Diretrizes integram transição hídrica, solo e finanças mistas na agricultura colombiana


A Colômbia discute um plano de quatro anos para ampliar a agricultura regenerativa, modelo que busca recuperar a saúde dos solos e produzir com menor impacto ambiental. As diretrizes foram apresentadas ao governo federal durante a terceira edição do Fórum de Agricultura Regenerativa “Semeando Sustentabilidade”, em meio à insegurança alimentar e à queda recente do valor agregado da agropecuária no país.

Apesar de contar com mais de 40 milhões de hectares cultiváveis e de ser apontada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) como candidata a integrar o grupo de potências agroalimentares globais, a Colômbia enfrenta dificuldades para converter seu potencial em oferta acessível de alimentos. A insegurança alimentar alcançou 28% da população, enquanto o valor agregado da agropecuária recuou 2,1% no último trimestre.

Custos, perdas e pressão sobre a produção

O custo diário de uma refeição balanceada no país chega a US$ 5,04, equivalente a R$ 27,22 na cotação informada pela fonte. O valor supera a média da América Latina e do Caribe, de US$ 4,91 (R$ 26,51), e a média internacional, de US$ 4,28 (R$ 23,11). No cenário global, mais de 2,1 bilhões de pessoas enfrentam restrição alimentar moderada ou severa.

As dificuldades não se limitam ao acesso aos alimentos. Cerca de 14% dos produtos colhidos são perdidos entre a colheita e o transporte para distribuição, o que representa prejuízo global estimado em US$ 400 bilhões (R$ 2,16 trilhões). Outros 17% acabam descartados no varejo ou nas residências.

A expansão da produção também enfrenta limites ambientais. A ocupação desordenada de terras levou à supressão de 420 milhões de hectares de florestas nativas no mundo nos últimos 30 anos. Para atender à demanda futura sem avançar sobre a vegetação, 80% do aumento da oferta de alimentos precisará vir de ganhos sustentáveis de produtividade por hectare.

Foi nesse contexto que o fórum reuniu agências multilaterais, empresas, organizações ambientais e centros de pesquisa. A iniciativa contou com a participação da FAO e da Organização Internacional do Trabalho (OIT), além de organizações como The Nature Conservancy e WWF e instituições científicas como CGIAR e Agrosavia. A Nestlé Colômbia liderou a participação empresarial no evento.

Crédito e propriedade da terra

Um dos principais obstáculos para pequenos produtores é financiar o período de transição. A substituição de insumos químicos sintéticos por práticas de recuperação biológica dos solos pode exigir investimentos e capital de giro antes que a produtividade aumente de forma consistente. O triênio inicial é apontado como uma etapa especialmente delicada para o fluxo de caixa das propriedades.

A falta de escrituras definitivas também dificulta o acesso ao crédito. Parte dos agricultores e pecuaristas não tem a documentação formal da terra, o que impede a oferta de garantias reais ou hipotecárias exigidas por bancos tradicionais para financiar a modernização das lavouras.

“São necessários modelos de finanças mistas e linhas de crédito facilitadas por intermédio do Finagro e do Banco Agrário. Se o setor privado estabelecer integração produtiva direta e afiançar a aquisição da safra com remuneração diferenciada, o risco diminui e viabiliza que pequenos produtores tenham acesso a financiamento viável”, afirmou Carlos Barragán, diretor de assuntos corporativos e sustentabilidade da Nestlé Colômbia.

Cinco frentes para ampliar o modelo

O plano propõe cooperação entre governo e empresas em cinco áreas. As medidas combinam produtividade, renda rural, proteção ambiental e condições de trabalho:

  • Eficiência produtiva e continuidade geracional: reaproveitar nutrientes biológicos, aumentar a biomassa por hectare e melhorar a segurança hídrica, com o objetivo de sustentar a rentabilidade rural e reduzir a saída de jovens para as cidades.
  • Nutrição e logística: ampliar a oferta de alimentos seguros e nutritivos e reduzir intermediários para que uma parcela maior da renda fique com os produtores.
  • Equilíbrio ambiental: reter carbono no solo e na vegetação, reduzir emissões de metano da pecuária e recuperar corredores biológicos e bacias hidrográficas.
  • Bem-estar social: criar ocupações rurais especializadas, reduzir vulnerabilidades de saúde e fortalecer redes comunitárias de pesquisa e inovação.
  • Direitos e garantias no trabalho: avançar em seguridade e previdência adaptadas ao campo. A informalidade supera 83% da força de trabalho rural e chega a 95% na cafeicultura.

Resultados de projetos-piloto

Experiências em bacias leiteiras do Vale de Ubaté indicam que assistência técnica e incentivos financeiros podem acelerar a adoção das práticas. Em três anos, a proporção de produtores que adotaram o modelo passou de 20% para 85%, segundo levantamentos citados no plano. O rendimento por área plantada aumentou em até 20%.

As diretrizes apresentadas ao governo buscam estabelecer parâmetros auditáveis para o próximo quadriênio. O objetivo é ampliar a agricultura regenerativa sem transferir às famílias rurais o custo da mudança e associar a transição a ganhos de produtividade, segurança alimentar e competitividade comercial.

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