A porta dos fundos para a inovação dos Estados Unidos


Uma remessa de peças do caça furtivo F-35 enviada da Austrália aos Estados Unidos foi desviada para Hong Kong no fim de maio e acabou nas mãos chinesas. Autoridades americanas não acreditam que tenha havido sabotagem e avaliam que o incidente provavelmente foi causado por um atraso no transporte e por um e-mail não visto. O episódio expôs os riscos de segurança envolvidos na expansão da produção militar dos Estados Unidos com aliados e fornecedores de vários países.

Entre os componentes que chegaram à China estavam uma cobertura de cockpit e uma porta do compartimento de armas do F-35. Desde 2007, agentes de inteligência chineses e seus intermediários já vinham tentando obter informações sobre o avião. A transferência das peças pode dar a Pequim acesso a tecnologias furtivas usadas pelos Estados Unidos e por seus aliados, e a China poderá tentar estudá-las para reproduzir seus recursos.

O caso ocorre enquanto Washington amplia sua base industrial de defesa, formada por empresas e organizações responsáveis por pesquisa, fabricação, entrega e manutenção de equipamentos militares. A iniciativa busca acelerar a produção de armas e tornar as cadeias de fornecimento mais resistentes a interrupções. Mas, quanto mais distribuída internacionalmente fica essa estrutura, mais pontos podem ser explorados por espionagem, roubo de informações e sabotagem.

Produção militar se espalha pelo Indo-Pacífico

A cooperação industrial entre os Estados Unidos e seus aliados começou a ganhar forma nos anos 1990, após cortes nos gastos militares do período pós-Guerra Fria. Em 1993, Washington criou a Base Industrial e Tecnológica Nacional, estrutura que formalizou a colaboração com empresas canadenses. Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia foram incluídos nas décadas seguintes, embora barreiras legais, burocráticas e culturais tenham limitado o alcance da parceria.

Nos últimos cinco anos, a cooperação avançou. Em 2021, Estados Unidos, Reino Unido e Austrália firmaram o pacto de segurança AUKUS, que prevê o desenvolvimento conjunto de tecnologias militares avançadas, entre elas submarinos de propulsão nuclear. A Estratégia Nacional da Base Industrial de Defesa dos Estados Unidos, publicada em 2023, também defendeu relações internacionais mais amplas diante da atuação global de países considerados ameaças.

No ano seguinte, Washington ajudou a criar a Parceria para a Resiliência Industrial do Indo-Pacífico, fórum voltado à coordenação da produção militar e à proteção de cadeias de fornecimento. Os Estados Unidos também firmaram acordos bilaterais com Austrália, Japão, Coreia do Sul e Taiwan para trabalhar em sistemas de defesa, mísseis e construção naval. A Coreia do Sul passou a fazer manutenção e reparos em navios americanos; o Japão pretende quadruplicar a produção de mísseis antibalísticos; e a Austrália deve começar a fabricar mísseis de precisão dos Estados Unidos.

Espionagem mira empresas e aliados

As ameaças vão além do desvio físico de equipamentos. Segundo um relatório de fevereiro do Google Threat Intelligence Group, a base industrial de defesa americana está sob um “ataque constante e multivetorial” no ciberespaço. Operações estrangeiras buscam dados sensíveis, segredos comerciais e propriedade intelectual, por meio de invasões a redes de fabricantes ou da aproximação com funcionários e pesquisadores.

Governos também podem usar relações acadêmicas e comerciais aparentemente legítimas para obter informações. Um relatório de setembro de 2025 do Comitê Seleto da Câmara dos Estados Unidos sobre a China identificou mais de cem parcerias entre universidades americanas e entidades chinesas que representariam riscos à segurança nacional. Em 2024, trabalhadores de tecnologia norte-coreanos infiltraram-se remotamente em uma empresa americana de defesa e roubaram dados sobre tecnologia sujeita a controles de exportação.

Os parceiros asiáticos também enfrentam operações de espionagem. Em 2024, a Agência Nacional de Polícia da Coreia do Sul informou que hackers norte-coreanos haviam atacado empresas de defesa do país por mais de um ano, invadindo redes e obtendo dados técnicos. Em janeiro seguinte, a agência relatou aumento de 40% nos casos de transferência ilegal de tecnologia, incluindo vazamentos de informações sobre semicondutores, baterias e construção naval; muitos dos casos tinham ligação com a China.

No Japão, um grupo chinês de hackers chamado MirrorFace realizou mais de 200 ataques cibernéticos entre 2019 e 2024 contra alvos ligados à defesa, à segurança nacional e a tecnologias avançadas. Em fevereiro de 2025, militares japoneses descobriram que integrantes das Forças de Autodefesa haviam compartilhado por mais de um ano dispositivos USB infectados com programas maliciosos usados por grupos chineses.

Falhas de segurança podem se propagar

Os países parceiros têm leis, estruturas de contrainteligência e capacidades diferentes. A Austrália integra a aliança de compartilhamento de informações Five Eyes e coopera com Estados Unidos e Reino Unido por meio do AUKUS, mas o diretor-geral do serviço de inteligência doméstica australiano, Mike Burgess, alertou para níveis “sem precedentes de espionagem”. Ele também afirmou que profissionais do setor de defesa são alvos presenciais e virtuais.

Coreia do Sul e Japão enfrentam lacunas legais. Até a ampliação da lei sul-coreana de espionagem, em fevereiro, o país geralmente só podia apresentar acusações desse tipo em casos relacionados à Coreia do Norte. No Japão, a legislação ainda não proíbe expressamente que uma pessoa atue clandestinamente para um governo estrangeiro ou receba pagamentos de um serviço de inteligência. O governo japonês criou órgãos de supervisão da inteligência e trabalha em uma lei contra espionagem, mas as medidas enfrentam oposição interna e levarão tempo para entrar em vigor.

Para reduzir os riscos, a análise defende que os Estados Unidos criem um sistema de avaliação da segurança industrial dos aliados, examinando leis, proteção cibernética, verificação de funcionários, controle de investimentos estrangeiros e segurança das cadeias de fornecimento. Também recomenda ampliar o compartilhamento de informações sobre ameaças e reforçar a atuação de agentes de contrainteligência em operações internacionais. A Parceria para a Resiliência Industrial do Indo-Pacífico poderia servir de fórum para estabelecer padrões comuns e trocar práticas de segurança.

O desvio das peças do F-35 mostra como uma falha logística pode expor tecnologia militar, mesmo sem interferência deliberada de um governo estrangeiro. A expansão da produção conjunta depende de parceiros capazes de proteger informações, equipamentos e processos industriais. Sem essa proteção, a interdependência que fortalece a capacidade de defesa também pode abrir novas oportunidades para adversários.

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