O Ibovespa caiu 1,42% nesta terça-feira (3), aos 165.528,92 pontos, pressionado pelo recuo de Petrobras e Vale e pela incerteza dos investidores sobre a política econômica do próximo governo. O índice chegou a ficar abaixo dos 165 mil pontos durante a sessão e acumulou a sexta queda consecutiva, no menor nível desde janeiro.
O pregão também refletiu ajustes aos movimentos dos ativos brasileiros no exterior na véspera, depois de a B3 permanecer fechada na segunda-feira por causa do feriado de Dia de Finados. O volume financeiro da sessão foi de R$ 32 bilhões.
Petrobras e Vale pesam sobre o índice
A queda do petróleo no mercado internacional pressionou as ações da Petrobras, que recuaram quase 4%. Os papéis da Vale também contribuíram para o desempenho negativo do Ibovespa.
Com a sequência de perdas, o índice se aproxima de apagar os ganhos acumulados no ano. Antes do segundo turno, o Ibovespa subia perto de 30% em 2026 e havia alcançado a região dos 209 mil pontos. Agora, a valorização anual está em 2,73%.
Desde a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 25 de outubro, o Ibovespa fechou em baixa em todas as sessões. No último pregão antes do resultado das urnas, o índice estava acima de 205 mil pontos. Na última semana de outubro, a Bolsa perdeu mais de 18%, seu pior desempenho semanal desde 2020, durante a pandemia de Covid-19. Em outubro, o índice caiu 9,88%, maior recuo mensal desde junho de 2022.
Projeções econômicas e dúvidas sobre a equipe
A pesquisa Focus, do Banco Central (BC), mostrou piora nas expectativas dos analistas para a inflação e o crescimento da atividade econômica em 2026 e 2027. A projeção para a taxa básica de juros, a Selic, ao fim deste ano passou de 13,25% para 13,50%. Para o encerramento de 2027, subiu de 11,75% para 12,50%.
Também alimentam a cautela as dúvidas sobre a equipe e as diretrizes econômicas do quarto mandato de Lula, que começa no próximo ano. Nos últimos dias, a possibilidade de o presidente se reunir com André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, gerou questionamentos entre analistas. Lara Resende defendeu um novo regime monetário que incluiria limitar os juros básicos; integrantes do governo negaram a informação sobre a reunião.
Rai Chicoli, estrategista-chefe da Monte Bravo, afirmou que o mercado começou a semana ainda sob o impacto da reprecificação posterior à eleição, agravado por notícias sobre a proposta monetária e fiscal defendida por Lara Resende e por relatos sobre a possível escolha de nomes mais heterodoxos para a equipe econômica. Segundo ele, os investidores aguardam sinais sobre o programa de governo e os nomes que ocuparão os cargos econômicos. “Em momentos de incerteza, de volatilidade, os investidores ficam mais vendedores do que compradores”, disse.
Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, afirmou que o apoio público de pessoas próximas ao presidente à proposta de mudança monetária já pressiona o câmbio e os juros de prazo mais longo, mesmo com a Fazenda negando uma reunião com Lara Resende e qualquer estudo para limitar a Selic. Ele também citou a revisão das expectativas para os juros em 2027 na pesquisa Focus.
Copom e balanços no radar
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse nesta terça-feira que ainda não conversou com Lula sobre novas indicações para o BC. Segundo ele, as nomeações de novos diretores serão feitas com “rigor técnico” e com “diferentes perfis”.
A reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), responsável por definir a Selic, está entre os principais eventos da semana. A maioria das projeções em pesquisa da Reuters apontava manutenção da taxa em 13,75% ao ano. Os investidores também acompanham as sinalizações que o comunicado do colegiado poderá trazer sobre as próximas decisões.
Analistas do BB Investimentos, Victor Penna e Wesley Bernabé, afirmaram que juros de longo prazo mais altos, custo de capital maior e um cenário externo menos favorável devem influenciar o desempenho da Bolsa e as expectativas de lucro das empresas. Para eles, o desconto do Ibovespa em relação a outros mercados emergentes não garante, por si só, uma recuperação sustentada.
A temporada de balanços ganha força, com atenção às perspectivas apresentadas pelas empresas. Itaú Unibanco, BB Seguridade, Isa Energia, Marcopolo e RD Saúde estavam entre as companhias que divulgaram resultados após o fechamento do pregão.
Eleição nos EUA e ações da Apple
No exterior, as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos poderiam alterar o controle do Congresso, então nas mãos dos republicanos. O resultado pode afetar setores como centros de dados voltados à inteligência artificial, gastos fiscais e de defesa e regras para saúde, bancos e criptomoedas.
As ações da Apple caíram 1,90% após a empresa alertar que o aumento dos custos de memória pressionaria as margens brutas. A declaração também reforçou as preocupações dos investidores com a cadeia de suprimentos e com o avanço das despesas relacionadas à inteligência artificial.