Como uma Brasileira Está Transformando a Expansão Global do Canva com a Revolução da IA


Gabriela Belo Soares, uma brasileira que faz história no Vale do Silício, carrega consigo uma rica experiência acumulada ao longo de 10 anos. Passou por gigantes como Google, LinkedIn, Wal-Mart e PayPal, e atualmente ocupa o cargo de líder global de produtos na plataforma de design e comunicação visual Canva.

Em sua função, Gabriela tem uma responsabilidade crucial: adaptar a experiência dos usuários em múltiplos mercados ao redor do mundo e integrar a inteligência artificial nos serviços oferecidos. “Essa tarefa demandou uma série de modificações, como a inclusão do Pix como método de pagamento e a criação de templates otimizados para o WhatsApp”, explica em uma entrevista à Forbes, durante sua visita ao Brasil, que é o segundo maior mercado do Canva em termos de usuários, atrás apenas dos Estados Unidos.

Sua viagem ao Brasil foi apenas uma das muitas atividades que desempenhou desde que assumiu a liderança da equipe global há quase um ano, em outubro de 2022. Com base na Califórnia, Gabriela coordena um time diversificado, com 30 colaboradores espalhados pelo mundo. “Embora tenhamos equipes na América Latina, a maior parte dos nossos desenvolvedores opera em Sydney, na Austrália e Pequim, na China”, comenta.

No contexto revolucionário da inteligência artificial, o Canva enfrenta um desafio significativo: a integração de IA em suas ferramentas para atender adequadamente a mais de 260 milhões de usuários mensais, que incluem desde pequenos empreendedores a criadores de conteúdo. “A concorrência é acirrada, pois atualmente todas as IAs parecem oferecer serviços variados. No entanto, nosso foco está em aplicar a IA nas ferramentas que já existem, auxiliando o usuário a atingir seus objetivos mais rapidamente”, revela Gabriela.

A Jornada Rumo à Carreira Internacional

Gabriela sempre teve uma paixão por se conectar com pessoas de diferentes culturas ao redor do mundo, mas a ideia de construir uma carreira internacional em tecnologia não era um plano inicial. Nascida em São Paulo, formou-se em administração na FEA (Faculdade de Economia e Administração) da USP (Universidade de São Paulo). “Era o curso típico de alguém ainda indeciso sobre o futuro”, ela ri. “Eu achava a ideia de trabalhar com empresas e produtos fascinante, mas imaginei que meu caminho seria no marketing, pois gostava de vender ideias e influenciar comportamentos.”

Sua trajetória profissional teve início na consultoria BCG (Boston Consulting Group), onde dedicou quatro anos a otimizar processos bancários e a gestão financeira. Foi nessa fase que o universo da tecnologia fisgou sua atenção. “Fiquei completamente encantada, era um mundo totalmente diferente do que vivenciei com produtos físicos”, relembra. “Já tinha passado um tempo na Kibon, onde o foco era mais na venda de sorvetes do que na criação do produto. Na tecnologia, o foco é quase totalmente na construção digital.”

Determinada a entender mais sobre como criar um produto digital, Gabriela decidiu se mudar para a Califórnia a fim de cursar um MBA na Universidade da Califórnia em Berkeley. “Naquela época, a função de gestora de produtos era algo inédito, e a Califórnia se destacava como o principal local para isso.”

O plano era apenas estudar, mas o setor acabou cativando Gabriela, que decidiu ficar no país em busca de oportunidades profissionais. “A princípio, não era meu objetivo fazer carreira fora do Brasil, mas me apaixonei pela indústria”, admite.

Gabriela no Sather Gate, no campus da UC Berkeley
Acervo pessoalGabriela no Sather Gate, no campus da UC Berkeley

No entanto, o processo de obtenção do visto de trabalho trouxe seus desafios, levando Gabriela a abrir mão de algumas oportunidades. “Tive receios relacionados à imigração, e isso atrasou minha trajetória em cerca de dois anos.” Após finalizar seu MBA em 2018, ela conseguiu um cargo na equipe de Business Operations and Strategy no Google, onde mais tarde se tornou a líder da estratégia de produto.

A caminhada na carreira internacional, por sua vez, trouxe seus próprios desafios. “O estilo de trabalho aqui é bastante diferente. A cultura de almoçar em conjunto ou os cinco primeiros minutos da reunião dedicados a uma conversa descontraída não existe nos EUA. Aqui, tudo tem uma agenda estabelecida e é documentado”, explica Gabriela.

Mesmo assim, o “jeitinho brasileiro” entrou em ação. “Recebo feedbacks de que minha presença traz um ambiente mais leve. Mesmo quando as situações são desafiadoras, como quedas de desempenho, mantemos o otimismo e seguimos adiante”, conta. “Ser capaz de lidar com a incerteza, arriscar e comunicar bem — tanto os sucessos quanto os fracassos — foi fundamental para mim.”

Representatividade Feminina na Tecnologia

Durante sua trajetória, Gabriela teve a oportunidade de se inspirar em mulheres fortes em posições de liderança que iluminaram seu caminho. “No Google, vi a CFO e a líder do YouTube como mulheres que me influenciaram; na Microsoft, a CFO também era mulher,” afirma. “No passado, eu costumava ficar atenta toda vez que havia uma mulher na sala; hoje, isso não passa pela minha mente. Antigamente, a liderança feminina se resumia mais a marketing e finanças; agora, está crescendo nas áreas de produtos.”

Entretanto, apesar de avanços, o setor tecnológico ainda enfrenta desigualdades, especialmente na fundação e propriedade de empresas. “Os fundos de venture capital tendem a investir desproporcionalmente mais em homens. Embora as mulheres estejam alcançando cargos de liderança, as fundadoras e proprietárias continuam sendo exceções raras”, comenta. “No Canva, temos a fundadora Melanie Perkins, mas sabemos que isso ainda é uma raridade.”

Melanie Perkins, CEO e cofundadora do Canva
DivulgaçãoMelanie Perkins, CEO e cofundadora do Canva

Um conselho valioso que Gabriela gostaria de ter recebido no início de sua carreira, e que agora compartilha com novas gerações de mulheres na tecnologia, é a importância de pedir mais. “Negociem seus salários, sintam-se à vontade para solicitar mais responsabilidades, mentoria, feedback e promoções. Muitas vezes, não pedimos o suficiente”, ressalta. “É fundamental se posicionar, entregar resultados e exigir o espaço que merecem, pois vocês trabalham duro e provavelmente estão à altura disso.”

Essas lições também são para sua filha. “Desejo que ela encontre um mercado de trabalho mais flexível, acolhedor e inteligente”, afirma Gabriela.

Além de sua carreira e do papel como mãe, Gabriela dedica seu tempo livre a atividades prazerosas, como ler, resolver desafios de lógica como Sudoku e explorar novas receitas na cozinha. “Atualmente, estou aprendendo a preparar pratos indianos com um toque brasileiro,” compartilha, como uma forma de se conectar com diferentes culturas quando não está trabalhando.


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