Mensagens atribuídas ao empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), indicam diferentes níveis de contato entre os dois, segundo levantamento publicado pelo UOL nesta sexta-feira (6). A análise identificou 316 interações nos dois meses anteriores à prisão do ex-banqueiro e recuperou 17 mensagens inéditas, além de 52 notas já divulgadas. O conteúdo inclui conversas sobre compromissos pessoais e pedidos de ajuda diante de pressões relacionadas ao banco.
Mensagens e encontros citados no levantamento
Em uma mensagem datada de 24 de outubro de 2025, Moraes teria escrito a Vorcaro: “Obrigado amigo. Nem dá pra perceber que não sou eu rsrs”. Em 12 de novembro, ao explicar que tinha compromissos domésticos com a frase “Não basta ser pai, tem de participar rsrs”, o empresário teria respondido chamando o ministro de “paizão” e pedindo que mandasse um abraço a todos.
Os diálogos também indicariam que os dois combinaram um encontro em Brasília para depois da chegada do jatinho de Vorcaro. A conversa teria ocorrido três dias antes de o empresário ser preso pela primeira vez, em 14 de novembro. Em outro episódio, mensagens trocadas com assessores e familiares mostram Vorcaro mencionando que estava com Moraes ou organizando recepções. Entre elas, o levantamento cita um almoço exclusivo no Hotel Botanique, em Campos do Jordão, em dezembro de 2023.
O conteúdo recuperado havia sido apagado pelo recurso de mensagens temporárias do WhatsApp, que elimina o conteúdo após 24 horas. Segundo o UOL, os dados foram localizados em bancos secundários e registros residuais do aplicativo. O relatório da Polícia Federal cujo sigilo foi levantado pelo ministro André Mendonça em 1º de setembro apontou que Vorcaro enviou 52 notas a Moraes em formato de capturas de tela, ou prints, pelo WhatsApp. A estratégia dificultaria a recuperação das mensagens, de acordo com o relatório.
Pedidos em meio à crise do Banco Master
As notas atribuídas a Vorcaro sugerem que o empresário via no ministro uma possibilidade de interlocução e de apoio institucional. Em 30 de outubro de 2025, ele escreveu sobre pressões envolvendo o Banco Central: “É importante reforçar com Andrei e Paulo pra nao deixar ninguem de baixo fazer uma sacanagem que ai vai tudo pro saco”. O texto poderia se referir a Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e a Paulo Gonet, procurador-geral da República.
Em outra mensagem, Vorcaro teria pedido que Moraes tentasse falar com Andrei para adiar uma medida: “Se o Andrei conseguir atrasar para putra (sic) semana, pois tem feriado, o banco nao quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possivel”. Horas antes de ser detido no Aeroporto de Guarulhos, em 17 de novembro de 2025, o empresário ainda perguntava se o interlocutor havia conseguido obter notícias ou bloquear medidas cautelares.
O escritório de advocacia da família de Moraes foi contratado para prestar consultoria ao Banco Master por R$ 129 milhões. Ao longo do último ano, o ministro negou irregularidades e afirmou ser alvo de uma tentativa de “vingança” política de Mendonça. Também sustentou que a atuação do escritório de sua família não teve relação com processos do banco no STF.
Moraes contesta autenticidade e alcance das mensagens
Em ofício enviado ao presidente do STF, Edson Fachin, em 14 de novembro, Moraes negou ter mantido conversas com Vorcaro. “NÃO EXISTE DIÁLOGO, que pressupõe a existência de dois interlocutores, pois não há UMA ÚNICA MENSAGEM OU BLOCO DE NOTAS COM O TEXTO DE MENSAGENS DO MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES”, afirmou.
O ministro declarou que 47 das 52 notas, ou 90,4%, não foram encontradas em conversas reais do WhatsApp e seriam rascunhos sem comprovação de envio. Também disse que nunca julgou processos de Vorcaro ou do Master no STF, que não conhecia os juízes de primeira instância responsáveis pela prisão e que a própria operação contra o empresário afastaria a hipótese de vazamento ou proteção.
Em nota divulgada em março, a Secretaria de Comunicação do STF, a pedido do gabinete de Moraes, afirmou que uma análise técnica dos dados telemáticos de Vorcaro não vinculou ao ministro mensagens de visualização única enviadas em 17 de novembro de 2025. Segundo o comunicado, os prints estavam associados a pastas de outros contatos no computador do empresário. A nota não identificou essas pessoas, alegando que os nomes estavam protegidos por sigilo decretado por Mendonça.
Apuração no STF e reuniões com o Banco Central
Durante sessão plenária em 15 de setembro, Moraes contestou a condução do procedimento que poderia levar à abertura de uma investigação contra ele. O ministro alegou que a apuração era nula porque Mendonça teria determinado diligências de ofício, sem pedido da Polícia Federal ou da Procuradoria-Geral da República e sem autorização prévia do plenário. Também acusou Mendonça de manter informações sigilosas por meses e divulgá-las em período eleitoral. Para Moraes, as acusações seriam uma “vingança” ligada à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, que indicou Mendonça ao STF.
Em 23 de dezembro de 2025, o gabinete de Moraes divulgou duas notas sobre reuniões com Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central. O ministro afirmou que os encontros trataram dos efeitos da aplicação da Lei Magnistiky e negou que tenha discutido ou pressionado a autoridade sobre a aquisição do Banco de Brasília (BRB) pelo Master. Também declarou que o escritório de advocacia de sua esposa não atuou nessa operação perante o Banco Central.
A sessão de 15 de setembro foi interrompida por um pedido de vista do ministro Flávio Dino, que pediu mais tempo para analisar uma questão de ordem apresentada por Gilmar Mendes. Dino deve devolver o processo em 90 dias, prazo que termina em dezembro, pouco antes do recesso do Judiciário.

