Em Luta pela Vida: O Poder da Comunidade para Salvar Postos de Saúde no Haiti


Cuidado e Esperança em Meio à Crise: A Realidade dos Centros de Saúde no Haiti

Em um canto do Centro de Saúde de Jalousie, no bairro de Pétion-Ville, encontramos Michaelle Belizaire, que embala sua filha Nayra, com apenas 22 dias de vida, enquanto aguarda ansiosamente pela consulta. Neste cenário desafiador, um agente de saúde chega para medir os níveis de oxigênio da pequena Nayra em um procedimento que, embora rotineiro, agora é realizado em meio a uma crescente crise de saúde. A situação atual no Haiti transformou o acesso a serviços essenciais em um desafio constante, especialmente na metrópole de Porto Príncipe.

Apressada Realidade dos Centros de Saúde

A violência armada, alimentada por gangues que atuam nas ruas do Haiti, criou um panorama alarmante. Famílias estão sendo forçadas a deixar suas casas, serviços essenciais foram interrompidos, e a mobilidade entre os diferentes bairros se tornou extremamente limitada. As áreas de Jalousie, Kenscoff e Fermathe, localizadas nas montanhas próximas a Porto Príncipe, são exemplos do impacto devastador desse cenário.

Em Kenscoff, a presença de veículos policiais blindados próximos aos centros de saúde tornou-se comum, sinalizando a precariedade da segurança. Nos interiores das unidades de saúde, a realidade do subinvestimento é evidente: as paredes descascam, os equipamentos se deterioram com o tempo e muitos cômodos não estão mais aptos para suas funções originais.

No bairro de Fermathe, a situação também é preocupante. O departamento de radiologia permanece fechado, e prontuários são encontrados em pilhas, comprometidos pela umidade que danificou a infraestrutura. Apesar disso, a determinação dos pacientes é impressionante, com um fluxo constante de pessoas em busca de atendimento.

Enquanto as enfermeiras em Kenscoff se preparam para a coleta de sangue e um agente de saúde trabalha incansavelmente para atender as mães em Jalousie, fica claro que todos estão comprometidos em continuar oferecendo cuidados, não importa o quão desafiadoras sejam as circunstâncias.

Nadia Todres / Avsi
Centros de Saúde de Jalousie, Kenscoff e Fermathe

Esforços para Suportar Serviços Essenciais

Graças ao Fundo Humanitário para o Haiti, gerido pelo Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), diversas organizações humanitárias, como a Associação de Voluntários em Serviço Internacional (Avsi), estão mobilizadas para responder às demandas crescentes da população. Desde abril de 2026, a Avsi tem trabalhado junto a quatro centros de saúde no Departamento Ocidental: Jalousie, Kenscoff, Fermathe e o Centro Hospitalar Sainte-Catherine Labouré.

Esse trabalho faz parte de uma resposta emergencial integrando várias frentes e financiado por um consórcio grande que inclui organizações como Acted, Concern Worldwide e Solidarités International. O foco desse apoio é assegurar que os serviços permanecem acessíveis e que as condições de atendimento dos pacientes se aprimorem.

Planos de Melhoria: Um Futuro Promissor

O futuro parece mais esperanço, com diversas melhorias programadas nos centros de saúde. Em Jalousie, as obras incluem:

  • Melhorias na entrada e na área de espera;
  • Reconstrução da rampa de acesso;
  • Espaço adicional para garantir mais privacidade durante as consultas.

Já em Kenscoff, a construção de duas estruturas pré-fabricadas buscará expandir a capacidade do centro, oferecendo uma unidade pediátrica e novas salas de consulta. Além disso, reparos gerais estão sendo feitos para garantir a manutenção das instalações.

Em Fermathe, as reformas serão focadas na área de entrada, maternidade e radiologia, com planos para modernizar os equipamentos e a infraestrutura a fim de restabelecer os serviços com segurança. Ao mesmo tempo, a chegada de medicamentos, suprimentos médicos e outros equipamentos tem enfrentado dificuldades devido à insegurança que limita o acesso às rotas de fornecimento.

No último dia 27 de agosto, a Avsi conseguiu entregar uma remessa de medicamentos e insumos ao Hospital de Fermathe, ajudando a assegurar que os serviços para as comunidades afetadas pela violência não parem.

Nadia Todres / Avsi
Marie Michelin Fanfan Laurent (técnica de laboratório e enfermeira)

Clínicas Móveis: Chegando a Quem Mais Precisa

Os esforços não se limitam apenas às instalações fixas; clínicas móveis têm sido implementadas para atender haitianos que enfrentam barreiras de acesso, especialmente aqueles em áreas afetadas pelo deslocamento e pela violência. A Avsi está atenta a problemas como a desnutrição infantil, ofertando serviços de saúde preventivos para gestantes e lactantes.

Após o aumento da violência em Kenscoff, o programa se expandiu, oferecendo suporte econômico temporário a 3.750 famílias vulneráveis durante um período de três meses. As iniciativas voltadas para nutrição, proteção e segurança alimentar seguem em paralelo com os serviços de saúde.

A Importância de Permanecer Acessível

As melhorias na infraestrutura estão contribuindo significativamente para a qualidade do atendimento. Agora, mulheres que participam de consultas pré-natais não precisam mais aguardar em locais insalubres, e há mais espaço para exames e diagnósticos. A disponibilidade de medicamentos aumentou, e isso traz alívio aos que dependem desses cuidados.

No caso de Kenscoff, as melhorias representarão espaços dedicados para crianças em tratamento, enquanto, em Fermathe, a reabertura de um serviço de radiologia, interrompido por anos, representa uma grande vitória para a comunidade.

Para Michaelle, isso significa que ela pode levar Nayra de volta a uma unidade de saúde mais acessível e segura. Os profissionais de saúde, por sua vez, têm a oportunidade de atuar em condições mais favoráveis para melhor atender suas comunidades. Nas manhãs em que os pacientes entram, essas melhorias trazem uma mensagem clara: as portas continuam abertas, e alguém está pronto para recebê-los, graças ao comprometimento e aos recursos obtidos através do Fundo Humanitário do Haiti.

*As informações e fotografias coletadas nesta reportagem datam de junho de 2026. Desde então, a situação de segurança em Kenscoff, uma comuna montanhosa nos arredores de Porto Príncipe, deteriorou-se significativamente. Ataques contínuos por grupos armados têm devastado a área, incluindo um ataque maior entre 23 e 24 de agosto, resultando em mais de 47 mortes, 22 feridos, 50 sequestrados e mais de 4.200 deslocados.

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