Como investir em renda fixa após as eleições com juros em alta


O resultado das eleições presidenciais aumentou a incerteza para investidores em renda fixa, depois da queda dos juros futuros observada desde o primeiro turno. A direção das taxas dependerá, entre outros fatores, dos sinais do governo sobre as contas públicas e o endividamento do país, segundo Danilo Moreno, analista da Investo. Se o mercado exigir uma remuneração maior para emprestar recursos ao governo, os juros podem superar os níveis anteriores ao primeiro turno.

As perspectivas para a política fiscal não são o único fator em jogo: os juros nos Estados Unidos e os preços do petróleo também influenciam o cenário. Para escolher onde investir, a orientação é considerar o papel da renda fixa na carteira e os objetivos financeiros, em vez de depender apenas de previsões sobre as taxas.

Diferenças entre Selic, inflação e prefixados

Os títulos públicos variam em prazo, rentabilidade e sensibilidade às oscilações do mercado. O Tesouro Selic acompanha a taxa básica de juros e tende a apresentar menor variação de preço que papéis de vencimento mais longo. Por isso, pode ser uma opção para quem talvez precise resgatar o dinheiro no curto prazo.

Entre os fundos de índice, conhecidos pela sigla ETF, oferecidos pela Investo, o LFTB11 investe majoritariamente em Tesouro Selic e mantém uma parcela em Tesouro IPCA+ 2060. O produto não tem data de vencimento e está sujeito à alíquota de Imposto de Renda de 15%.

O Tesouro IPCA+ combina a variação da inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) com uma taxa fixa. Mantido até o vencimento, o título oferece proteção ao poder de compra. O prazo, porém, afeta a oscilação do preço: quanto mais longo o vencimento, maior tende a ser a sensibilidade às mudanças nas taxas de juros.

Para objetivos previstos para os próximos dois a cinco anos, o NTNS11 reúne títulos públicos indexados à inflação com vencimentos de até quatro anos. Já os títulos prefixados têm uma taxa de retorno definida no momento da compra e tendem a se valorizar quando os juros de mercado caem. O NTNF11, composto por NTN-Fs com vencimento em 2031, permite acessar essa estratégia, mas também pode oscilar com mudanças nas taxas.

Comprar agora ou esperar o Copom

A próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), órgão do Banco Central responsável por definir a taxa básica de juros, está prevista para 4 de novembro. Diante da movimentação das taxas, investidores podem avaliar se compram títulos nos níveis atuais ou se aguardam a decisão.

Moreno afirma que as duas alternativas podem fazer sentido. Comprar agora permite contratar uma remuneração maior até o vencimento, mas uma alta posterior dos juros pode desvalorizar os papéis no mercado. Esperar pode trazer mais informações sobre a política monetária e a equipe econômica, mas há o risco de os preços subirem caso o mercado reaja positivamente.

“Para o investidor de longo prazo, o mais consistente é definir quanto da carteira quer ter em renda fixa, em qual tipo de título e em qual prazo, e montar essa posição de forma estrutural, independentemente da data”, afirma o analista.

Outra possibilidade é fazer aportes regulares, construindo a posição gradualmente em vez de concentrar a decisão em um único momento. Segundo Moreno, ETFs podem facilitar essa estratégia porque são negociados na bolsa em diferentes momentos e valores.

Oscilações e expectativas para os juros longos

A alta dos juros pode reduzir o preço de títulos com vencimentos longos. Essa variação é chamada de marcação a mercado: representa o valor pelo qual o papel poderia ser negociado naquele momento. Quem mantém o título até o vencimento recebe a taxa contratada na compra, desde que as obrigações sejam cumpridas. Já a venda antecipada ocorre pelo preço de mercado e pode resultar em ganho ou perda.

Por isso, a decisão de manter, vender ou ampliar uma posição depende também da possibilidade de precisar do dinheiro antes do vencimento e da disposição para suportar oscilações. Aumentar a exposição pode permitir aproveitar taxas mais altas, mas concentra mais recursos em um mesmo tipo de risco. ETFs também têm preços que variam diariamente, o que torna relevante compatibilizar o produto com o prazo do investimento e a tolerância a riscos.

Para os juros de longo prazo recuarem, a percepção sobre as contas públicas e a evolução da dívida brasileira será determinante. A escolha de uma equipe econômica comprometida com o equilíbrio fiscal, o cumprimento das regras fiscais e a definição de ajustes para o Orçamento de 2027 podem contribuir para a queda das taxas.

Na direção oposta, gastos ampliados sem indicação de fontes de recursos, regras fiscais menos rígidas e ruídos sobre a autonomia do Banco Central podem pressionar os juros futuros. A reunião do Copom de 4 de novembro também deve ajudar a esclarecer a avaliação da autoridade monetária sobre a inflação e a trajetória da Selic. A combinação desses sinais fiscais e monetários tende a orientar as expectativas do mercado nos meses seguintes.

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