Plataformas digitais estão sendo usadas para formalizar e organizar vendas de gado e batata na Argentina, dois mercados em que ainda predominam negociações por telefone e processos pouco padronizados. A deCampoaCampo, criada em 2010, ampliou sua atuação na pecuária, enquanto a Alagro começou a operar neste ano na cadeia de hortaliças. As empresas buscam reduzir falhas de informação, coordenar a logística e registrar as transações.
O movimento ocorre em um setor que combina tecnologia avançada nas propriedades com práticas tradicionais na comercialização. No campo, empresas agropecuárias adotam máquinas de precisão, biotecnologia e genética de padrão global. Na venda, porém, ainda são comuns acordos sem parâmetros técnicos definidos, fretes organizados com informações incompletas e dificuldades administrativas.
Plataforma de gado cresce com recursos próprios
A deCampoaCampo surgiu a partir de uma empresa de comercialização de gado com mais de cem anos de história ligada ao Mercado de Liniers, a Pedro Genta y Cía. Seu fundador e CEO, o engenheiro industrial Emilio Herz, investiu US$ 15 mil (R$ 82,4 mil, pela cotação indicada) para contratar programadores e anunciar lotes de animais pela internet.
Na época, a conectividade no campo era limitada e a venda de gado dependia de relações pessoais, da visita às propriedades e da avaliação dos animais. Herz disse que a ideia causou estranheza entre familiares e produtores, mas que a confiança foi construída conforme os usuários verificavam os relatórios, os vídeos e as informações disponíveis na plataforma e concluíam suas primeiras operações.
“A confiança não chegou em uma data específica; ela foi construída operação após operação”, afirmou o executivo. Para ele, a tecnologia precisa estar acompanhada de uma experiência comercial que funcione. A empresa não recebeu investimentos de capital de risco: segundo Herz, alcançou rentabilidade relativamente rápido e reinvestiu os próprios recursos no crescimento.
A pecuária argentina reúne 51 milhões de cabeças de gado e cerca de 400 mil estabelecimentos registrados. A deCampoaCampo tem 150 mil usuários cadastrados e aproximadamente 250 colaboradores. A companhia informa que comercializa mais de 500 mil cabeças por ano e deve encerrar 2026 com volume de transações superior a US$ 500 milhões (R$ 2,75 bilhões, pela cotação indicada).
Na plataforma, vendedores podem publicar vídeos dos lotes e receber propostas vinculantes de mais de mil compradores ativos e frigoríficos. O sistema também permite coordenar o transporte antes de os animais serem deslocados. Em 2021, a empresa criou a deCampoPagos para lidar com o descasamento entre pagamentos de vendas, que podem levar 30 ou 60 dias, e despesas semanais. A ferramenta é usada por cerca de 6 mil empresas e representa 20% da receita da companhia.
Para 2027, a estratégia é transformar a plataforma em um sistema integral de gestão comercial, com recursos para administrar logística, cotações e pagamentos inclusive em negociações fechadas fora dela. Herz afirma que o principal desafio da empresa não foi desenvolver a tecnologia, mas incorporá-la às rotinas dos negócios.
Alagro mira informalidade na batata
A Alagro foi criada para organizar a comercialização de batatas, a hortaliça mais consumida na Argentina, com média de 52 quilos por habitante ao ano. O país produz 2,8 milhões de toneladas, em 80 mil hectares. Apesar do transporte diário de mais de 200 caminhões a partir de regiões como Buenos Aires, Córdoba, Mendoza e Tucumán, cerca de 60% do setor é informal. O índice é de 30% a 40% no Brasil e inferior a 30% no Uruguai.
A ideia partiu de Santino Calcaterra, de 20 anos, filho do produtor Fabio Calcaterra, ligado historicamente à indústria de batatas congeladas. Santino se associou a Julián Sanclemente, Pablo Blanco e Santiago Peralta, fundadores da Alprestamo, marketplace de produtos financeiros com mais de 9 milhões de usuários e 150 integrações financeiras em seis países.
O desenvolvimento da Alagro levou oito meses e recebeu aportes de aproximadamente US$ 1,5 milhão (R$ 8,24 milhões, pela cotação indicada) ao longo do ano. O modelo não cobra assinatura: a plataforma recebe comissão de 1% do vendedor e 1% do comprador sobre as vendas concluídas. A meta para o primeiro ano é comercializar 30 mil toneladas, equivalentes a cerca de mil caminhões, com 25 produtores e 15 compradores ativos.
A operação combina ferramentas digitais com inspeções presenciais. Quando uma venda é fechada, um inspetor da empresa verifica no campo o calibre, as condições sanitárias, a variedade e o peso da carga. A avaliação leva de 20 a 40 minutos, durante o carregamento. O relatório fotográfico e digital precisa ser aprovado antes da saída do caminhão, e o documento estabelece limites para perdas, com o objetivo de evitar renegociações de preço no destino.
Registros podem apoiar crédito e expansão
As transações também exigem validação do CUIT, registro RENSPA ativo e emissão do Documento de Trânsito Vegetal eletrônico (DTV-e) do SENASA. Segundo Sanclemente, a formalização é incentivada com acesso a novos compradores e a um histórico comercial verificável, que poderá ajudar produtores a obter crédito.
Calcaterra afirmou que a falta de registros deixa produtores em desvantagem, dificulta o acesso a financiamento e pode elevar seu custo. Para ele, cada venda registrada pela Alagro pode contribuir para construir um histórico que hoje muitos produtores não têm. Sanclemente acrescentou que a plataforma pretende reduzir o risco de caminhões rejeitados no destino quando a carga não corresponde ao que foi combinado.
A empresa planeja levar o modelo a outras culturas de produtos volumosos, como alho, cebola e batata-doce. Também prevê incluir coordenação logística, contratos digitais de fornecimento contínuo e redirecionamento de cargas que apresentem divergências para compradores com outros padrões de exigência. Herz, da deCampoaCampo, avalia que a adoção depende de mudanças nos processos das empresas, sem substituir a construção de confiança entre compradores e vendedores.

