Descubra Como Esta Agfintech Revoluciona o Acesso a Crédito para Produtores de Grãos e Gado na Argentina e Brasil


Na vastidão do campo, é possível encontrar milhões de dólares em ativos, seja em silos-bolsa ou em rebanhos bovinos. Entretanto, essa riqueza muitas vezes não se traduz em ativos financeiros que possam ser utilizados como garantia para obter crédito. Essa discrepância entre o valor real dos bens e sua usabilidade no sistema financeiro foi o ponto de partida para a criação da SiloReal, uma empresa inovadora com operações no Brasil e na Argentina, que tem o objetivo de revolucionar a forma como os bancos avaliam o risco dos produtores agropecuários.

Fundada por Delfín Uranga, um experiente empreendedor do agronegócio, a SiloReal surgiu como resposta a um desafio que ele mesmo vivenciou em sua trajetória. Ao analisar os ativos da propriedade rural de sua família, Delfín percebeu que muitos itens de valor monetário significativo não eram considerados pelas instituições financeiras para concessão de crédito. Essa constatação o levou a desenvolver um sistema que visa identificar, verificar e digitalizar ativos físicos, possibilitando que estes sejam utilizados como garantia em operações de crédito, seguros e transações comerciais, sem a necessidade de movimentação da mercadoria armazenada.

“Muitos produtores possuem ativos valiosos que o sistema não consegue enxergar”, afirma Uranga.

Por conta dessa lacuna no mercado, as instituições financeiras frequentemente avaliam os produtores com base em balanços patrimoniais limitados ou em históricos de crédito, desconsiderando o valor intrínseco dos grãos e do gado. A SiloReal surgiu com a missão de sanar essa questão, começando pela digitalização de grãos armazenados em silos-bolsa e, posteriormente, expandindo para outros ativos da economia real, como o gado.

“O ativo existe: o que faltava era identidade e comprovação”, resume Uranga. Para colocar a ideia em prática, foram necessárias a integração de diferentes fontes de informação, tecnologias de verificação e mecanismos legais que transformam bens físicos em garantias aceitas por terceiros.

Transformando silos-bolsa em garantias bancárias

O nome da empresa, SiloReal, expressa claramente sua proposta. No agronegócio, um silo é uma estrutura de armazenamento, enquanto no mundo da tecnologia, o termo refere-se a conjuntos de dados isolados. A SiloReal combina essas duas definições em uma infraestrutura que conecta ativos físicos ao sistema financeiro.

O funcionamento da empresa é semelhante à emissão de um passaporte digital para cada ativo. Esse registro reúne evidências sobre identidade, existência, condição, titularidade e vínculo contratual do bem. A informação é atualizada periodicamente, permitindo que bancos, seguradoras e compradores tenham acesso à status do ativo durante a continuidade da operação.

“Funcionamos como uma agência de viagens: emitimos uma passagem digital, garantindo que a confiança e o valor do ativo possam viajar virtualmente até um banco ou comprador, sem a necessidade de movimentação física da mercadoria”, explica Uranga.

Forbes ArgentinaA SiloReal transforma ativos invisíveis em garantia

Para verificar cada silo-bolsa, a SiloReal combina uma série de tecnologias diferentes. São usadas imagens de satélite para localizar o ativo, fotografias georreferenciadas capturadas por dispositivos especiais e amostras que analisam características dos grãos, como espécie e umidade. “Integramos dados de origem de colheitadeiras e transportadoras para rastrear a trajetória do produto. A informação já existia; só era preciso consolidá-la”, afirma Uranga.

O resultado dessa abordagem é o que a empresa chama de Ativo Físico Verificado (AFV). “A verificação não se limita a confirmar a existência do grão; também procura estabelecer quem é seu proprietário, em que condições se encontra e se existe algum compromisso contratual”, ressalta.

A tecnologia utilizada pela SiloReal vem organizada em três mecanismos. Primeiramente, a companhia coleta as evidências necessárias para validar o ativo. Em seguida, ela gerencia os contratos, monitorando garantias, vencimentos e possíveis mudanças. Por último, um sistema de notificações e alertas organiza a interação entre os proprietários, bancos e seguradoras, otimizando o processo.

Esse processo inovador não depende exclusivamente de inspeções presenciais, realizado de forma remota e periódica, oferecendo às instituições financeiras informações atualizadas sobre o ativo que está garantindo o crédito.

“Não fazemos empréstimos, não compramos e não emitimos seguros. Nossa missão é construir a camada de confiança para que aqueles que operam nesse setor consigam perceber o que existe de valor no campo”, conclui Uranga.

Ampliando o modelo: de grãos ao gado

Depois de estabelecer o sistema para grãos armazenados, a SiloReal ampliou suas operações para incluir o gado, que apresenta desafios adicionais. Isso ocorre porque os animais são ativos biológicos e sua condição e composição podem mudar ao longo do tempo.

Nas propriedades leiteiras, cada vaca é identificada individualmente, ligada aos registros de produção de leite. O sistema utiliza a identificação obrigatória com brincos, reconhecimento fotográfico e integração com o Documento de Trânsito Eletrônico (DT-e) para controle do movimento dos animais que servem como garantias.

Além disso, a SiloReal também pode incorporar dispositivos eletrônicos em coleiras ou brincos, que coletam informações sobre localização, temperatura e atividade. Essa rastreabilidade é crucial para solucionar outro desafio na financiamento agrário: manter garantias durante períodos prolongados, mesmo quando o rebanho é alterado.

Quando isso acontece, a tecnologia permite gerenciar a substituição dos animais relacionados à garantia, facilitando créditos rotativos, ou seja, linhas de crédito renováveis conforme determinadas condições forem atendidas.

O objetivo é que os produtores utilizem seus ativos como garantias sem imobilizar suas operações. Em vez de depender exclusivamente do histórico financeiro, podem oferecer bens verificáveis que são monitorados durante a vigência do crédito.

Esse conceito de verificação de ativos também pode ser expandido para outras categorias, com a visão de desenvolver soluções para máquinas, veículos, mineração e silvicultura.

Modelo de negócios: bancos, seguradoras e exportadores

A SiloReal adota um modelo B2B2F (Business to Business to Farmer), atuando diretamente com bancos, seguradoras e empresas compradoras que precisam gerenciar riscos associados a ativos físicos. Os produtores agropecuários são os beneficiados pela infraestrutura tecnológica.

A empresa não compete com esses players; ao contrário, oferece a tecnologia que facilita a operação com informações robustas, ajudando na fundamentação das decisões em bases verificáveis. O ingresso no mercado começou com a validação do modelo junto a produtores e seguradoras, que aceitaram garantir a existência dos grãos sem precisar de inspeções físicas.

Forbes ArgentinaOs silos-bolsa: ativos cruciais no agronegócio

Entre as instituições financeiras que se uniram à proposta estão o Banco Galicia, que queria evoluir de um modelo de empréstimos baseado apenas na assinatura do tomador para um com garantias tangíveis. O Santander e a plataforma Nera, que conecta diferentes instituições ao ecossistema agropecuário, também se juntaram ao projeto.

No setor comercial, a SiloReal colabora com exportadores e players na cadeia produtiva. A possibilidade de transferir a propriedade da mercadoria sem movimentá-la fisicamente pode facilitar o planejamento e a redução das concentrações de transporte durante a colheita.

Assim, o ativo pode garantir uma operação de crédito, uma compra ou venda ou um seguro, permanecendo na propriedade de origem, ampliando suas funcionalidades.

Investimentos e crescimento futuro

Em quatro anos de atuação, a SiloReal investiu US$ 5 milhões (aproximadamente R$ 24,94 milhões) no desenvolvimento de suas tecnologias e conta atualmente com uma equipe de 20 a 24 funcionários. Recentemente, a empresa completou uma rodada de investimento de US$ 2,5 milhões (cerca de R$ 12,47 milhões) para financiar sua expansão.

Segundo Uranga, a empresa já apresenta receitas suficientes para sua sustentabilidade. O próximo desafio será aumentar o número de ativos verificados e aprofundar a integração com os participantes dos sistemas financeiro e comercial.

Os números são promissores. Em outubro de 2026, a SiloReal informou que possui US$ 1,2 bilhão (aproximadamente R$ 5,98 bilhões) em ativos verificáveis, abrangendo grãos em silos-bolsa, gado e grãos em silos metálicos. Além disso, registrou US$ 55 milhões (R$ 274,29 milhões) em transações verificadas e seguros emitidos sobre os ativos verificados totalizam US$ 107 milhões (R$ 533,62 milhões). A empresa contabiliza mais de 100 mil toneladas de grãos verificadas, 12.721 bovinos, 90 contratos administrados e 80 créditos concedidos.

A SiloReal enxerga um vasto potencial no mercado argentino, que possui cerca de US$ 100 bilhões (R$ 498,71 bilhões) em ativos representados por grãos e gado, com um crédito agropecuário circulando em torno de US$ 16 bilhões (R$ 79,79 bilhões). Muitas das oportunidades que a SiloReal busca são voltadas para facilitar que esses ativos possam garantir novas operações financeiras, sem depender exclusivamente dos balanços patrimoniais de seus proprietários.

Expansão no Brasil e internacionalização

A internacionalização é um dos pilares do crescimento da SiloReal, e o Brasil representa o segundo mercado em que a empresa atua. O Brasil conta com um ecossistema agropecuário mais robusto e com demandas regulatórias adaptadas ao seu contexto produtivo. Para entrar no país, a SiloReal formou parcerias com empresas locais e instituições que atuam na tecnologia de silos e na pecuária.

No Brasil, a SiloReal trabalha tanto com grãos em silos metálicos quanto com ativos pecuários, incorporando fontes locais de comprovação. A expansão exige, por outro lado, que a tecnologia se adapte às particularidades regulatórias de cada país. Não basta identificar um bem; é vital que a documentação, a titularidade e os mecanismos de constituição e execução das garantias respeitem as regras locais.

Após se estabelecer no Brasil, a SiloReal programou uma expansão para outros países como Colômbia, México, Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia. A estratégia envolve levar a mesma infraestrutura tecnológica para mercados com atividades agropecuárias relevantes, por meio da integração com empresas e fontes de informação locais. O desafio é mais do que digitalizar grãos ou gado; implica na construção de uma linguagem comum entre os ativos físicos e aqueles que podem financiá-los, segurá-los ou adquiri-los.

“Queremos que um produtor possa se financiar com aquilo que já tem no campo, sem depender exclusivamente de sua história financeira”, finaliza Uranga.

Publicado originalmente na Forbes Argentina


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