Democratas disputam o futuro da política externa dos EUA


As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos devem marcar o início da disputa democrata pela Presidência em 2028. Após a derrota de Kamala Harris em 2024 e dois anos de debate sobre as causas do resultado, o partido terá de definir suas propostas de política externa diante de um cenário internacional que pode ser especialmente instável em 2029.

A discussão reúne dois grupos principais. Centristas defendem reforçar o poder dos Estados Unidos, ampliar alianças e competir estrategicamente com rivais; progressistas priorizam cooperação internacional e desafios compartilhados. As divergências entre integrantes de cada grupo também são relevantes, em especial sobre Israel, inteligência artificial (IA), China, comércio e clima.

Disputa sobre o papel dos EUA

Os três presidentes democratas que governaram após o fim da Guerra Fria apoiaram, em diferentes graus, uma ordem internacional liderada pelos Estados Unidos. Joe Biden, porém, não tentou simplesmente restaurar o modelo anterior a Donald Trump. Sua administração deslocou a política econômica externa do livre-comércio para a política industrial, a resiliência das cadeias de produção e a liderança tecnológica, além de adotar uma postura mais firme em relação a Pequim e Moscou do que seus antecessores democratas.

Centristas discutem se um novo governo democrata poderia reformar e recuperar a ordem liderada por Washington ou se precisaria adaptar a política externa a um período prolongado de turbulência geopolítica. Em geral, defendem fortalecer alianças, modernizar as Forças Armadas, ampliar a capacidade da indústria de defesa, reforçar a dissuasão e manter a diplomacia com países rivais. Também avaliam que Trump enfraqueceu o poder e as instituições dos EUA, mas reconhecem que a confiança dos aliados na continuidade dos compromissos americanos será difícil de recuperar.

Progressistas criticam a busca pela primazia americana e afirmam que a aplicação seletiva das regras internacionais prejudicou a credibilidade da ordem existente. Na Conferência de Segurança de Munique, em 2026, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez afirmou que, “em uma ordem baseada em regras, a hipocrisia é uma vulnerabilidade”. Parte desse grupo também associa a influência de grandes empresas dos setores de defesa, tecnologia e finanças a gastos militares excessivos e a políticas que favorecem multinacionais em detrimento dos trabalhadores.

As duas correntes têm pontos em comum: apoiam a Otan, a União Europeia e as alianças americanas no Indo-Pacífico, defendem a Ucrânia e se opõem à guerra com o Irã. A divergência está, entre outros temas, na dimensão da presença militar dos EUA. Progressistas defendem reduzir compromissos no exterior e, em alguns casos, retirar as tropas do Oriente Médio. Centristas também querem diminuir a presença na região, mas rejeitam uma retirada completa.

Israel e inteligência artificial no debate

A relação com Israel pode representar uma das mudanças mais marcantes em comparação com a política de Biden. Muitos democratas consideram que o então presidente não pressionou suficientemente o governo israelense durante a guerra em Gaza. Entre os centristas, há apoio a medidas mais firmes contra ações que prejudiquem interesses americanos, incluindo a expansão de assentamentos na Cisjordânia e o uso excessivo da força.

O ex-congressista Rahm Emanuel propôs apoiar a criação de um Estado palestino em troca do reconhecimento pleno de Israel pelos países árabes e de laços mais estreitos na região. A proposta também prevê sanções a colonos violentos e a entidades ligadas a assentamentos ilegais, além de encerrar os subsídios militares dos EUA a Israel. Jon Finer, ex-vice-conselheiro de Segurança Nacional de Biden, defende condicionar a venda de armas ao cumprimento do direito humanitário internacional. Progressistas receberam bem a mudança de posição de alguns centristas, mas muitos defendem medidas adicionais, como reconhecer um Estado palestino desde o início de um novo governo.

A IA também pode ocupar espaço central na campanha. Parte dos centristas quer competir com a China, mas desacelerar o desenvolvimento de sistemas para reduzir riscos e controlar impactos sobre empregos. Entre as propostas estão ampliar restrições às exportações de tecnologia, negociar regras com aliados e manter diálogo com Pequim sobre segurança. A ex-secretária do Tesouro Janet Yellen e a então secretária do Comércio Gina Raimondo expressaram dúvidas sobre a eficácia de controles de exportação para impedir o avanço chinês; Raimondo afirmou, em 2024, que “tentar conter a China é uma causa perdida”.

Progressistas, em geral, questionam se os Estados Unidos precisam vencer a disputa por sistemas de IA mais avançados. Alguns defendem interromper o desenvolvimento, suspender a construção de novos centros de dados e negociar com a China um acordo vinculante para limitar sistemas potencialmente perigosos. Bernie Sanders e o deputado Ro Khanna apoiaram um acordo desse tipo, comparando-o ao controle de armas nucleares durante a Guerra Fria.

China, comércio e clima

Para a maioria dos centristas, a China é o principal desafio estratégico e econômico dos EUA. Eles defendem reforçar alianças, apoiar a capacidade de defesa de Taiwan e combinar competição com diplomacia, para reduzir o risco de conflito. Progressistas consideram que essa abordagem pode aumentar as tensões e defendem cooperação com Pequim em temas como clima e segurança da IA. Alguns propõem ampliar os vínculos econômicos entre os dois países, embora a maioria não defenda aceitar as ambições geopolíticas chinesas.

As diferenças se estendem ao comércio. Centristas querem ampliar a política industrial para setores estratégicos, coordenar tarifas e restrições a importações com a Europa e criar acordos econômicos mais específicos com aliados. Entre progressistas, parlamentares como Sanders, Khanna e Elizabeth Warren também defendem responder a práticas comerciais chinesas e à perda de capacidade industrial americana. Outros integrantes do campo rejeitam tratar a política industrial principalmente como instrumento de competição com a China e preferem associá-la à redução da desigualdade e à ação climática.

Os democratas também divergem sobre as tarifas impostas por Trump a aliados: alguns querem suspendê-las de imediato, enquanto outros consideram manter parte delas para proteger setores industriais ou negociar uma resposta conjunta a Pequim. Na política climática, progressistas priorizam a cooperação com a China e a redução do uso de petróleo e gás. Centristas preferem relacionar o tema a empregos, custo de vida e segurança energética, e tendem a favorecer parcerias com países considerados mais confiáveis.

O debate pode definir a capacidade de um eventual governo democrata de agir rapidamente a partir de 2029. O próximo presidente poderá encontrar alianças fragilizadas, pressão chinesa sobre Taiwan e conflitos em curso no Irã e na Ucrânia. Uma disputa interna sem propostas claras, segundo o argumento apresentado, poderia dificultar decisões no primeiro ano de mandato. Apesar das diferenças, os dois grupos defendem alianças, a reconstrução do poder americano e a rejeição a intervenções militares desnecessárias.

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