Ambições dos EUA em inteligência artificial dependem de Taiwan


Estados Unidos e Taiwan aprofundam uma parceria em semicondutores, servidores e aplicações de inteligência artificial (IA) para sustentar a posição americana na disputa tecnológica com a China. A colaboração é relevante porque o desenvolvimento da IA depende não apenas de modelos, mas também de energia, chips, infraestrutura e produtos capazes de levar a tecnologia ao uso cotidiano.

Produção complementa inovação

Os Estados Unidos mantêm liderança em inovação, pesquisa e desenvolvimento e no desenho de chips e modelos de IA. Taiwan, por sua vez, concentra capacidade industrial difícil de substituir: produz mais de 90% dos semicondutores mais avançados do mundo e monta cerca de 90% dos servidores que abastecem a economia global de IA.

A divisão de funções ajuda empresas americanas a transformar projetos em produtos. Nvidia, Apple e Qualcomm dependem da indústria taiwanesa para fabricar componentes, enquanto empresas dos Estados Unidos lideram áreas como design e plataformas digitais. A parceria também sustenta uma cadeia de fornecimento que países democráticos procuram manter menos dependente da China.

O setor de semicondutores dos Estados Unidos já foi integrado, do projeto à fabricação. Entre as décadas de 1950 e 1970, o país dominava as diferentes etapas da indústria. Com o aumento da complexidade e dos custos de produção, empresas do Vale do Silício preservaram a liderança em design, mas transferiram parte da fabricação para o Leste Asiático. O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais observa que os Estados Unidos “criaram a indústria moderna de semicondutores e historicamente lideraram o desenvolvimento da tecnologia”.

A indústria taiwanesa cresceu em meio a essa cooperação. A partir da década de 1970, o governo da ilha investiu em formação de engenheiros, criou o Instituto de Pesquisa de Tecnologia Industrial, licenciou tecnologias americanas e estabeleceu o Parque Científico Hsinchu. Empresas como a TSMC e uma rede de companhias menores formaram um ecossistema especializado em produção e gestão de fornecedores.

Esse histórico contrasta com a crítica de alguns legisladores americanos, que responsabilizam Taiwan pela transferência da fabricação de chips para fora dos Estados Unidos. A avaliação apresentada na defesa da parceria é que a produção taiwanesa não substituiu a inovação americana: permitiu que empresas dos Estados Unidos concentrassem recursos em design e pesquisa, enquanto a ilha desenvolveu capacidade para fabricar os chips projetados por elas.

Investimentos e servidores de IA

Taiwan também participa do esforço americano para ampliar a produção doméstica. A TSMC se comprometeu a investir US$ 265 bilhões em fábricas de semicondutores no Arizona. Mais de 20 outras empresas taiwanesas investiram bilhões de dólares no ecossistema americano, contribuindo para a expansão da capacidade produtiva e a criação de empregos.

A expansão, porém, não elimina a dependência da experiência acumulada em Taiwan. Construir nos Estados Unidos uma indústria com escala, fornecedores, engenheiros e conhecimento equivalentes levaria muitos anos. Com a demanda por chips em alta, os dois lados têm interesse em compartilhar conhecimento e reforçar as cadeias de abastecimento.

A cooperação se estende aos servidores que executam os sistemas de IA. A Foxconn representa aproximadamente 40% do mercado mundial de servidores de IA, enquanto a Quanta Computer fabrica servidores e infraestrutura de alta densidade para empresas de computação em nuvem. Esses equipamentos sustentam operações de companhias como Alphabet, Amazon e Meta.

Na próxima etapa, a competição deve envolver o uso de IA em robôs, drones, sistemas de defesa, indústria, saúde e transporte. Táxis robóticos já operam em cidades como São Francisco e Shenzhen. Taiwan tem empresas de semicondutores, comunicação e máquinas de precisão, além de companhias como a Thunder Tiger, que desenvolve drones de defesa com IA.

Cadeia democrática e segurança

A disputa também envolve padrões, dados e confiança. Nenhum país reúne sozinho todas as capacidades necessárias para construir um ecossistema de IA. Os Estados Unidos se destacam em inovação e plataformas; o Japão, em refino, reciclagem, pesquisa de recursos do fundo do mar e equipamentos de fabricação de chips; a Holanda fornece máquinas de litografia; e Taiwan se especializa na fabricação e no empacotamento de wafers, as lâminas de material usadas na produção de semicondutores.

A pandemia de COVID-19, a invasão da Ucrânia pela Rússia e a alta dos preços de energia em meio à instabilidade no Oriente Médio expuseram vulnerabilidades nas cadeias globais. Em 2025, Taiwan propôs uma iniciativa de parceria democrática para semicondutores, com o objetivo de criar sistemas de fornecimento mais resistentes a interrupções.

Os Estados Unidos e Taiwan também mantêm o Diálogo de Parceria para a Prosperidade Econômica, iniciado em novembro de 2020. A plataforma promoveu discussões sobre segurança de cadeias de abastecimento de IA, infraestrutura digital, minerais críticos, drones e formação de profissionais de alta tecnologia.

A segurança da inteligência artificial depende tanto dos modelos quanto do hardware em que eles operam. A experiência industrial de Taiwan pode contribuir para testes, cibersegurança e padrões de fabricação confiáveis. Nesse arranjo, a capacidade de produção da ilha complementa a inovação americana e ajuda a sustentar uma cadeia tecnológica compartilhada por parceiros democráticos.

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