Eurasia Group vê falta de disposição de Lula para cortar gastos


O governo de Luiz Inácio Lula da Silva não discute reduzir efetivamente os gastos públicos, mas busca formas de desacelerar o avanço das despesas, segundo Christopher Garman, diretor-executivo da consultoria Eurasia Group. Em entrevista à CNN Brasil na quinta-feira (5), ele apontou a falta de disposição política para enfrentar o crescimento dos gastos como um obstáculo ao ajuste fiscal.

De acordo com Garman, as conversas dentro do governo se concentram em mudanças que alterariam o ritmo de expansão de despesas obrigatórias, e não em cortes. “Não existe um debate de corte de gasto”, afirmou. Entre os temas considerados estão os pisos constitucionais para saúde e educação e os critérios de concessão do Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Regras de despesas voltam ao debate

As alternativas em discussão retomam parcialmente propostas apresentadas pelo ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad cerca de dois anos atrás. Naquele momento, mudanças nas regras de indexação de despesas enfrentaram resistência política e não avançaram. Agora, a equipe econômica avalia novamente mecanismos para conter o crescimento de compromissos obrigatórios.

A avaliação de Garman ocorre enquanto investidores cobram sinais mais concretos de responsabilidade fiscal. Para o executivo, o governo precisa demonstrar que consegue controlar as despesas e reduzir a percepção de risco sobre a economia brasileira. Ele também relacionou a situação fiscal aos juros elevados, que encarecem o crédito para empresas e mantêm famílias endividadas.

Na visão do diretor da Eurasia Group, uma indicação de maior controle das contas poderia aliviar o câmbio e os juros futuros. Ainda assim, as medidas que estão sendo consideradas provavelmente não seriam suficientes para resolver o desequilíbrio fiscal. “O que está em jogo é, pelo menos, sinalizar ao longo do tempo mais controle”, disse. Garman resumiu a dificuldade como “o grau dessa insuficiência”.

Despesas crescem acima da inflação

Os dados do Tesouro Nacional mostram que o déficit primário do governo central somou R$ 90,2 bilhões de janeiro a setembro de 2026. O resultado foi menor que os R$ 100,3 bilhões registrados nos mesmos nove meses de 2025. Apesar da redução do déficit acumulado, as despesas totais avançaram 5,4% acima da inflação e chegaram a R$ 1,965 trilhão.

Em setembro, houve superávit primário de R$ 4,839 bilhões. O resultado incluiu a devolução de R$ 12,8 bilhões em precatórios de exercícios anteriores, após o Judiciário cancelar esses valores. O dado mensal, portanto, foi influenciado por essa devolução, enquanto os números acumulados mostram a evolução das receitas e despesas ao longo do ano.

Naquele mês, o governo manteve R$ 16,1 bilhões em contenção de despesas: R$ 13,6 bilhões em contingenciamento e R$ 2,4 bilhões em bloqueios. O contingenciamento foi adotado para assegurar o cumprimento do limite inferior da meta de resultado primário de 2026, que prevê equilíbrio entre receitas e despesas.

Propostas ainda dependem de decisão

Lula reuniu ministros, economistas e integrantes da equipe econômica na quinta-feira (5) para discutir a situação fiscal e possíveis alterações nas regras de despesas. Depois do encontro, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo pretende organizar propostas para apresentá-las ao presidente após a viagem internacional dele.

Durigan disse que as medidas ainda precisam passar por discussão interna e que a intenção é melhorar progressivamente o resultado primário nos próximos quatro anos. Não houve anúncio de decisão concreta. Entre as possibilidades avaliadas estão mudanças nas regras fiscais, revisão de benefícios, redução de incentivos tributários e alterações nos mecanismos de controle das despesas obrigatórias.

A distância entre as opções em análise e uma decisão efetiva mantém em aberto o alcance do ajuste. Por enquanto, a discussão descrita por Garman se concentra em limitar o ritmo de crescimento dos gastos. O resultado das conversas do governo e a apresentação de propostas ao presidente ainda não foram definidos.

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