O ex-presidente do Banco Central (BC) Gustavo Loyola afirmou, em episódio do videocast Stock Pickers, que o desequilíbrio fiscal e o aumento da dívida pública limitam a capacidade de reduzir os juros no Brasil. Para o economista, sem controle das contas públicas, a política monetária pode não ser suficiente para estabilizar a economia e ainda contribuir para elevar o custo da dívida.
Loyola descreveu uma relação de retroalimentação entre os juros, o endividamento do governo e a percepção de risco. Quando os juros permanecem altos, a dívida pública aumenta; sem medidas de controle do resultado primário, esse avanço pode elevar o prêmio de risco, que, por sua vez, pressiona novamente os juros. O resultado, segundo ele, é um ciclo que dificulta a redução das taxas.
Contas públicas limitam a política monetária
“Não adianta você ter uma situação fiscal horrível, terrível, e o Banco Central querer segurar a economia e o tranco todo na taxa de juros”, disse Loyola. Na avaliação do economista, tentar estabilizar o cenário apenas por meio da política monetária pode produzir o efeito contrário quando não há controle orçamentário.
“Se cria um círculo vicioso: os juros mais altos geram um aumento da dívida pública; o aumento da dívida pública não tem nenhuma contrapartida do ponto de vista de controle do resultado primário; isso aumenta o prêmio de risco, pede-se mais juros, enfim, vira um círculo vicioso, uma bola de neve”, explicou.
O resultado primário corresponde à diferença entre receitas e despesas do governo, sem considerar os juros da dívida. Na fala de Loyola, a ausência de controle desse resultado é um dos fatores que impedem que o avanço do endividamento seja compensado e que reduzem o espaço para uma queda sustentável dos juros.
O ex-presidente do BC também disse que a instituição pode ficar mais isolada na condução da política monetária. Sem ajuste fiscal e com a economia mais fraca, ele prevê aumento das críticas à autoridade monetária e pressão de agentes econômicos e do meio político por cortes nas taxas.
“Uma andorinha só não faz verão; o Banco Central sozinho não consegue segurar o tranco. Evidentemente ele vai ficar muito pressionado – as pressões virão, porque, na ausência de um ajuste fiscal e numa economia mais anêmica, não vai faltar crítica ao Banco Central”, afirmou. Para Loyola, ceder a essas cobranças pode agravar o quadro.
Juros podem seguir em dois dígitos
Além das contas públicas, Loyola citou a meta de inflação de 3%, o processo inflacionário global e o comportamento do câmbio como fatores que afastam uma perspectiva de alívio rápido dos juros no Brasil. Esses elementos, segundo ele, se somam à percepção de risco e dificultam uma redução mais acentuada das taxas.
A desaceleração da atividade econômica e a queda das commodities podem ajudar a conter a inflação, mas, na avaliação do economista, não seriam suficientes para levar os juros a níveis mais baixos enquanto o prêmio de risco continuar avançando. Ele prevê que, mesmo se houver espaço para cortes, as taxas permanecerão em dois dígitos pelo menos até 2028.
“Eu acredito que, mesmo que surja espaço para queda de juros, eu diria que ainda continuarão em dois dígitos pelo menos até 2028, no mínimo”, disse. Loyola também afirmou que não vê condições para o retorno ao patamar de juros observado antes da pandemia.
Economista vê trajetória fiscal perigosa
O economista apontou a falta de engajamento da classe política na solução dos problemas fiscais como uma ameaça ao equilíbrio de longo prazo. Na avaliação dele, tratar as restrições orçamentárias como secundárias dificulta a implementação de reformas e mantém o país em uma trajetória de risco.
Loyola ponderou que não considera o Brasil diante de uma crise econômica iminente, mas manifestou preocupação com a direção das contas públicas. “Acho que não é uma situação de se ter medo, não acho que o Brasil está diante de uma crise iminente do ponto de vista econômico, mas eu diria que nós estamos numa trajetória bastante perigosa”, afirmou.

