25,5% em Bolsa e fundos imobiliários, sentisse apenas uma parte da queda do Ibovespa. A composição também incluía renda fixa, investimentos internacionais e multimercados. “Classes diferentes reagem de formas diferentes ao mesmo evento”, afirmou o planejador.

O dólar teve efeito distinto nos dois meses. Em setembro, a exposição à moeda reduziu o retorno das carteiras. Em outubro, a alta cambial após o segundo turno ajudou a compensar perdas e respondeu pela maior parte do ganho da carteira conservadora. Sem essa parcela, a carteira conservadora teria rendido menos que o CDI no mês, e a queda da arrojada teria chegado a 2,07%.

“A exposição ao dólar, que tende a proteger o patrimônio em momentos de estresse doméstico, custou retorno enquanto os ativos brasileiros subiam e protegeu depois”, disse Guimarães. No acumulado dos dois meses, o saldo dos investimentos em dólar foi positivo nos três perfis e ajudou a manter a carteira arrojada no campo positivo.

O planejador ponderou que o período curto não serve como projeção. Os ativos também respondem a fatores como juros nos Estados Unidos, preços de commodities e fluxo de capital estrangeiro. As maiores oscilações dos dois meses ocorreram nos pregões seguintes aos turnos, o que é compatível com uma influência forte da eleição, mas não permite medir quanto cada fator contribuiu. O Ibovespa, por ter composição diferente das carteiras, serve apenas como referência para a renda variável; os resultados devem ser lidos como ordem de grandeza, não como previsão.

Planejamento não depende de acertar a eleição

A planejadora financeira Caroline Bonati, certificada pela Planejar, afirmou que a alta dos ativos antes do segundo turno refletia o cenário considerado mais provável por boa parte do mercado, e não um resultado garantido. “Preço de mercado não é previsão, é probabilidade”, disse. Para ela, concentrar os investimentos em um único desfecho cria risco desproporcional. “Alocar carteira não é apostar no cenário que você acha mais provável. É construir uma estrutura que sobreviva aos cenários que você acha improváveis.”

Em dias de queda forte, Bonati recomenda avaliar se a reserva de emergência está preservada e se os compromissos de curto prazo estão cobertos; se o ativo caiu por uma mudança de preço ou de fundamentos; e se a carteira continua dentro do plano estabelecido. Se as premissas permanecem válidas, não alterar os investimentos também pode ser uma decisão ativa, segundo ela.

Athos Fontenelle Fittipaldi, também planejador financeiro certificado pela Planejar, afirmou que a B3 acionou o circuit breaker 24 vezes até o pregão de 26 de outubro. Nos casos registrados desde 1998, o Ibovespa estava em nível mais alto 12 meses depois. Ele defende que o rebalanceamento — ajuste dos pesos dos investimentos — siga limites definidos previamente, e não as manchetes. Se houver uma mudança duradoura no cenário político e fiscal que altere as premissas de juros e crescimento de longo prazo, pode ser necessário rever a alocação-alvo.

Guimarães também recomenda manter uma reserva de emergência, com liquidez imediata, e uma reserva de oportunidade, para investir quando os preços caem sem precisar vender outros ativos. Para ele, a definição dos pesos de cada classe não precisa depender de acertar o resultado de uma eleição, e deve considerar o conjunto dos objetivos do investidor.

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