David Sacks aborda o verdadeiro significado do poder


A tradição realista de Hans Morgenthau, que situa a disputa por poder no centro das relações internacionais, não justifica o uso irrestrito da força, segundo uma análise sobre a política externa do segundo governo de Donald Trump. O argumento é que o pensador defendia limites morais e prudência no exercício do poder, por considerar que o excesso pode enfraquecer a influência dos Estados Unidos e ameaçar sua democracia.

Morgenthau formulou suas ideias no início da Guerra Fria, período de rivalidade entre Estados Unidos e União Soviética. Seu livro Politics Among Nations, publicado em 1948, tornou-se um dos principais manuais de relações internacionais nos Estados Unidos e ajudou a consolidar o realismo, corrente que analisa a disputa por influência e segurança entre países.

O poder e seus limites

Uma interpretação comum do realismo destaca apenas a busca dos países por poder. A análise argumenta que essa leitura deixa de lado outro aspecto central do pensamento de Morgenthau: embora os seres humanos e os Estados tendam a ampliar sua força, também podem estabelecer limites para o próprio poder.

Para o teórico, normas e critérios morais ajudariam a conter a disputa entre países. A força, portanto, não deveria ser um objetivo em si, mas um meio para atender a propósitos mais amplos. Morgenthau afirmava que o poder superior não dava a um país o direito moral ou legal de fazer tudo o que fosse capaz de realizar.

Essa visão foi influenciada pela experiência pessoal do pensador. Judeu alemão, ele deixou a Europa e chegou aos Estados Unidos como refugiado em 1937, depois de viver em Genebra e Madrid. A perseguição antissemita e a ascensão do nazismo marcaram sua trajetória e reforçaram sua preocupação com a violência política e com a fragilidade das instituições.

Em 1946, Morgenthau publicou Scientific Man vs. Power Politics, livro em que contestou a ideia de que a razão e a ciência poderiam eliminar os conflitos. Dois anos depois, em Politics Among Nations, apresentou uma formulação mais pragmática: os países buscariam preservar, ampliar ou demonstrar seu poder, e um equilíbrio entre forças seria necessário para evitar tentativas de derrubar a ordem existente.

O alerta sobre intervenções

A análise sustenta que Morgenthau não defendia o uso da força sem restrições. Na década de 1960, ele se opôs à intervenção dos Estados Unidos no Vietnã e alertou que o envolvimento poderia se transformar em um atoleiro. Também contestou a teoria do dominó, segundo a qual a expansão do comunismo em um país levaria inevitavelmente à sua disseminação pela região.

Em 1965, durante um debate público sobre a guerra, Morgenthau declarou ser contrário à política americana por motivos “morais, militares, políticos e intelectuais”. Ele temia que a guerra comprometesse não apenas a posição internacional dos Estados Unidos, mas também os valores que davam sentido à atuação do país no exterior.

Para o pensador, intervenções mal calculadas podiam voltar-se contra o próprio país, debilitando a democracia e a coesão social. O poder americano, em sua avaliação, deveria proteger o experimento democrático interno e servir de exemplo, em vez de tentar impor à força um modelo a outros países.

Críticas à política de Trump

O texto aplica esse raciocínio ao segundo governo Trump e critica a adoção de ações militares e ameaças contra outros países. Entre os episódios citados estão ataques a embarcações no Caribe, a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, um bloqueio a Cuba e a guerra contra o Irã. A análise também menciona ameaças de ação militar contra Canadá e Dinamarca, aliados tradicionais dos Estados Unidos.

Em janeiro, o vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller, descreveu uma ordem mundial regida por “leis de ferro”, pela força e pelo poder. A análise considera que essa visão confunde poder político com capacidade militar e contraria as ressalvas de Morgenthau sobre a necessidade de julgamento e contenção.

Segundo o argumento, influência duradoura depende também de outros países aceitarem a liderança americana, e não apenas de serem submetidos à coerção. O uso da força, nessa perspectiva, pode indicar incapacidade de influenciar acontecimentos por outros meios. O texto relaciona ainda a política externa agressiva a pressões internas sobre instituições, como tribunais, imprensa e universidades, e afirma que o governo não buscou autorização do Congresso para a guerra contra o Irã.

A análise conclui que, para Morgenthau, limitar o próprio poder não seria sinal de fraqueza, mas uma forma de preservá-lo. Sem vínculos com valores e sem restrições institucionais, o país poderia comprometer as bases de sua influência internacional e da própria democracia.

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