As ações da Petrobras caíram cerca de 20% desde a semana passada, reduzindo de aproximadamente 100% para 60% a valorização acumulada em 2026. A correção ocorreu após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva e se intensificou com a queda do petróleo, enquanto investidores também passaram a avaliar riscos ligados à política de preços e à governança da estatal.
Eleição e política de combustíveis entram no radar
A queda das ações começou após o segundo turno das eleições presidenciais. Parte dos investidores esperava a vitória de Flávio Bolsonaro, do PL, considerado mais favorável ao mercado, e reavaliou a perspectiva para ativos brasileiros com a continuidade do governo Lula.
Além do cenário político, ganhou força a discussão sobre a capacidade da Petrobras de cumprir as metas de sua estratégia comercial para diesel, gasolina e gás liquefeito de petróleo (GLP). As dúvidas levantaram questionamentos sobre possíveis reajustes e sobre a manutenção das regras de governança da companhia.
O receio de interferência política na definição dos preços dos combustíveis voltou a pesar sobre os papéis. A preocupação contrasta com a trajetória positiva de boa parte do ano, quando a estatal reuniu preços elevados do petróleo, forte geração de caixa e expectativa de dividendos robustos.
Mesmo com a recente desvalorização, JPMorgan e Morgan Stanley mantiveram recomendações favoráveis às ações. O JPMorgan reiterou classificação overweight, que indica exposição acima da média e equivale a uma recomendação de compra. Para o banco, a principal questão é a preservação do atual arcabouço de governança, mais do que o nível específico dos preços dos combustíveis. A instituição estima rendimento de fluxo de caixa livre de 17,5% em 2027 e vê desconto relevante em relação às petroleiras internacionais.
O Morgan Stanley também avaliou que o mercado passou a considerar um cenário excessivamente pessimista. Segundo o banco, simulações que incluem retirada de subsídios, ausência de reajustes nos combustíveis e aumento da tributação ainda apontam geração de caixa forte e dividendos atrativos. A instituição manteve recomendação overweight e preço-alvo de US$ 31 para os recibos de ações da Petrobras negociados nos Estados Unidos, conhecidos como ADRs.
Recuo do petróleo amplia a correção
As eleições legislativas nos Estados Unidos também influenciaram o desempenho da companhia. A vitória dos democratas no controle do Congresso aumentou a percepção de que o governo de Donald Trump poderia sofrer mais pressão para buscar uma solução negociada para o conflito com o Irã.
Com a redução dos temores de escalada, diminuiu o prêmio geopolítico incorporado ao preço do petróleo. O Brent, referência internacional da commodity, recuou cerca de 17% em relação às máximas de outubro: passou de aproximadamente US$ 118 para perto de US$ 98 por barril. Segundo o Goldman Sachs, o prêmio geopolítico estimado em outubro chegava a US$ 27 por barril.
A queda atingiu as petroleiras latino-americanas. De acordo com cálculos do Goldman Sachs, os ADRs da Petrobras perderam 26% entre os picos de outubro e 5 de novembro. No mesmo intervalo, o ETF americano de energia XLE, fundo negociado em bolsa que reúne ativos do setor, caiu 11%.
Combustíveis ficam mais próximos dos preços internacionais
A redução do Brent também diminuiu parte da pressão sobre a política comercial da Petrobras. O Itaú BBA apontou que a queda de cerca de US$ 117 para US$ 100 por barril aproximou os preços internacionais dos combustíveis dos valores praticados pela estatal.
Segundo os cálculos do banco, o diesel ficou aproximadamente 18% abaixo da paridade de importação — referência que compara o preço interno ao custo de trazer o produto do exterior. Com o subsídio vigente de R$ 1,40 por litro, porém, o preço ficou 4% acima dessa paridade. A gasolina passou a ser negociada cerca de 4% abaixo da paridade de exportação.
Essa aproximação reduz a urgência de reajustes relevantes, mas não elimina as dúvidas sobre o cumprimento das metas anuais da política comercial. O Itaú BBA avalia que, se os preços atuais persistirem até o fim do ano, a companhia pode não cumprir integralmente as exigências médias anuais. Nesse caso, poderia haver reajustes adicionais ou flexibilização dos prazos para cumprir as metas de 2027.
Imposto e perspectivas para as ações
Também permanece no radar a prorrogação, pela Camex, do imposto de 12% sobre exportações de petróleo até o fim do ano. A medida atinge mais diretamente produtoras independentes, como PRIO e Brava Energia, mas alimenta preocupações sobre o ambiente regulatório e a possibilidade de novas intervenções. Para o JPMorgan, a Petrobras tem exposição menor ao tributo, embora a extensão da cobrança ajude a manter o desconto aplicado às ações do setor.
O Goldman Sachs manteve recomendação de compra para a Petrobras. Em um cenário-base mais conservador, com Brent a US$ 75 por barril em 2027, o banco estima rendimento de fluxo de caixa livre próximo de 17%, acima do observado entre grandes petroleiras globais. A instituição ressalta, porém, que a estatal está entre as empresas latino-americanas mais sensíveis às oscilações do petróleo: mudanças de US$ 10 por barril afetam de forma relevante seus indicadores de geração de caixa.
JPMorgan, Morgan Stanley, Goldman Sachs e Itaú BBA seguem apontando geração de caixa forte, potencial de dividendos e ações descontadas. Ao mesmo tempo, a queda recente elevou a atenção dos investidores para o comportamento do Brent, as regras de preços dos combustíveis, o ambiente regulatório e a preservação da governança da companhia.

