


“O nosso perfil de produtores é marcado pelo endividamento, o que afeta diretamente nossa capacidade de acessar crédito e realizar investimentos.” Essa declaração de Márcio de Andrade Madalena, secretário de Agricultura do Rio Grande do Sul, reflete a realidade do agronegócio na 49ª Expointer, que acontece em Esteio, próximo a Porto Alegre.
Durante o evento, a Forbes observou a movimentação e as expectativas dos participantes. Além de conversar com o secretário, teve a oportunidade de ouvir Rodrigo Junqueira, vice-presidente da Massey Ferguson para a América Latina, e Paulo Arabian, vice-presidente de Vendas da CNH para a mesma região. Começado no último sábado (29), o evento, que se estenderá até o próximo domingo (6), tem sido um espaço para trocas de ideias sobre investimentos, novidades do setor e planejamento das próximas safras, mesmo diante dos desafios causados por estiagens e enchentes que marcaram o último ciclo.
Apesar do cenário desafiador, persiste uma visão otimista entre governo, produtores e fabricantes: há sinais de uma recuperação gradual no mercado. A retomada que se vê na Expointer dependerá mais da recuperação financeira dos produtores do que da disposição desses para investir.
Se nos dias iniciais do evento o clima era de esperança, observou-se um maior envolvimento dos produtores nas atividades, assistindo demonstrações e elaborando planos de investimento. A verdadeira recuperação, no entanto, ainda está atrelada à renegociação de dívidas, à evolução do crédito e ao comportamento das safras futuras. Ao contrário do cenário do ano passado, os participantes parecem mais dispostos a olhar para o futuro.
Endividamento e Desempenho da Agropecuária

Os dados ajudam a ilustrar essa situação. Segundo informações recentes do Banco Central, o Rio Grande do Sul enfrenta um total de R$ 42,8 bilhões em créditos em situação problemática, o que representa 39,3% da carteira total de crédito no estado, que é de R$ 108,8 bilhões. Este índice foi superior ao de 33,8% registrado em junho do ano anterior. Em contrapartida, a agropecuária gaúcha está em processo de recuperação. As projeções do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) indicam que o Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) do estado deve alcançar R$ 101,7 bilhões em 2026, marcando um crescimento de 7,3% em relação a 2025, mantendo a posição do estado como o sexto mais produtivo do Brasil.
Para Madalena, essa dicotomia entre a produção e a situação financeira dos produtores explica boa parte do que se observa na Expointer. “Estamos enfrentando um histórico de estiagens e enchentes no estado, resultando em um nível elevado de endividamento entre os produtores. A renegociação das dívidas não foi feita da maneira que esperávamos”, aponta o secretário.
Ele acredita que essa situação vai impactar principalmente a comercialização de máquinas agrícolas, setor que tradicionalmente representa a maior fatia de faturamento da feira. Por outro lado, áreas como a agricultura familiar têm mostrado resultados diferentes, com mais de 500 expositores participando pela primeira vez, enquanto a pecuária apresenta o maior número de inscrições desde 2012, com 7.926 animais registrados e uma crescente demanda por genética bovina.
O Faturamento da Expointer e os Ciclos do Campo
O desempenho financeiro da Expointer é um reflexo muito próximo do que ocorre na agropecuária. Em 2019, a feira movimentou cerca de R$ 2,7 bilhões. No entanto, devido à pandemia, o evento não ocorreu em 2020. Em 2021, com a retomada, os negócios somaram R$ 1,63 bilhão. Desde então, houve uma ascensão contínua até os R$ 8,1 bilhões registrados em 2024.
Contudo, o ano passado foi desafiador, com a movimentação caindo para R$ 4,42 bilhões, o que reflete os efeitos das enchentes e as dificuldades financeiras que os produtores estão enfrentando.
“É evidente que o nosso endividamento impacta a comercialização durante o evento. Temos uma expectativa de que o fechamento desta edição reflita uma tendência de redução nas vendas de equipamentos”, afirma Madalena, acrescentando que, apesar de tudo, ainda há a possibilidade de surpresas. “Percebemos que um maior número de visitantes estão se interessando, o que pode sinalizar que decisões de investimento estão por vir ao longo do ciclo agrícola seguinte.”
Embora haja a previsão de uma diminuição nas vendas de máquinas nesta edição, fabricantes notam um aumento no interesse dos visitantes e uma presença maior nas exposições, algo que pode indicar um comportamento de compras futuras.

Para Paulo Arabian, da CNH, fabricante de máquinas agrícolas, o foco dos produtores tem mudado. Ele relata que “os agricultores estão avaliando seus investimentos com mais critério, priorizando tecnologias que impulsionem a produtividade e reduzem custos.” Apesar dos desafios fiscais e climáticos, Arabian acredita que a feira está com um desempenho que se alinha às médias históricas, destacando que a expectativa é de uma retração nas vendas de máquinas em 2026, com uma previsão de recuperações poupadas para 2027, dependendo da melhoria nas condições de crédito e na renovação da frota agrícola.
“O agricultor gaúcho está se tornando mais sensível à relação entre investimentos, produtividade e custos, buscando tecnologias que tragam eficiência operacional,” explica Paulo. “Apesar das dificuldades enfrentadas, a feira se apresenta promissora até agora, dentro das expectativas das edições anteriores.”

No mesmo sentido, Rodrigo Junqueira, da Massey Ferguson, nota que os preços do milho têm gerado um novo otimismo entre os produtores. Ele insiste que “é preciso perceber a tendência ao longo do tempo.” A expectativa é que a Expointer funcione como um termômetro para a próxima safra. Embora se sinalize para vendas um pouco menores em 2026 comparadas ao ano passado, a perspectiva para 2027 é de melhora, impulsionada pela recuperação nos preços do milho e o desempenho de outras atividades rentáveis, como a pecuária e o cultivo de café.
“Nosso objetivo é oferecer tecnologias que ajudem os produtores a enfrentar esses desafios com agilidade e eficiência,” conclui Junqueira.
Agroenergia em Evidência
Embora as vendas de máquinas estejam em um ritmo lento, o tema predominante nesta Expointer é a evolução futura da produção agrícola. Segundo Madalena, a tendência de expansão da cadeia de biocombustíveis promete transformar o agronegócio no Rio Grande do Sul nos próximos anos. Isso inclui investimentos em biodiesel, etanol e combustíveis sustentáveis de aviação (SAF), que aumentarão a demanda por insumos produzidos localmente, aproveitando as áreas cultivadas no inverno, com foco na canola.
“O produtor rural, além de produzir alimentos, ainda vai ser um gerador de energia”, afirma Madalena.
Ele acredita que essa mudança permitirá agregar valor à produção antes da exportação, além de fortalecer a agroindústria do estado, com foco no processamento de grãos e na geração de energia renovável. Outro eixo prioritário do governo é a ampliação da pecuária, proposta que inclui aumentar o rebanho bovino, acelerar a rastreabilidade dos animais e direcionar a carne gaúcha para mercados que oferecem melhores preços, como Japão e Coreia do Sul, onde a genética dos animais do estado pode fazer a diferença.
Em 2025, as exportações de carne bovina do Rio Grande do Sul totalizaram 94,5 mil toneladas, somando US$ 451,8 milhões (cerca de R$ 2,3 bilhões). Em comparação ao ano anterior, houve um aumento de 48% na quantidade e de quase 70% no valor. Apenas até julho deste ano, foram exportadas 50,3 mil toneladas, gerando US$ 270,3 milhões (R$ 1,4 bilhão) em receitas.
Continuamos a acompanhar a Expointer de perto, trazendo as principais novidades e análises do setor agropecuário.


