Ibovespa cai 9,88% no mês e registra maior queda desde 2022


A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, confirmada no segundo turno de 25 de outubro, provocou uma forte mudança nas apostas dos investidores e levou a Bolsa brasileira a encerrar o mês em queda. O Ibovespa recuou 9,88% em outubro, depois de superar os 209 mil pontos e cair para 167.922 pontos no fechamento do período, em meio à preocupação com juros, câmbio e cenário fiscal.

O mês começou com otimismo em relação a uma possível alternância de poder e à expectativa de uma política fiscal mais austera. A aposta favoreceu ações de empresas ligadas à economia doméstica, como bancos, varejistas e construtoras. Após o resultado eleitoral, porém, investidores reduziram posições nesses setores e passaram a buscar empresas exportadoras, com receitas em dólar, e companhias consideradas mais defensivas.

Queda acentuada e interrupção das negociações

O movimento teve um dos momentos mais extremos no dia 26, quando o Ibovespa caiu 13,88%, para 176.608,23 pontos. Foi a maior perda percentual diária desde 16 de março de 2020, quando o índice recuou 13,92%, no início da pandemia de Covid-19.

Na abertura daquela sessão, a B3 acionou o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações diante de uma queda intensa. A suspensão durou 30 minutos e atingiu operações à vista, renda fixa privada e opções referenciadas em ações e índices. Segundo a B3, a decisão considerou a formação do preço teórico do Ibovespa, que indicava uma queda superior a 20%. O mecanismo não era usado desde março de 2020.

Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, afirmou que o índice saiu de 186.341 pontos no fim de setembro, passou dos 209 mil durante outubro e terminou o mês em 167.922 pontos. “Outubro mostrou o risco de tratar uma expectativa eleitoral como resultado garantido”, disse.

O dólar percorreu caminho inverso ao da Bolsa. Depois de ficar abaixo de R$ 5 durante o período de maior otimismo com o cenário eleitoral, a moeda norte-americana terminou outubro perto de R$ 5,44, refletindo a reavaliação do risco brasileiro.

Da aposta doméstica às exportadoras

Antes do segundo turno, investidores apostavam em uma recuperação da atividade econômica, em uma queda mais intensa dos juros e em melhora fiscal. Essas expectativas impulsionaram ações ligadas ao consumo, ao crédito e aos investimentos. Bancos atraíram atenção com a perspectiva de maior rentabilidade, redução da inadimplência e expansão da demanda por crédito. Varejistas, empresas de educação e construtoras também avançaram.

Nas semanas anteriores à votação, diversas ações acumularam ganhos superiores a 30%, enquanto investidores estrangeiros aumentavam sua exposição ao Brasil. Com a confirmação da reeleição, a rotação setorial foi rápida: papéis que haviam liderado a alta ficaram entre as maiores baixas.

Magazine Luiza caiu mais de 58% em um pregão, enquanto Banco do Brasil perdeu mais de 29% no mesmo intervalo. Em sentido contrário, empresas exportadoras e com receitas dolarizadas passaram a atrair recursos. Suzano, Embraer, Petrobras, PRIO, Gerdau e Brava Energia foram apontadas por instituições financeiras como possíveis beneficiárias do novo cenário. Um dólar mais caro pode elevar, em reais, a receita de empresas que vendem no exterior.

Essas companhias também foram destacadas por sua menor dependência da atividade doméstica e pela capacidade de manter a geração de caixa em um ambiente econômico mais difícil. Entre as ações que se mantiveram positivas no mês, apareceram ainda seguradoras e empresas de telecomunicações, como Caixa Seguridade, BB Seguridade, TIM e Vivo. Receitas mais previsíveis e dividendos elevados estiveram entre as características associadas ao desempenho desses papéis.

Juros e risco fiscal no radar

A mudança de expectativas também alterou a avaliação sobre bancos e varejistas. Com a perspectiva de juros mais altos por mais tempo, analistas passaram a apontar riscos de desaceleração do crédito, aumento de provisões e menor crescimento econômico. O Bradesco, que havia aparecido entre as preferências de investidores após as eleições, recebeu rebaixamentos sucessivos de Citi, Itaú BBA e JPMorgan.

No varejo, algumas análises mencionaram que os preços das ações ficaram descontados após as quedas. Ainda assim, BTG Pactual, Bradesco BBI e Goldman Sachs alertaram que juros elevados por mais tempo podem continuar pressionando empresas dependentes do consumo.

Para novembro, a atenção se volta à possibilidade de recuperação, mas estrategistas recomendam cautela. O Bradesco BBI observou que choques eleitorais em mercados emergentes podem levar meses ou até anos para serem absorvidos pelos preços dos ativos. O banco também apontou que estimativas de lucro para 2027 ainda podem ser revisadas para baixo.

Araújo indicou quatro fatores para os próximos meses: medidas fiscais do governo, definição da equipe econômica, decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) e resultados das empresas. Ele também citou a taxa de desemprego de 5,2% como suporte ao consumo, mas alertou para pressões da inflação de serviços e do dólar mais caro.

Segundo o executivo, uma recuperação consistente dependerá de sinais concretos sobre as contas públicas e de melhora nas condições de financiamento. A resiliência da economia dos Estados Unidos e a inflação ainda elevada também podem limitar cortes de juros pelo Federal Reserve, o banco central norte-americano. Marcos Praça, diretor de Análises da ZERO Markets Brasil, afirmou que a tendência de curto prazo é de cautela, com volatilidade elevada e maior seletividade dos investidores.

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