O Ibovespa subia nesta sexta-feira (6), em movimento de recuperação após cair 0,82% na sessão anterior, quando fechou aos 166.191,45 pontos. Às 12h38, o principal índice da Bolsa brasileira avançava 1,56%, aos 168.782 pontos, acompanhando a recuperação de mercados em Nova York e a alta de ações que haviam recuado nos últimos pregões.
Mais cedo, às 11h40, o índice chegou a registrar ganho de 0,02% na semana. O resultado ocorre depois de uma queda de 18,12% na semana passada, em meio à reação do mercado ao resultado eleitoral no segundo turno. Analistas ouvidos no mercado avaliam, porém, que a alta desta sexta ainda não indica uma tendência firme de valorização.
Ações cíclicas e bancos puxam o índice
Entre as maiores altas do dia estavam Assaí, com avanço de 5,21%, e C&A, que subia 6,45%. As ações de bancos também contribuíam para o desempenho positivo do Ibovespa, com exceção das units do Santander, que recuavam 1,27%. Os papéis preferenciais do Itaú avançavam 1,95%, enquanto os do Bradesco tinham alta de 2,32%.
O movimento também acompanhava a maioria das bolsas de Nova York, que se recuperavam após as perdas da véspera. Na sessão anterior, os mercados americanos foram pressionados, em parte, por preocupações com custos e regulação no setor de inteligência artificial (IA).
“Ensaia uma recuperação”, afirmou Gustavo Bertotti, chefe de renda variável da Fami Capital. Para ele, ainda é cedo para dizer se a alta representa uma mudança de tendência. O mercado, segundo o especialista, tem apresentado forte volatilidade nas últimas semanas e aguarda sinais sobre a política fiscal do governo. Bertotti também citou o pronunciamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, previsto para domingo, e disse que o relatório de emprego dos Estados Unidos é um fator desfavorável para os ativos brasileiros.
Emprego nos EUA reacende debate sobre juros
O relatório de emprego dos Estados Unidos, conhecido como payroll, mostrou a criação líquida de 165 mil vagas em outubro, segundo o Departamento do Trabalho do país. O resultado superou o teto de 100 mil postos considerado nas expectativas compiladas pela pesquisa Projeções Broadcast. A taxa de desemprego caiu de 4,2% em setembro para 4,1%, enquanto as projeções apontavam estabilidade. O salário médio por hora subiu 0,37%, acima da estimativa de 0,30%.
Os números fortes alimentaram dúvidas sobre a possibilidade de os juros americanos permanecerem elevados por mais tempo. Esse cenário também é influenciado pelo encarecimento do petróleo, associado à guerra entre Estados Unidos e Irã, e pela atividade econômica aquecida.
“O resultado do payroll veio muito forte. Isso vai começar a gerar risco de aumento de 50 pontos-base nos juros dos EUA em dezembro”, disse Jefferson Laatus, estrategista-chefe do Grupo Laatus. Um ponto-base equivale a 0,01 ponto percentual. “Na teoria, isso não é positivo para o Brasil”, afirmou.
Vinicius Flores, gestor de investimentos e sócio da Stratton Capital Nova York, disse que o relatório reforça a expectativa de mais uma alta de juros pelo banco central americano em dezembro. Segundo ele, o Federal Reserve (Fed) pode elevar as taxas para conter a inflação ligada à demanda, mas não tem como agir diretamente sobre a inflação causada pela alta do petróleo. Marcel Lima, sócio da Valor Investimentos, também afirmou que um mercado de trabalho forte reduz a chance de corte de juros. Ainda assim, observou que as bolsas americanas se recuperavam, puxadas por Nvidia, Micron e AMD.
Fiscal brasileiro segue no radar
Para Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, os dados de emprego também reduzem o temor de uma recessão nos Estados Unidos e favorecem as perspectivas de crescimento global e de demanda por commodities, produtos importantes para empresas brasileiras. Ele acrescentou que expectativas fiscais mais favoráveis no Brasil e a recuperação de ações após quedas recentes podem compensar parte da pressão externa.
Murad avaliou que os investidores ponderam entre juros americanos altos por mais tempo e uma economia global mais resiliente. No Brasil, a continuidade da alta dependerá, entre outros fatores, do dólar, dos juros futuros e das expectativas de inflação, que influenciam as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a taxa básica de juros, a Selic.
A incerteza sobre as contas públicas e a divulgação de balanços trimestrais de empresas continuam no foco dos investidores. Gabriel Mota, especialista em renda variável da Manchester Investimentos, afirmou que, sem sinalização sobre as contas públicas a partir de 2027, o Ibovespa pode alternar altas e baixas, sem uma tendência definida.
Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil, ponderou que os dados americanos mais fortes elevaram os rendimentos dos títulos dos Estados Unidos e reforçaram a perspectiva de uma política monetária mais restritiva. Esse quadro pode pressionar o real e limitar o interesse por ativos brasileiros. André Matos, CEO da MA7 Capital, também afirmou que a falta de um sinal fiscal confiável torna o Brasil mais vulnerável a fatores externos.
Investidores aguardam o pronunciamento de Lula no domingo, quando o presidente deve reiterar o compromisso com a responsabilidade fiscal. Sinalizações sobre medidas, porém, devem ocorrer apenas depois de indicações da equipe do novo governo, previstas para depois do retorno do presidente da COP31, na Turquia, após 16 de novembro. Entre as commodities, o petróleo operava com volatilidade e o minério de ferro subiu 0,07% em Dalian.

