A vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato para a Câmara e o Senado dos Estados Unidos representa um revés para Donald Trump e pode enfraquecer, de forma indireta, aliados da direita brasileira. A mudança na composição do Congresso começa em janeiro, mas não altera a situação dos irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro nos EUA nem impede o acesso deles à Casa Branca.
Analistas avaliam que o resultado reduz a margem de Trump para aprovar sua agenda interna e pode limitar iniciativas legislativas contra o Brasil. Ao mesmo tempo, o presidente mantém instrumentos de política externa e a derrota não elimina sua afinidade com a direita brasileira. O voto americano também expôs o peso do custo de vida na decisão dos eleitores.
Custo de vida pesou no resultado
Elton Gomes, professor de Ciências Políticas da Universidade Federal do Piauí (UFPI), considera que o custo de vida foi o fator mais importante para a derrota republicana. Ele relaciona o preço elevado dos combustíveis à investida militar dos Estados Unidos no Oriente Médio e avalia que promessas de prosperidade não cumpridas afastaram eleitores mais preocupados com a situação econômica do que com a ideologia.
O rigor da política migratória também teria afastado eleitores latinos, embora parte desse grupo defendesse maior controle nas fronteiras, segundo Gomes. A derrota atingiu redutos republicanos, sinal de desgaste que foi além da oposição organizada. Aliados brasileiros veem a esquerda americana reagindo ao fato de que a identidade ideológica da direita não foi suficiente para neutralizar as cobranças relacionadas à economia.
Com a perda da maioria na Câmara e no Senado, Trump terá mais dificuldade para aprovar propostas. Ele, porém, conserva o poder de veto. Na política externa, também pode recorrer a instrumentos diplomáticos e acordos executivos, mas depende do Congresso para financiar ações. O Senado tem influência sobre tratados, o que pode impor limites sem mudar quem conduz a diplomacia americana.
Efeito sobre os Bolsonaro é indireto
A nova maioria democrata não leva, por si só, à extradição de Flávio e Eduardo Bolsonaro, segundo os analistas citados. Flávio é senador até fevereiro e não tem condenação judicial no Brasil. Eduardo possui Green Card, documento que lhe garante residência permanente nos Estados Unidos. O resultado eleitoral também não muda o acesso dos dois à Casa Branca.
Gomes avalia que Trump pode se sentir mais à vontade para atuar no exterior diante dos obstáculos no Congresso. Uma diplomacia mais assertiva e personalista poderia dar mais atenção à América Latina, tanto pela tentativa de recuperar o voto latino em 2028 quanto pelo fato de a região ser prioridade do secretário de Estado Marco Rubio. “O apoio à direita brasileira continua, sem implicar intervenção”, afirma o professor.
Gomes também considera possível que Flávio e Eduardo Bolsonaro, além do jornalista Paulo Figueiredo, sejam chamados a prestar esclarecimentos no Congresso americano sob a nova maioria. Na avaliação dele, iniciativas desse tipo poderiam dar aos três espaço para reforçar denúncias de perseguição política. “De todo jeito, o Brasil permanece secundário na pauta dos EUA”, diz.
Para Márcio Coimbra, presidente do Instituto Monitor da Democracia, o novo Congresso pode aliviar a situação diplomática do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao reduzir o espaço para medidas legislativas de retaliação ao Brasil. A mudança, segundo ele, favorece negociações bilaterais pragmáticas, mas não apaga a afinidade ideológica de Trump com aliados brasileiros da direita.
Derrota pressiona o movimento Maga
O revés enfraquece o Maga, sigla de “Make America Great Again” (“Faça a América Grande Novamente”), movimento liderado por Trump e que aproxima forças de direita em diferentes países. O resultado não significa o desaparecimento do grupo, mas abre uma disputa sobre como responder à derrota: manter o foco na mobilização da base ou buscar eleitores que se afastaram.
Marcus Deois, diretor da consultoria política Ética, evita atribuir o resultado apenas à rejeição às políticas de Trump e destaca a influência do custo de vida. Entre os desafios para o movimento está a sucessão presidencial. A Constituição dos EUA impede uma terceira eleição de Trump à Presidência, e o vice-presidente JD Vance terá de defender o legado do governo enquanto tenta construir apoio próprio.
O horizonte dessa disputa é 2028. A derrota legislativa amplia o desafio para o Maga, mas não determina o resultado da próxima eleição presidencial. Para a direita brasileira, uma eventual vitória democrata em 2028 teria alcance maior do que a atual mudança no Congresso, pois também alteraria o comando da diplomacia e das agências federais em 2029. Até lá, o apoio de Trump continua sujeito às prioridades dos Estados Unidos e à competição entre possíveis sucessores.

