Dona Nena: A Paraense Que Revelou a Arte do Cacau e Chocolate Premium a Lula e Macron


Em meio ao calor úmido da Amazônia e a poucos quilômetros de Belém, um evento notável na diplomacia internacional desviou o foco da agenda presidencial. No ano de 2024, em uma visita inusitada, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil, e Emmanuel Macron, presidente da França, deixaram a formalidade urbana para explorar uma pequena propriedade rural na Ilha do Combu.

Entre as plantações de cacau e a simplicidade do local, ambos participaram de uma sessão de fotos que rapidamente se espalhou pelo mundo. O motivo da visita não foi à toa: a anfitriã era Izete dos Santos Costa, a Dona Nena, uma referência quando o assunto é chocolate premium na região.

Bianca RibeiroDona Nena, com seus chocolates premium

Naquela época, restava um pouco mais de um ano para a COP 30, que aconteceria em Belém no final de 2025. A visita ressaltou uma mensagem econômica vital para a Amazônia: buscar menos commodities e mais valor agregado. E foi ali que Dona Nena demonstrou na prática o que isso representava.

Além de Ser o Maior: O Novo Paradigma

O Pará ocupa a liderança na produção de cacau no Brasil, com 137,5 mil toneladas, correspondendo a 46,2% da produção nacional, conforme dados do IBGE de 2024. Contudo, essa estatística não reflete a realidade financeira e social dos que dependem da floresta.

Para produtores como Dona Nena, ser o maior não se traduz em melhoria econômica. O cacau, vendido como commodity, fica atrelado a margens baixas e oscilações de preços que podem ser desastrosas. Embora o cacau tenha atingido uma valorização significativa em 2024, com um valor bruto de R$ 11,09 bilhões, em 2025 esse valor foi projetado em R$ 11,61 bilhões, e para 2026 as estimativas do Ministério da Agricultura apontam R$ 5,6 bilhões.

Foi com essa visão que Dona Nena decidiu transformar seu modelo de negócio. Em vez de simplesmente vender amêndoas secas a atravessadores, optou por investir na fabricação de chocolate.

“O cacau era visto apenas como um meio de sobrevivência; nosso lema agora é não vender matéria-prima, mas produtos com valor agregado,” explica Nena.

Essa decisão alterou sua posição na cadeia produtiva. Ao verticalizar sua produção, ela não só se torna fornecedora, mas também competidora no mercado final, onde as margens são significativamente maiores. Assim, Dona Nena passou a vender chocolates por R$ 650 o quilo, em vez dos R$ 10 a 15 que recebia pelas amêndoas.

Uma Nova Abordagem Produtiva

Bianca RibeiroO brigadeiro reinventado por Dona Nena é uma das sobremesas mais pedidas

A jornada de transformação não foi fácil. Problemas como energia instável, escassez de água tratada e logística complexa dificultaram o avanço. Apesar disso, a Casa do Chocolate Filha do Combu evoluiu de um processamento rudimentar para uma pequena agroindústria que produz entre 400 e 500 quilos de chocolate por mês, gerando emprego na comunidade.

O foco não é apenas a produção de chocolate, mas a diferenciação. Barras com alto teor de cacau, produtos 100% cacau e recriações como brigadeiros com nibs (pedaços de amêndoas de cacau puro) posicionam a marca em um nicho premium, afastando-se da lógica tradicional de volume e baixos preços.

Esse reposicionamento não só transforma a economia local como mostra que o valor não está na quantidade, mas na qualidade do que chega ao mercado.

Fortalecendo Redes Locais e Redistribuição de Renda

Rubens Gallerani Filho/Audiovisual/PRVista aérea da Ilha do Combu com Belém ao fundo

Além de produzir chocolate, o modelo de negocio de Dona Nena reorganiza a base produtiva da ilha. Cerca de 30 produtores locais agora fornecem cacau para ela, criando um arranjo que minimiza a dependência de intermediários e melhora a previsibilidade da renda.

Mesmo com a volatilidade dos preços internacionais, Dona Nena se empenha em manter pagamentos superiores à média, o que é crucial para evitar que os produtores abandonem o cultivo tradicional de cacau.

Esse fator é essencial. Se não houver incentivos financeiros, os produtores podem se sentir tentados a migrar para cultivos de açaí, que trazem retorno rápido, mas com menor potencial de geração de valor ao longo do ano.

Ao gerar demanda local por cacau de qualidade, o modelo protege a diversidade da produção e fortalece a permanência dos ribeirinhos na agricultura.

A Complementaridade na Ilha do Combu

Bianca RibeiroPrazeres Quaresma, produtora de cacau na Ilha do Combu

A narrativa de outra produtora, Prazeres Quaresma, 58 anos, se entrelaça com a de Dona Nena. Proprietária do Sítio Livramento, ela é a ponte entre o conhecimento tradicional e a produção moderna.

“Sou uma amante do cacau, não entendo muito de chocolate. Por isso, convidei quem sabe para ser minha sócia,” afirma Prazeres.

A parceria delas resultou em uma estrutura produtiva compartilhada, onde o cacau é processado com rastreabilidade e identidade de origem. Cada lote mantém um vínculo direto com o produtor, permitindo uma diferenciação no mercado.

Além disso, iniciativas inovadoras, como a utilização do mel de cacau, extraído da polpa que envolve as sementes, ampliam o portfólio da marca e aumentam a valor agregado de cada fruto.

“O cacau é algo divino. Aproveitamos o mel que, antes, se perdia. Agora, transformamos em algo incrível,” revela Prazeres.

Desafios Climáticos e Estruturais

Embora os avanços sejam notáveis, a produção ainda enfrenta dificuldades, especialmente de ordem climática. Oscilações no clima impactaram diretamente a produtividade. Em um ano, a produção de Prazeres caiu de 600 kg para menos de 100 kg.

A insegurança fundiária e a dificuldade de acesso a crédito são barreiras adicionais. A Ilha do Combu classifica-se como Área de Proteção Ambiental (APA), o que impõe limitações à atividade econômica e prioriza a conservação ambiental.

Esses desafios podem restringir a expansão do modelo, mas não diminuem a importância dessa iniciativa. Pelo contrário, evidenciam a necessidade de políticas públicas que apoiem a transformação produtiva em andamento.

“Não quero chegar a ter 10 mil pés de cacau, porque isso exigiria desmatamento. Meu foco é cuidar e melhorar o que já temos na floresta,” pondera Nena.

A imagem construída na Ilha do Combu levanta um debate mais amplo: a Amazônia deve ser vista não apenas como fornecedora de matérias-primas, mas como protagonista em cadeias de valor mais sofisticadas.

Ao ensinar dois presidentes sobre o valor do cacau e do chocolate premium, Dona Nena revelou uma verdade ainda mais importante: é possível transformar a produção em uma estratégia de desenvolvimento sustentável.


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