O Voo de Clarissa: Da Aviação à Liderança Rural
O sonho de Clarissa Rohde Lopes Peixoto, aos 57 anos, sempre foi pilotar aviões. Na juventude, na década de 1980, ela conquistou o brevê de piloto de planador, formou-se como piloto privada e começou sua jornada rumo à aviação comercial. Contudo, seu sonho foi interrompido por barreiras do mercado que ainda eram muito presentes para mulheres na época. O pai, Pedro Monteiro Lopes, decidiu que era hora de Clarissa voltar a trabalhar: “Volta para trabalhar”, ele disse, e essa frase mudaria sua trajetória para sempre.
De Piloto a Empresária no Campo
Anos depois, Clarissa costuma afirmar que nunca parou de pilotar, apenas trocou o cockpit de uma aeronave pelo gerenciamento de um negócio rural. À frente do Grupo Pitangueira, localizado em Itaqui, na fronteira oeste do Rio Grande do Sul, ela administra uma combinação de produção de arroz irrigado, pecuária de corte, melhoramento genético de bovinos Braford e beneficiamento de arroz. Assim, apesar da mudança de setor, o papel de tomar decisões sob pressão e implementar planejamento persiste em sua vida.
A trajetória de Clarissa é parte da série FORBES FARMERS, que aborda os desafios e a vida de quem trabalha para produzir alimentos em um país de diversas realidades. A série destaca como cada propriedade, independentemente do tamanho, pode se tornar uma referência ao unir produção, gestão, inovação e visão de futuro.
Uma Jornada de Desafios e Decisões
A caminhada de Clarissa não foi linear. Após deixar a aviação, e com o casamento e as duas filhas pequenas, ela enfrentou altos e baixos. “Chegou um momento em que comecei a discordar do meu pai em alguns aspectos de gestão. Ele tinha um modelo mais tradicional, confiava muito nos funcionários antigos e dizia: ‘Sempre foi assim’. Eu retruquei: ‘Se é assim, eu vou embora’. Em 1995, fui morar em Mato Grosso”, recorda a empresária.
Em Mato Grosso, Clarissa, seu marido e suas filhas viveram em Alta Floresta e Rondonópolis. Com as meninas crescendo, decidiu retomar os estudos e aos 40 anos se formou em engenharia agronômica. Essa experiência fora do chamado “ninho familiar” foi fundamental para moldar sua própria identidade profissional. Em 2016, quando seu pai a procurou em busca de ajuda para o Grupo Pitangueira, que enfrentava crises financeiras, Clarissa aceitou voltar, mas com uma condição: teria liberdade para reorganizar o negócio.
“Eu deixei claro ao meu pai que só voltaria se tivesse carta branca para administrar. Não faria sentido retornar apenas para seguir o que já estava sendo feito.”
Inovando em um Setor Tradicional
O retorno de Clarissa ao Grupo Pitangueira representou uma mudança significativa na administração. Em vez de focar na expansão por meio do aumento da área cultivada, ela começou a avaliar a contribuição de cada atividade para a saúde financeira da empresa. Com a morte do pai em 2020, Clarissa passou a comandar efetivamente os rumos da empresa. Ela revisou contratos, encerrou arrendamentos improdutivos e redirecionou investimentos para áreas com maior potencial de valorização, como a genética bovina e o beneficiamento do arroz.
Essa mudança radical ocorreu durante um período desafiador para o cultivo de arroz no Rio Grande do Sul, onde custos altos e flutuações de mercado exigiam um esforço extra por eficiência. Antigamente, o Grupo Pitangueira chegou a cultivar cerca de 10 mil hectares de arroz. Hoje, Clarissa reduziu essa área a mil hectares próprios, priorizando a rentabilidade em vez simplesmente da extensão.
“Havia arrendamentos que custavam mais de 50 sacas por hectare. Não fazia sentido continuar investindo onde não havia retorno”, diz Clarissa.
Reconhecimento e Realização
Em 2023, Clarissa foi agraciada com a Pá do Arroz, uma honraria da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), reconhecendo sua contribuição ao setor. “Ganhar essa pá era um dos meus sonhos”, compartilha emocionada.
Durante a safra 2025/26, a produtora obteve uma colheita de 200 mil sacas de 50 quilos, totalizando 10 mil toneladas de arroz, com expectativas de crescimento ainda maior para a próxima safra. Ela não apenas se preocupa em aumentar a produtividade, mas também busca maximizar o valor de cada produto vendido. O Grupo Pitangueira agora tem sua própria marca de arroz, cuidando de todo o processo, desde o cultivo até a embalagem.
Singularidade na Gestão
A estratégia de Clarissa vai além da produção de arroz. Após colher a safra, as pastagens entram em cena, permitindo que o gado ocupe as áreas antes da próxima colheita. Essa gestão integrada garante que a terra permaneça produtiva durante quase todo o ano e diminui a dependência de uma única atividade. “Costumo dizer que pastagem é lavoura e deve ser tratada com o mesmo cuidado”, acrescenta.
Esse conceito se alinha aos sistemas de Integração Lavoura-Pecuária, onde agricultura e pecuária coexistem e se complementam, otimizando o uso dos recursos disponíveis.
Superando Barreiras na Pecuária
Ao voltar para o grupo familiar, Clarissa percebeu que seu maior desafio não seria apenas aprender a cultivar arroz ou cuidar do gado, mas conquistar espaço em um ambiente dominado por profissionais experientes. Um conselho fundamental surgiu nesse processo: “Aprenda algo que eles não saibam. Não precisa ser muito, mas faça com que eles dependam de você”.
Essa orientação transformou sua abordagem para estabelecer sua autoridade no Grupo Pitangueira. Ao invés de competir pela experiência, ela decidiu investir em conhecimento. Tornou-se jurada da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu e se dedicou ao estudo do melhoramento genético. Essa iniciativa desafiou as normas da pecuária tradicional no Rio Grande do Sul, onde o zebu era considerado “exótico”.
Hoje, a propriedade mantém aproximadamente 3.500 matrizes Braford e um rebanho total que varia entre 12 mil e 14 mil animais. As avaliações constantes dos reprodutores e o envolvimento em pesquisas com a UFRGS focadas no Consumo Alimentar Residual (CAR) têm tornado a fazenda uma referência na pecuária de genética de corte.
Um Legado Duradouro
Ao olhar para o futuro do Grupo Pitangueira, Clarissa não discute sobre expansão do tamanho da propriedade ou aumento do número de bovinos. Sua maior preocupação é preparar o terreno para a próxima geração. Suas filhas, Carolina e Marina, de 33 e 30 anos, já estão inseridas na gestão do negócio.
“Meu maior desafio atualmente é deixar uma empresa organizada para elas. O patrimônio mais importante permanece sendo o conhecimento”, enfatiza.
Essa visão redefine a métrica de sucesso, contemplando não apenas o crescimento econômico, mas também a construção de uma base sólida para os próximos líderes. Clarissa, que já abandonou o sonho da aviação, agora se dedica a cultivar um futuro sólido, onde cada elemento — seja uma semente de arroz ou um embrião — é tratado com o máximo cuidado.
Pensamentos Finais
A história de Clarissa é uma inspiração para muitos que sonham em transformar desafios em oportunidades. Sua jornada nos convida a refletir sobre a importância de perseverar, inovar e, principalmente, deixar um legado de conhecimento e cuidado. Ao invés de apenas mirar no sucesso, talvez o nosso verdadeiro objetivo deva ser preparar o terreno para que outros possam florescer. E você, qual legado está construindo em sua jornada?


