Como a Sobrecarga de Dados Está Paralisando a Agricultura: Insights de Jena Holtberg-Benge, da AGCO


Desde os primórdios da agricultura, os agricultores têm enfrentado incertezas. As mudanças climáticas, a falta de mão de obra, as variações nos preços das commodities e o aumento dos custos de insumos sempre exerceram influência sobre a economia do setor. Porém, um novo desafio se apresenta nos dias de hoje: como lidar com a avalanche de dados gerados pelas operações agrícolas modernas.

Para a AGCO, uma das principais fabricantes de equipamentos agrícolas e tecnologias de precisão, a inteligência artificial (IA) se tornou uma aliada fundamental na gestão dessa complexidade. A empresa, que contabilizou uma receita em torno de US$ 10 bilhões (R$ 51 bilhões, na cotação atual) em 2025, investe cada vez mais em IA em suas máquinas, plataformas digitais e rede de distribuidores, ajudando assim os agricultores a aumentar a produtividade enquanto diminuem custos. Segundo Jena Holtberg-Benge, diretora de Digital e Informação da AGCO, a missão é clara.

“Na AGCO, acreditamos que a agricultura de precisão é a chave para enfrentar os principais desafios do setor”, afirma. “A habilidade de produzir mais com menos é fundamental”, complementa Jena, que trabalha na sede da AGCO, em Duluth, Geórgia, EUA.

Tecnologia: A Nova Fronteira da Competitividade

A visão de Jena é fruto de uma carreira singular. Antes de se tornar diretora de Digital e Informação da AGCO em 2026, ela liderou a área global de peças de pós-venda da empresa, acumulando uma experiência valiosa como cliente. Essa vivência transformou sua perspectiva sobre a tecnologia. “Eu vivi a tecnologia na prática e percebi que não se trata apenas de eficiência operacional, mas de fornecer a peça certa, no momento exato, para os clientes.”

Hoje, sob sua liderança, o departamento gerencia a estratégia global de tecnologia da AGCO, incluindo iniciativas em IA, plataformas digitais, segurança cibernética e recursos de dados. Para Jena, essas funções não são meramente de suporte; elas são essenciais para o crescimento do negócio. Desde plataformas de e-commerce que permitem que os concessionários façam pedidos a qualquer momento, até soluções digitais que garantem a operação contínua dos equipamentos em períodos críticos, a tecnologia se tornou um verdadeiro diferencial competitivo. “Enxergamos a tecnologia como uma alavanca estratégica para a AGCO”, destaca. “A tecnologia em si é uma vantagem competitiva.”

Em 2025, a AGCO destinou US$ 487,7 milhões (R$ 2,50 bilhões) em engenharia, dos quais US$ 374,5 milhões (R$ 1,92 bilhão) foram investidos em pesquisa e desenvolvimento. Cerca de 47% desses recursos foram alocados em máquinas inteligentes e tecnologias sustentáveis, incluindo soluções que utilizam inteligência artificial. Entretanto, a empresa não divulga o montante específico direcionado apenas à IA.

Agricultura de Precisão na Era da Inteligência Artificial

Grande parte da vantagem competitiva da AGCO provém do seu investimento em agricultura de precisão, um campo em que a empresa tem colocado recursos significativos ao longo das décadas. A parceria com a Trimble, inaugurada em 2024, combinou as forças da AGCO em agricultura de precisão com as inovações tecnológicas da Trimble, resultando em uma das ofertas mais abrangentes do setor. Isso inclui sistemas de orientação, novas tecnologias de condução, pulverização direcionada e soluções para a agricultura autônoma.

Diferente de outras fabricantes que focam apenas em seus próprios equipamentos, a AGCO adota o que Jena chama de abordagem “retrofit-first”, priorizando a adaptação de máquinas existentes. “É comum encontrar fazendas que operam com uma combinação diversa de marcas”, explica Jena.

Os agricultores têm reagido positivamente, pois a tecnologia se alinha com seus principais desafios operacionais. Os sistemas de orientação, por exemplo, ajudam a contornar a escassez de mão de obra, tornando as máquinas mais fáceis de operar. Além disso, sistemas de pulverização equipados com IA conseguem identificar plantas daninhas individualmente, diminuindo o uso de herbicidas e melhorando a sustentabilidade, ao mesmo tempo em que reduzem custos. “Os produtores estão ávidos por inovações que possibilitem cortar gastos e aumentar a produção”, conclui Jena.

Transformando Dados em Ações Práticas

Apesar de os equipamentos conectados gerarem grandes volumes de dados, Jena acredita que o verdadeiro desafio não é a quantidade de informações, mas a capacidade de transformar esses dados em ações úteis. “A questão na agricultura não é a falta de dados. O risco real é a paralisia causada pela superabundância de informações”, afirma.

As propriedades agrícolas modernas estão em constante coleta de dados, que vão desde sensores nas máquinas até monitores de produtividade e sistemas meteorológicos. Para evitar que os agricultores se sintam sobrecarregados, a AGCO desenvolve sua plataforma PTx Farm Management, que centraliza dados de diversas marcas em uma única interface operativa. “Nosso objetivo é simplificar e disponibilizar informações relevantes no momento certo, durante as fases do ciclo de cultivo”, ressalta. “Dessa forma, eles podem tomar decisões informadas.”

Essa visão se estende à rede de concessionários AGCO, onde agentes baseados em IA auxiliam na identificação correta de peças de reposição, respondem rapidamente a dúvidas dos clientes e notificam sobre contratos de manutenção ou assinaturas prestes a vencer. Esses recursos têm um duplo benefício: reduzem o tempo de inatividade dos equipamentos e fortalecem o relacionamento entre agricultores, concessionários e a AGCO.

Capacitando a Força de Trabalho para o Futuro

Internamente, Jena vê a adoção da IA como um processo que envolve tanto a tecnologia quanto as pessoas. No último ano, a AGCO intensificou seus programas de capacitação em IA, promovendo o aprendizado contínuo entre os funcionários sobre tecnologias emergentes e como integrá-las ao trabalho diário. “Não se trata apenas de adquirir conhecimento, mas sim de colocá-lo em prática”, enfatiza.

Ela é um exemplo dessa filosofia. Jena desenvolveu agentes de IA que acompanham inovações, resumem notícias do setor, preparam materiais para reuniões e analisam contratos. O objetivo é dedicar menos tempo à busca de informações e mais à tomada de decisões. Ela também incentiva o aprendizado contínuo através de conteúdos externos, mencionando o podcast a16z e o Substack de Nate B. Jones como ótimas fontes para entender tanto os avanços tecnológicos quanto suas implicações comerciais.

Colocando os Agricultores em Primeiro Lugar

Mesmo diante da rápida evolução da IA, a AGCO mantém suas prioridades inalteradas. A filosofia “Farmer First” guia o desenvolvimento de produtos, bem como as pesquisas e investimentos em tecnologia. Painéis com clientes, demonstrações em campo e um contato contínuo com os concessionários garantem que as inovações abordem problemas reais, em vez de serem apenas exibições de tecnologias avançadas.

Olhando adiante, Jena acredita que a IA se tornará ainda mais crucial para ajudar os agricultores a enfrentar a crescente pressão para produzir mais alimentos com menos recursos. Com a recuperação dos mercados agrícolas após a atual fase de retração, ela antecipa que as tecnologias digitais se tornarão uma ferramenta essencial para a diferenciação no setor.

“Estou realmente empolgada com o potencial de utilizar essa tecnologia”, diz Jena. “A aplicação da IA pode realmente expandir os negócios. À medida que superamos esta fase, como podemos aplicar a IA para resolver os problemas dos agricultores?” Para a AGCO, o futuro da agricultura não se trata apenas de estar mais conectado. Será mais inteligente, eficiente e cada vez mais alinhado com tecnologias que auxiliam os agricultores a tomar decisões críticas quando mais precisam.

Publicada originalmente na Forbes EUA, com contribuições da Forbes Brasil.

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