O Bradesco elevou na segunda-feira (26) a taxa mínima de algumas linhas de financiamento imobiliário residencial, de 11,7% para 15% ao ano, mais a Taxa Referencial (TR), atualmente em 2% ao ano. O reajuste ocorreu no primeiro pregão após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em meio à disparada dos juros futuros e à forte aversão ao risco no mercado financeiro.
Questionado sobre a decisão, o banco afirmou que “atualizou as taxas máximas de suas linhas de crédito imobiliário em função do aumento verificado nas taxas de juros do mercado”. A instituição disse que as condições finais são negociadas caso a caso, de acordo com o perfil do cliente e as características da operação. Não respondeu, porém, aos questionamentos sobre a rapidez do reajuste.
Juros futuros pressionaram custos
Uma fonte do mercado imobiliário com mais de duas décadas de experiência no sistema financeiro avaliou que a mudança pode ter sido uma reação ao salto dos juros futuros no pregão anterior. Na leitura da fonte, o aumento não representa necessariamente uma alteração estrutural imediata nas condições do crédito, mas uma proteção diante da volatilidade observada após as eleições. “Foi um dia em que não havia praticamente preço para nada”, afirmou.
Os juros futuros refletem as expectativas dos investidores para as taxas nos próximos anos e incorporam fatores como inflação, risco fiscal e incertezas econômicas. Na segunda-feira, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2028 passou de 12,859% na sexta-feira anterior para cerca de 14,82%. O contrato para janeiro de 2031 avançou de 12,642% para aproximadamente 15,28%.
A oscilação pode afetar o custo de captação dos bancos, que precisam considerar de onde virão os recursos para financiar contratos de longo prazo. Os financiamentos imobiliários podem durar 30 anos ou mais, enquanto as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs), um dos instrumentos usados para captar recursos para o setor, normalmente têm prazo de um a três anos.
Poupança perde participação no funding
A poupança continua sendo a principal fonte de recursos do crédito imobiliário e concentra quase 30% do total, mas perdeu participação relativa nos últimos anos. Em dezembro de 2025, as LCIs respondiam por 19% do funding — os recursos que financiam as operações — do sistema. Os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) representavam outros 10%, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).
Somados, LCIs e CRIs correspondiam a cerca de R$ 768 bilhões, ou 29% da estrutura de financiamento do mercado imobiliário. A remuneração desses instrumentos é influenciada, direta ou indiretamente, pelo Certificado de Depósito Interbancário (CDI), referência para operações entre bancos, e pelo comportamento dos juros futuros.
Como as instituições combinam recursos da poupança com captações no mercado, uma alta abrupta dos juros futuros amplia a incerteza sobre o custo de obter recursos adiante. Isso pode afetar a rentabilidade dos financiamentos concedidos hoje, segundo a fonte ouvida. O prazo mais curto de parte das captações, em comparação com a duração dos empréstimos imobiliários, faz com que os bancos também considerem o custo de futuras captações ao definir as taxas cobradas nos contratos atuais.
Outros bancos mantêm taxas
Até o momento, outras instituições não anunciaram reajustes semelhantes. O Santander informou que acompanha os indicadores econômicos e os movimentos do mercado imobiliário e avalia possíveis efeitos sobre as taxas cobradas dos clientes. O banco afirmou, contudo, que suas taxas continuam a partir de 11,69% ao ano, mais TR.
O Sicredi disse que não prevê ajustes nos spreads — diferença entre o custo de captação e a taxa cobrada do cliente — neste momento. “Não há, neste momento, previsão de ajustes no spread, considerando o caráter estratégico e fidelizador do produto”, afirmou. A instituição acrescentou que o crédito imobiliário permanece entre suas prioridades e que pretende continuar expandindo a carteira no médio e longo prazo.
O Itaú Unibanco não respondeu aos pedidos de comentário até a publicação da reportagem. O Banco do Brasil estava em período de silêncio por causa da divulgação do balanço do terceiro trimestre.
Mercado pode iniciar normalização
A fonte do mercado imobiliário considerou exagerada a reação que levou à redução de posições e pressionou os contratos de juros futuros, o câmbio e os títulos públicos. Na avaliação do especialista, os sinais observados no pregão de terça-feira apontavam para o início de uma normalização. “Quem tinha que sair das posições, saiu. E o mercado volta a ser o que sempre foi”, disse.
Essa leitura sugere que a alta promovida pelo Bradesco pode refletir sobretudo a incerteza momentânea nos mercados, e não necessariamente uma mudança definitiva nas condições do crédito imobiliário. As demais instituições citadas não haviam anunciado medidas semelhantes até então.