O dólar à vista subiu 0,76% e fechou a quinta-feira (29) cotado a R$ 5,3875, em um movimento influenciado pela valorização da moeda norte-americana diante de divisas emergentes e pelas incertezas políticas e fiscais no Brasil após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No mercado doméstico, investidores aguardavam definições sobre a equipe econômica e os planos do próximo governo para as contas públicas.
Cotação e dados dos Estados Unidos
Na máxima do pregão, às 15h26, a moeda chegou a R$ 5,4302, alta de 1,56%. O dólar comercial encerrou o dia com cotação de R$ 5,387 para compra e R$ 5,387 para venda. Com o resultado, a divisa passou a acumular queda de 1,85% no ano.
Às 17h04, o contrato futuro de dólar para novembro avançava 0,86% na B3, a R$ 5,3950. Esse contrato é negociado para liquidação futura e pode acompanhar as expectativas dos investidores sobre a cotação da moeda.
Indicadores divulgados nos Estados Unidos também influenciaram os mercados. O Produto Interno Bruto (PIB), medida da atividade econômica, cresceu 3,4% no terceiro trimestre. O resultado superou a previsão de 3,2% feita por economistas ouvidos pela Reuters. Em setembro, os gastos dos consumidores norte-americanos aumentaram 0,5%.
O núcleo do índice de preços de gastos de consumo pessoal (PCE), indicador de inflação acompanhado pelo Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, subiu 0,3% em setembro, em linha com as expectativas. O índice cheio avançou 0,5% no mês.
Após a divulgação dos dados, o dólar ampliou os ganhos em relação a moedas de países emergentes, entre elas o peso mexicano, o peso chileno, o rand sul-africano e o real. No entanto, às 17h07, o índice que mede o desempenho da moeda norte-americana frente a uma cesta de seis divisas recuava 0,16%, a 101,960.
Incertezas fiscais pesam sobre o real
No Brasil, as atenções se voltavam para os próximos passos do governo eleito. Investidores aguardavam indicações sobre quem assumirá, em 2027, postos centrais da administração, como o Ministério da Fazenda, e buscavam informações sobre a política fiscal. O controle das contas públicas continuava entre as principais preocupações do mercado.
Jefferson Rugik, diretor da Correparti Corretora, atribuiu parte da alta da moeda às dúvidas sobre a área fiscal e à demora na divulgação da nova equipe econômica. “As preocupações com o fiscal, com a nova equipe econômica, que o Lula parece não ter pressa em anunciar, tudo isso traz um movimento de proteção”, afirmou. Ele também apontou a valorização do dólar diante de outras moedas emergentes no exterior.
Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, relacionou o movimento à busca por proteção diante das tensões locais. Segundo ela, a valorização do dólar “evidencia um movimento de saída de risco”, associado às preocupações com as contas públicas brasileiras e a um cenário global que, em sua avaliação, indica um período prolongado de aperto monetário.
Noticiário político entra no radar
O cenário político também influenciou as avaliações dos investidores. O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato derrotado à Presidência, chegou aos Estados Unidos na quarta-feira, depois de deixar o Brasil. Ele é investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Em uma carta, Flávio se declarou “legítimo presidente eleito” e, posteriormente, “líder do Brasil”. Os partidos que o apoiam, porém, reconheceram a eleição de Lula. No mercado, uma das preocupações era a possibilidade de a presença do senador nos Estados Unidos ampliar atritos entre os dois países, com possíveis efeitos sobre a economia e o câmbio.
A alta do dólar refletiu, assim, fatores externos e domésticos: de um lado, dados econômicos norte-americanos e o avanço da moeda frente a divisas emergentes; de outro, a espera por definições sobre a equipe e a política fiscal do próximo governo brasileiro, além das incertezas ligadas ao noticiário político.