Eleições de 2026 podem pressionar a bolsa e elevar o dólar


Com o resultado das eleições presidenciais de 2026 definido neste domingo (25), investidores se preparam para possíveis oscilações na Bolsa, no dólar e nos juros futuros na segunda-feira (26). Especialistas que participaram de uma transmissão sobre o pleito apontaram riscos ligados às contas públicas e ao custo do crédito, mas também disseram que quedas nos preços podem abrir oportunidades para quem investe com horizonte de longo prazo.

Bolsa pode abrir em queda

Tiago Reis, fundador da Suno, estimou que a Bolsa brasileira poderia cair cerca de 10% na primeira sessão após o segundo turno. Ele ponderou que a previsão poderia mudar até a abertura dos negócios. “A bolsa aí deve abrir uma queda de uns 10%, obviamente que é o que a gente está vendo agora, até amanhã pode ser outro número”, afirmou.

Segundo Reis, a reação das ações dependerá da avaliação dos investidores sobre os riscos econômicos, especialmente a trajetória das contas públicas e as perspectivas para os juros. Uma queda do Ibovespa, índice citado na transmissão, não significa que todas as empresas terão o mesmo desempenho.

Companhias exportadoras podem reagir de forma diferente das mais dependentes da atividade doméstica. Reis citou a Vale como exemplo de empresa que pode se beneficiar de um dólar mais valorizado, já que parte de suas receitas está vinculada ao mercado internacional. O efeito sobre as ações também depende, porém, dos custos, do endividamento e das condições de mercado.

O fundador da Suno afirmou que uma correção dos preços pode criar oportunidades, mas defendeu cautela na escolha dos papéis. “Ações 20%, 30% mais baratas do que estão hoje começam a ficar interessantes”, disse. A queda, por si só, não indica que uma ação esteja barata: a análise também deve considerar a situação financeira da companhia, sua capacidade de gerar resultados e as perspectivas para os próximos anos.

Volatilidade exige cautela nas ações

João Daronco, head de ações da Suno Research, alertou para o risco de decisões precipitadas diante de movimentos bruscos do mercado. Segundo ele, a volatilidade pode levar tanto à venda por medo de novas perdas quanto à compra motivada por uma alta momentânea.

Daronco também chamou a atenção para as small caps, ações de empresas de menor valor de mercado, que podem oscilar com mudanças nas expectativas econômicas. Na transmissão, ele afirmou que parte dessas companhias ficou para trás em relação ao Ibovespa ao longo do ano, enquanto algumas ações chegaram a subir perto de 50% após o primeiro turno. Para o analista, é necessário distinguir oportunidades apoiadas nos fundamentos das empresas de movimentos guiados principalmente por expectativas de curto prazo.

Juros afetam títulos e crédito

Os juros futuros, que refletem as taxas esperadas pelo mercado para períodos à frente, também podem influenciar os investimentos. Um especialista em renda fixa afirmou que o Brasil chegou ao período eleitoral com uma das curvas de juros mais pressionadas das últimas cinco eleições presidenciais. Antes do primeiro turno, as taxas projetadas para dez anos superavam 14% ao ano. Depois da votação, recuaram cerca de 140 pontos-base — o equivalente a 1,4 ponto percentual — nesse trecho da curva.

As mudanças nas taxas alteram o valor de títulos públicos negociados no mercado. Esse processo, chamado marcação a mercado, atualiza diariamente os preços dos papéis: quando os juros futuros caem, títulos prefixados e indexados à inflação tendem a se valorizar; quando sobem, podem perder valor para quem precisa vendê-los antes do vencimento. O efeito costuma ser maior em papéis de prazo longo, como o Tesouro IPCA+ 2050.

O especialista recomendou que a escolha de títulos considere o objetivo financeiro e a necessidade de liquidez, e não apenas a remuneração oferecida no momento da compra. Reis também alertou que juros elevados encarecem o financiamento para famílias e empresas. Períodos prolongados de política monetária restritiva podem deteriorar indicadores de crédito de companhias endividadas, afetando quem investe em debêntures e certificados de recebíveis. Esses papéis podem pagar mais do que aplicações conservadoras, mas envolvem riscos de inadimplência e de liquidez. Fundos de crédito privado distribuem a exposição entre emissores, sem eliminar esses riscos.

Liquidez e diversificação na carteira

Em meio à incerteza, Reis disse preferir manter recursos em aplicações ligadas ao Certificado de Depósito Interbancário (CDI), em vez de ampliar imediatamente a exposição à Bolsa. “Eu ainda não estou confortável. Prefiro deixar o dinheiro no CDI”, afirmou. A estratégia, segundo a transmissão, permite manter o dinheiro remunerado enquanto o investidor acompanha o mercado e avalia possíveis compras.

João Arthur Almeida, diretor de Investimentos e Relacionamento com o Cliente da Suno Consultoria, defendeu a manutenção de uma reserva de oportunidades, separada dos recursos destinados a emergências. Ele também disse que a carteira deve levar em conta o perfil de risco, os objetivos financeiros e o horizonte de investimento de cada pessoa. Como referência inicial para diversificação internacional, mencionou uma exposição de aproximadamente 15% a 20% em investimentos dolarizados, proporção que deve ser ajustada às características de cada investidor.

Os especialistas convergiram na orientação de não comprar ou vender ativos apenas por causa do resultado eleitoral. Para ações e títulos de renda fixa, a avaliação dos fundamentos, dos riscos e dos objetivos financeiros deve orientar as decisões, especialmente em momentos de oscilação.

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