Desafios da Indústria de Carne Bovina: A Viagem de Roberto Perosa à China
Na tarde desta quinta-feira (7), o advogado Roberto Perosa parte de Guarulhos rumo à China, onde enfrentará um extenso voo de aproximadamente 23 horas. Sua agenda abrangerá três importantes cidades: Pequim, Xangai e Chongqing. Perosa, que é o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), busca se reunir com autoridades e importadores em um momento crítico para as relações comerciais entre o Brasil e o maior consumidor de carne bovina do mundo.
O Cenário Atual da Relação Comercial
Entre 15 de maio e 15 de junho, os frigoríficos brasileiros devem gradualmente interromper os abates destinados à China devido ao esgotamento das cotas tarifárias que o país impôs para 2026. Embora a carne que for processada até essa data ainda tenha chances de chegar ao mercado chinês, a produção após esse período enfrentará dificuldades, uma vez que não há alternativas viáveis em termos de mercado.
“Estou indo para a China para discutir uma possível revisão de cotas”, afirma Perosa. Ele carrega consigo uma previsão preocupante: as exportações brasileiras de carne bovina podem sofrer uma queda de 10% em 2026 em comparação com 2025, passando de 3,5 milhões para cerca de 3 milhões de toneladas, a menos que as condições atuais mudem até o fim do ano.
A Pressão no Mercado de Exportação
Nos últimos meses, o volume mensal de exportações para a China teve uma queda drástica—de 200 mil toneladas em 2025 para 100 mil em 2026. O motivo? A China iniciou, em dezembro de 2024, uma investigação sobre as importações de carne bovina, resultando em cotas tarifárias que limitam a entrada de produtos sem a imposição de taxas adicionais. No fim de 2025, o governo chinês anunciou a criação de um sistema de cotas, concedendo ao Brasil a maior cota individual, de 1,1 milhão de toneladas, com uma tarifa de 12%.
Se o limite for ultrapassado, a carne pagará tarifas que podem chegar a 67%. Em 2025, o Brasil exportou 1,7 milhão de toneladas para a China, e se o ritmo atual continuar, a cota se esgotará no primeiro semestre de 2026.
Um Período Crítico
A logística é desafiadora: um boi abatido em 15 de maio levará cerca de dez dias para ser processado e 40 dias adicionais para chegar à China, o que significa que a carne só chegaria em junho. Essa realidade leva a indústria a prever uma interrupção progressiva dos abates voltados para os chineses. Para Perosa, a recuperação só será viável a partir de 15 de outubro, possibilitando que a carne chegue à China em janeiro de 2027, com um novo ciclo de cotas se iniciando.
“Esse hiato de cerca de cinco meses sem abate ofusca a perspectiva do setor frigorífico brasileiro”, menciona Perosa.
Desafios no Setor de Confinamento
O setor de confinamento começou a se anticipar. A temporada de secagem, que concentra a maior parte da engorda intensiva no Brasil, vai de abril a setembro. Em 2025, o país confinou 9,25 milhões de bovinos, um aumento de 16% em relação ao ano anterior. Perosa observa que esse cenário traz incertezas: “Será um período difícil”, ele diz.
Os preços futuros da carne bovina também refletem essa ansiedade. Atualmente, a arroba é negociada em torno de R$ 230, bem distante dos recordes de R$ 365,60 alcançados em abril. A pressão se intensifica: “Se a demanda não for mantida, como vamos equilibrar esse cenário?”, questiona Perosa.
A Mesa Chinesa: Consumo em Ascensão
A China consome cerca de 8 quilos de carne bovina por pessoa anualmente, um número que, apesar de ser considerado baixo internacionalmente, representa uma demanda significativa em uma população de 1,4 bilhão de pessoas. O crescimento da classe média, com cerca de 300 milhões de novos consumidores, é uma boa notícia para o setor.
Segundo as projeções da FAO e da OCDE, o consumo per capita deve continuar a subir até 2033. “O consumo na China não está diminuindo. Está se mantendo estável”, destaca Perosa.
A Carne Brasileira no Mercado Chinês
O Brasil mantém a maior fatia do mercado chinês de importação de carne bovina, oferecendo principalmente produtos de qualidade a pasto a preços competitivos. Em 2025, 50% de todas as exportações brasileiras de carne bovina eram destinadas à China, com receitas atingindo US$ 8,845 bilhões, um aumento de 47,8% em relação a 2024.
Entretanto, o governo da China impôs restrições nas importações para proteger seus produtores internos, absorvendo uma fatia significativa do mercado. Embora a demanda continue a crescer, a dinâmica das cotas é controlada por Pequim, desconsiderando o apetite do consumidor.
“Se há uma determinação governamental, não se importa mais carne, independentemente do que os consumidores queiram”, conclui Perosa.
Alternativas ao Mercado Chinês
O Brasil exporta carne bovina para 177 países, mas, como Perosa observa, eles não possuem o volume necessário para substituir a China. Mercados como Indonésia, Filipinas e Malásia recebem apenas pequenas quantidades, enquanto Japão, Coreia do Sul e Turquia emergem como os melhores candidatos para compensar esse déficit.
- Japão: Importa cerca de 700 mil toneladas por ano. Se o Brasil conseguisse 30% desse mercado, adicionaria 200 mil toneladas.
- Coreia do Sul: Similar ao Japão, com importações entre 600 mil e 700 mil toneladas.
A abertura do mercado japonês depende do controle de qualidade que está em andamento. No entanto, a tarifa de 38% representa um grande obstáculo. “Abrir um mercado com essa tarifa não é rentável”, afirma Perosa.
A Coreia do Sul, por outro lado, adiou visitas técnicas, evidenciando que a abertura desse mercado será uma tarefa a longo prazo, enquanto a Turquia exige rigorosos protocolos de teste, que apresentam desafios operacionais.
O Mercado dos EUA e Outras Perspectivas
Para os Estados Unidos, a reabertura também é promissora, mas limitada. Após as tarifas impostas pelo governo Trump, as exportações caíram significativamente. O Brasil opera atualmente sob uma cota que foi esgotada rapidamente. Perosa destaca que a proposta de aumento desta cota já está em pauta nas conversas do governo brasileiro.
Desafios Futuros e a Necessidade de Atualização
Enquanto isso, o governo chinês aumentou as exigências de fiscalização sanitária sobre a carne brasileira. As notificações sobre resíduos veterinários estão aumentando, representando um risco real para os exportadores. O acordo sanitário que rege essa relação precisa de uma atualização, e esforços estão sendo feitos para harmonizar os limites técnicos.
“Hoje não, mas amanhã pode haver mais repercussões”, diz Perosa, ressaltando a fragilidade do cenário atual.
Palavras Finais
A trajetória do setor de carne bovina brasileiro está repleta de desafios e incertezas, especialmente com as restrições impostas pela China. O trabalho contínuo de Perosa e a Abiec é essencial para garantir um futuro sustentável, onde a carne brasileira continue a encontrar seu lugar nas mesas chinesas e ao redor do mundo.
Vamos acompanhar os desdobramentos dessa viagem crucial e torcer para que as negociações proporcionem novos horizontes para os nossos produtores. O que você pensa sobre os desafios enfrentados? Deixe seu comentário e compartilhe suas opiniões!


