A mobilização de voluntários em Salvador e em outras partes do Brasil ajudou a levar eleitores às urnas no segundo turno e contribuiu para que Luiz Inácio Lula da Silva ampliasse sua votação em 10 milhões de votos, segundo o relato de apoiadores do presidente. Na capital baiana, a iniciativa ganhou força depois que muitos ônibus deixaram de circular no domingo da eleição. A vitória de Lula, que garantiu um quarto mandato, ocorreu após uma disputa acirrada com o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Caronas para quem ficou sem ônibus
Em Salvador, o professor de história Martins Mafra usou o carro para buscar eleitores que tinham dificuldade para chegar aos locais de votação. Ele contou com a ajuda do filho Benjamin, de oito anos, e disse que não perguntava a posição política dos passageiros.
“Sou pai e trabalho com educação, então esta foi uma oportunidade para ensinar e mostrar que a gente pode fazer a diferença”, afirmou Mafra. Para ele, a mobilização mostrou que era possível agir diretamente, em vez de apenas reclamar da prefeitura ou publicar vídeos na internet.
O morador Gabriel Mercury, de 41 anos e filho da cantora Daniela Mercury, também organizou caronas. Ele e cinco amigos pediram nas redes sociais que apoiadores transportassem eleitores, sem distinção de preferência política. Parte do grupo dirigiu, enquanto outros contribuíram com dinheiro para o combustível. Mercury estimou que a equipe levou cerca de 600 pessoas às urnas.
Motoristas da Uber também ofereceram corridas gratuitas, de até R$ 50, ao longo do dia, segundo Adriano de Jesus Braga dos Santos, motorista e criador de conteúdo. Ele próprio realizou 36 viagens sem cobrança.
Nem todos conseguiram votar. A vendedora ambulante Grécia de Jesus Nunes, de 54 anos, disse que apenas dois ônibus passaram pelo local onde trabalhava entre 8h e 14h. Como não havia transporte durante seu intervalo, ela não pôde sair para votar. Quando motoristas voluntários chegaram, já não podia abandonar o trabalho.
Abstenção caiu na Bahia
A Bahia registrou a maior redução na taxa de abstenção entre os dois turnos. Quase 400 mil pessoas a mais votaram no segundo, e cerca de um quarto desse aumento veio de Salvador, cidade com mais de 2,5 milhões de habitantes. Lula recebeu 73% dos votos na capital baiana no segundo turno.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registrou pouco mais de 34 mil votos após as 17h, em uma eleição vencida por Lula por cerca de 4,4 milhões de votos. A votação foi prorrogada por duas horas a pedido da campanha do presidente. Um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) concedeu a extensão, tendo a interrupção dos ônibus na Bahia entre os motivos considerados. A campanha de Flávio também havia solicitado mais tempo por causa das chuvas em estados do Sul.
Flávio questionou a prorrogação e a credibilidade do aumento de 10 milhões de votos de Lula no segundo turno. O senador, filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi para os Estados Unidos naquela semana e se declarou o “líder” legítimo do Brasil.
Campanha de Lula mudou após o primeiro turno
Depois de um primeiro turno abaixo do esperado, a equipe de Lula reorganizou a campanha, que, segundo assessores, enfrentava disputas internas, mensagens confusas e complacência. Aos 81 anos, Lula comprou seu primeiro smartphone para se comunicar com brasileiros por meio das plataformas digitais.
O deputado André Janones (Rede-MG), que havia ajudado Lula a derrotar Jair Bolsonaro em 2022, ampliou um canal no WhatsApp chamado “Exército de Lula”. Ele orientou os participantes a recrutar conhecidos e compartilhar conteúdos do candidato. O canal passou de cerca de 50 mil integrantes antes do primeiro turno para mais de 10 milhões no segundo.
Creomar de Souza, consultor de risco político da Dharma, avaliou que a equipe de Lula e a atuação de Janones aproveitaram os deslizes de Flávio para apresentá-lo aos eleitores como uma ameaça à democracia e aos avanços sociais, além de alguém que poderia cortar benefícios assistenciais. À medida que o segundo turno se aproximava, pesquisas indicavam que Lula reduzia a diferença. No dia da votação, os dois estavam em empate técnico.
Ônibus parados geraram investigação
Relatos de Salvador apontaram que muitos ônibus não estavam circulando. No Brasil, o poder público deve oferecer transporte público gratuito no dia da eleição. Fiscais do Procon da Bahia encontraram 944 veículos parados nas garagens da cidade. Jaime Barreiros Neto, analista judiciário do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA), estimou que pelo menos 30% da frota estava fora de operação.
O prefeito Bruno Reis, do União Brasil, que apoiou Flávio no segundo turno, atribuiu a interrupção à presença de adesivos de Lula nos ônibus, em desacordo com as regras eleitorais. Segundo ele, a prefeitura liberou a frota assim que percebeu que a retirada dos adesivos provocava um gargalo. Em nota, Reis afirmou também que grupos continuaram colando material político nos veículos no domingo, inclusive em ônibus prestes a circular.
O TRE-BA determinou a prisão do secretário municipal de Mobilidade Urbana, Pablo Souza. A ordem foi revogada no dia seguinte, mas o tribunal solicitou uma investigação. Souza, que estava em Paris em visita oficial no dia da votação, negou irregularidades. Ele afirmou que a quantidade de ônibus era a mesma do primeiro turno e respeitava as diretrizes eleitorais.

