BBI vê queda do Nasdaq como oportunidade para ações da América Latina


A América Latina pode ganhar espaço em carteiras globais em meio à cautela com as grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos e à queda recente do Nasdaq, segundo análise de Ben Laidler e da equipe de estrategistas do Bradesco BBI. Para o banco, a baixa exposição da região ao setor de tecnologia pode oferecer diversificação e reduzir a dependência de um segmento que concentra parte importante dos ganhos dos mercados. A recomendação considera, porém, que a incerteza doméstica no Brasil aumentou recentemente.

Baixa exposição à tecnologia

O relatório aponta que a composição dos mercados latino-americanos é diferente da de outros índices. No Brasil, os segmentos de tecnologia da informação e comunicação representam 1,6% do índice local. Nos Estados Unidos, essa participação é de cerca de 46%; nos mercados emergentes, chega a 47%.

Essa diferença pode favorecer a região quando ações de tecnologia enfrentam períodos de queda. A Nasdaq-100, índice que reúne grandes empresas não financeiras listadas na Nasdaq, passou pela terceira correção de pelo menos 10% em 2026, segundo o documento. O movimento ocorre enquanto investidores acompanham testes de demanda por ativos ligados à inteligência artificial.

O Bradesco BBI analisou 13 correções de pelo menos 10% da Nasdaq nos últimos dez anos. Em 11 desses episódios, a América Latina teve desempenho superior ao índice americano, uma taxa de sucesso de 85%. A vantagem média foi de 9,3 pontos percentuais. As duas exceções foram a crise da covid-19 e a queda recente do mercado brasileiro associada às eleições.

O histórico não significa que a região sempre suba quando as ações de tecnologia caem. A análise compara o desempenho relativo dos mercados latino-americanos com o da Nasdaq durante episódios de correção. Ainda assim, os dados reforçam, na avaliação do banco, o papel potencial da região como fonte de diversificação para investidores expostos a empresas de tecnologia.

Concentração e correlação nos emergentes

A tese também se relaciona a três desafios identificados pelo relatório em carteiras de mercados emergentes: concentração, correlação e volatilidade. Concentração ocorre quando uma parcela elevada de um índice depende de poucas empresas. No índice MSCI Emerging Markets, que reúne ações de países emergentes, as três maiores companhias respondem por cerca de 28% do total.

Já a correlação mede o quanto dois ativos ou mercados tendem a se movimentar de forma semelhante. A relação entre os mercados emergentes e a Nasdaq chegou a 0,78, um dos níveis mais altos dos últimos anos, segundo o banco. Para os estrategistas, a baixa exposição latino-americana à tecnologia pode ajudar a reduzir essa associação com o desempenho das ações do setor.

Com base nessa avaliação, o Bradesco BBI calcula que a participação ideal da América Latina em uma carteira eficiente de mercados emergentes seria de aproximadamente 19%. O percentual é mais que o dobro do peso atual da região nos índices de referência. A estimativa indica uma possível diferença entre a exposição recomendada pelo modelo do banco e a participação que os investidores encontram nesses indicadores.

Riscos e exceções à tese

O relatório ressalva que nem todos os ativos latino-americanos se comportam de maneira independente da tecnologia global. Empresas ligadas ao cobre, como Southern Copper e Grupo México, têm forte correlação com o setor. O metal é importante para a infraestrutura digital e para a inteligência artificial, o que aproxima o desempenho dessas companhias dos movimentos relacionados à tecnologia.

Fintechs latino-americanas negociadas nos Estados Unidos, como o Nubank, também tendem a acompanhar mais de perto as oscilações da Nasdaq. O peso mexicano é outra exceção: está entre as moedas mais correlacionadas ao desempenho do setor de tecnologia. O documento associa esse vínculo ao avanço das exportações mexicanas relacionadas à cadeia tecnológica e à inteligência artificial para os Estados Unidos.

Esses casos mostram que a exposição regional não é uniforme. A composição de cada carteira pode incluir empresas e moedas ligadas a cadeias de produção ou a negócios que respondem às mesmas forças que influenciam as ações de tecnologia. Por isso, a diversificação sugerida pelo banco depende também da escolha dos ativos dentro da América Latina.

Rotação de investimentos

O Bradesco BBI não afirma que o ciclo favorável à tecnologia terminou. Os estrategistas observam, no entanto, sinais de ampliação da liderança nos mercados: índices de igual ponderação deixaram de perder desempenho para os indicadores dominados pelas maiores empresas de tecnologia. Em índices de igual ponderação, cada companhia tem peso semelhante, em vez de as empresas maiores influenciarem mais o resultado.

O relatório também cita a queda dos valuations do setor, mesmo com revisões positivas nas estimativas de lucro, e níveis historicamente elevados de sentimento dos investidores. Valuation é uma medida usada para avaliar o preço de um ativo em relação a indicadores financeiros, como os lucros esperados. Nesse cenário, uma rotação de investimentos para outros segmentos e uma maior busca por diversificação geográfica podem beneficiar a América Latina nos próximos meses, embora o banco reconheça que a incerteza doméstica brasileira aumentou.

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