Biotecnologia em Ação: Como a Ciência Pode Combater as Alergias Alimentares!


Nos Estados Unidos, mais de 22 milhões de pessoas convivem com alergias alimentares, um fenômeno que só parece crescer com o passar dos anos. O peso econômico disso gera um impacto alarmante de aproximadamente US$ 370,8 bilhões anuais (equivalente a R$ 1,91 trilhão). Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), esse problema se estende mundialmente, afetando cerca de 220 milhões de indivíduos. Apesar das preocupações em relação ao sistema de saúde, não existe um tratamento eficaz em larga escala para as alergias alimentares. O que muitos podem fazer é evitar os alimentos que lhes causam reações adversas, um desafio que muitas vezes recai sobre suas famílias.

Aqueles que enfrentam alergias alimentares fazem o possível para se protegerem, mas mesmo com todos os cuidados, cerca de 200 mil pessoas nos EUA acabam necessitando de atendimento de emergência devido a reações alérgicas graves todos os anos.

A notícia alentadora é que, em algumas situações, as pessoas podem superar suas alergias ao longo do tempo. A imunoterapia de exposição se destaca como uma abordagem terapêutica inovadora, visando ajudar os pacientes a desenvolverem tolerância aos alérgenos. No entanto, esse método é caro, demanda um longo período e exige visitas regulares ao médico, além de, em alguns casos, apresentar o risco de choque anafilático, uma experiência traumática que pode levar muitos a desistirem do tratamento.

Desmistificando o Sistema Imunológico

O fato de que uma pessoa pode desenvolver tolerância a alimentos que anteriormente causavam alergias indica que essas reações não são necessariamente uma falha inata do sistema imunológico. Antes, acreditava-se que a ausência de uma alergia alimentar fosse simplesmente a norma. Hoje, cientistas estão compreendendo que o sistema imunológico precisa aprender ativamente a reconhecer certos alimentos como seguros.

Beth Sattely, professora associada de Engenharia Química na Universidade Stanford e especialista em como as moléculas das plantas impactam a saúde humana, tem se aprofundado nos mecanismos que possibilitam o desenvolvimento de tolerância a alérgenos alimentares comuns. Ela ressalta: “Após um indivíduo atingir a tolerância a um alimento, a probabilidade de desenvolver uma nova alergia se torna significativamente menor.” Sua pesquisa busca identificar quais componentes específicos das plantas podem fortalecer essa tolerância, com o intuito de prevenir o surgimento de alergias desde o início.

Um estudo recente conduzido pelo laboratório da professora Sattely e publicado na revista Science Immunology avaliou a questão da tolerância oral a milho, trigo e soja em camundongos. Os resultados sugerem que, ao invés de reagir a proteínas completas, o sistema imunológico identifica certos fragmentos dessas proteínas como sinais de que a exposição é segura.

“Estamos apenas começando a decifrar a complexa linguagem dos sinais que as proteínas vegetais apresentam, especialmente em relação ao nosso sistema imunológico,” afirma Sattely.

Identificar essas proteínas pode ser crucial para o desenvolvimento de métodos seguros de exposição e, potencialmente, levar à criação de novas terapias no futuro.

“Se compreendermos adequadamente como a tolerância funciona, é possível que consigamos desenvolver uma ‘vacina’ para alergias alimentares. Ao expor as pessoas aos alimentos nas condições certas e nos momentos certos, poderíamos direcioná-las para o caminho da tolerância em vez de alergia,” completa Sattely.

Uma dúvida natural surge: por que algumas plantas provocam reações alérgicas inicialmente? Muitos dos alérgenos vegetais significativos são encontrados em sementes, e a resposta alérgica de algumas pessoas pode estar intrinsecamente ligada à função natural que essas proteínas desempenham.

“Uma hipótese é que essa resposta seja um subproduto da função natural dessas proteínas,” sugere Sattely. “Elas são altamente estáveis e ajudam a proteger as sementes da degradação, o que talvez as torne mais imunogênicas em comparação a outras proteínas que são mais facilmente degradadas.”

Desvendando os Alérgenos das Plantas

Pesquisadores têm se empenhado em criar variedades hipoalergênicas de alimentos, como amendoim e trigo. A startup IngateyGen, por exemplo, utiliza a tecnologia CRISPR para eliminar os genes que causam alergia ao amendoim, em um projeto apoiado pela National Science Foundation (NSF). Enquanto isso, uma equipe liderada pelo professor Eduard Akhunov na Universidade Estadual do Kansas está trabalhando para criar trigo geneticamente editado com redução nas proteínas imunogênicas do glúten.

Entretanto, a remoção completa de proteínas do genoma vegetal pode trazer consequências indesejadas. Muitas dessas proteínas desempenham funções essenciais. O glúten, por exemplo, é crucial para a panificação, sendo responsável pelo crescimento do pão e conferindo aos bagels a textura densa que tanto apreciamos. Sem o glúten, muitos dos nossos produtos alimentícios favoritos não teriam a mesma qualidade.

Ainda assim, métodos inovadores estão sendo explorados. A empresa de biotecnologia Ukko desenvolveu uma abordagem computacional baseada em inteligência artificial para identificar maneiras de tornar proteínas problemáticas menos alérgicas, mantendo suas funções intactas. Essa técnica combina análise computacional com edição genética para reformular as proteínas, com o objetivo de viabilizar imunoterapias mais seguras contra alergias.

“Estamos investigando precisamente quais características dessas proteínas são reconhecidas pelo sistema imunológico e fazendo modificações muito específicas para que esse reconhecimento não ocorra mais,” explica Yanay Ofran, CEO e cofundador da Ukko.

Para isso, a Ukko criou um dos mais extensos mapas moleculares de alergias alimentares validado clinicamente, abrangendo centenas de amostras de sangue e tecidos. Através da comparação de amostras de pacientes alérgicos com aquelas de indivíduos não alérgicos, a empresa consegue identificar as partes das proteínas responsáveis pelas reações alérgicas e alterar essas regiões seletivamente.

O resultado é uma nova proteína, muito semelhante à original, mas sem os componentes que desencadeiam alergias. Essa versão modificada é testada de forma abrangente em células do sistema imunológico dos pacientes, a fim de assegurar que a resposta terapêutica seja a adequada, sem causar reações adversas.

“Nosso foco é estudar individualmente a proteína que gera a reação alérgica e criar uma versão segura e eficaz dela,” afirma Ofran. “Estamos testando isso em pacientes com alergia a amendoim, buscando preservar todos os elementos que podem reeducar o sistema imunológico para aceitar o amendoim, enquanto removemos os componentes que provocam a alergia.”

O tratamento da Ukko voltado para alergia ao amendoim, chamado UKK-0018, entrou recentemente em fase de estudos clínicos. Os primeiros resultados sobre segurança, tolerabilidade e a eficácia inicial devem ser disponibilizados até 2027.

Por Que Não Há Alimentos Hipoalergênicos?

A busca por compreender a essência das alergias alimentares transcende a mera criação de novas terapias. Ela abre portas para que futuros programas de melhoramento e engenharia de plantas possam elevar a qualidade das culturas, não apenas em termos de produtividade, mas também de segurança alimentar em relação à imunidade.

A biotecnologia poderia nos proporcionar a capacidade de desenvolver variedades agrícolas que, desde a sua origem, não causassem alergias. Isso poderia, por exemplo, ser alcançado com a engenharia genética de sementes de amendoim hipoalergênicas, tornando seguro o consumo de todos os amendoins em todo o mundo.

“Tecnicamente, estamos muito próximos de alcançar esse objetivo, ou talvez já tenhamos ultrapassado o limite do que é possível em termos científicos e técnicos,” pondera Ofran. “A questão agora é se isso é viável do ponto de vista econômico e comercial.”

Na busca por soluções para a prevenção e tratamento das alergias alimentares, podemos nos ver na iminência de grandes avanços que podem mudar a forma como lidamos com essas condições no futuro. Que tal começarmos a refletir sobre essas possibilidades? Suas opiniões e experiências são sempre bem-vindas!

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