A Polícia Federal (PF) pediu o indiciamento de 15 pessoas no caso Master, mas não incluiu políticos nem autoridades dos três Poderes suspeitos de dar suporte às operações investigadas. O relatório, apresentado ao Supremo Tribunal Federal (STF) na quarta-feira (28), concentra-se na venda de carteiras de crédito do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB), enquanto outras frentes devem avançar nos próximos meses.
Entre os nomes apontados estão o controlador do Master, Daniel Vorcaro, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e o ex-sócio do banco Augusto Lima. A PF descreve Vorcaro como líder de uma organização criminosa e atribui a ele suspeitas de gestão fraudulenta de instituição financeira, induzimento a erro, fraude em fiscalização e lavagem de dinheiro. As defesas dos três contestam as acusações.
Operações com créditos somaram R$ 17,5 bilhões
A investigação começou com a compra e venda de carteiras de crédito entre o Master e o BRB. De julho de 2024 a outubro de 2025, o banco privado cedeu cerca de R$ 17,5 bilhões em créditos à instituição pública. Segundo a PF, ao menos R$ 12,2 bilhões corresponderiam a carteiras cuja existência não foi comprovada.
Os investigadores afirmam que os ativos inconsistentes teriam permitido ao Master obter recursos do BRB. Uma das operações sob análise envolveu créditos atribuídos a uma consultoria, que teriam sido comprados pelo Master e revendidos ao banco público no dia útil seguinte. A consultoria teria sido criada com pouco capital, sem empregados e com endereço em um espaço de escritórios compartilhados em São Paulo.
De acordo com cálculos do Banco Central (BC), o BRB teria adquirido cerca de R$ 6,7 bilhões em créditos e repassado R$ 12,2 bilhões. A diferença de aproximadamente R$ 5,5 bilhões é apontada como ganho estimado da operação. Para a PF, o pagamento à consultoria não teria sido efetivado: o valor continuou registrado em uma conta interna do Master, situação que os investigadores consideram um indício de possível lavagem de dinheiro.
O relatório também aponta que mais de um milhão de contratos, ligados a 348 mil CPFs, apresentavam apenas 1.251 valores diferentes. Para a PF, a repetição em larga escala pode indicar que as carteiras foram produzidas artificialmente. Em uma amostra de cem cédulas de crédito bancário, os peritos não conseguiram comprovar a existência de nenhuma.
A investigação registra ainda mudanças na explicação do Master sobre a origem dos créditos. Em março de 2025, quando o BC cobrou esclarecimentos, o banco atribuiu as carteiras a duas associações de servidores da Bahia. Em junho, apontou a consultoria. Segundo a PF, integrantes do Master, da consultoria e de um escritório teriam produzido contratos, procurações e termos de consentimento com datas retroativas para sustentar a nova versão. Os investigadores ainda analisam quem participou da elaboração dos documentos.
PF pede prazo e prepara novas frentes
O documento, com quase 700 páginas, pede ao ministro André Mendonça mais 60 dias para concluir diligências, perícias e análises de documentos, registros bancários, dados fiscais e comunicações eletrônicas. A PF afirma que ainda precisa examinar um volume significativo de contratos e operações financeiras.
Um segundo relatório é esperado para o início de novembro e deve tratar da rede que teria sustentado as operações investigadas. A apuração também avança em pelo menos outras quatro linhas, que incluem suspeitas de corrupção e eventual participação de agentes públicos. Os desdobramentos podem se estender até 2027.
A PF não incluiu ministros do STF entre os indiciados. Segundo o texto, integrantes da Corte não podem ser indiciados pela corporação em razão das prerrogativas do cargo e do entendimento institucional sobre sua atuação. As condutas dos magistrados citados não foram investigadas, e a abertura de apurações dependeria de autorização do próprio tribunal.
Seis ministros tiveram nomes associados, direta ou indiretamente, a Vorcaro: Alexandre de Moraes, Luiz Fux, Gilmar Mendes, Kassio Nunes Marques, André Mendonça e Dias Toffoli. Nenhum deles é alvo de investigação. Moraes negou comunicação com Vorcaro e classificou as alegações como falsas; o escritório de sua esposa confirmou a contratação de serviços de táxi aéreo e disse que as viagens não tinham vínculo pessoal com o ex-banqueiro.
Os demais ministros também negaram irregularidades ou proximidade indevida. Fux negou relação e troca de mensagens com Vorcaro; Gilmar Mendes afirmou não haver irregularidades; Nunes Marques negou relação financeira e disse não ter julgado ações que pudessem beneficiar o Master. Mendonça confirmou um encontro para discutir precatórios, mas negou ter recebido benefícios. Toffoli, que deixou a relatoria em fevereiro de 2026, negou irregularidades e declarou suspeição para julgamentos relacionados ao caso. Em setembro, o STF determinou a certificação dos magistrados citados, mas ainda não decidiu se autorizará investigações.
Defesas contestam conclusões da PF
A defesa de Vorcaro chamou o indiciamento de “açodado e afoito” e afirmou que a PF antecipou conclusões que a própria investigação ainda não teria alcançado. Os advogados sustentam que o relatório interpreta mensagens de forma seletiva e se baseia em hipóteses não demonstradas tecnicamente. Também dizem que as operações foram aprovadas por instâncias de governança e supervisionadas pelo BC.
A defesa de Costa afirma que conversas indicariam que ele não conhecia as fraudes e que teria identificado irregularidades e informado o BC. Também sustenta que não foi apontada vantagem financeira recebida por ele. Os advogados de Lima dizem que documentos e esclarecimentos demonstrariam que ele não participou do esquema e contestam a interpretação policial de mensagens.
O BRB reconheceu perdas de R$ 2,7 bilhões relacionadas ao caso. A PF também analisa se aumentos de capital do banco público, em boa parte adquiridos por fundos ligados ao Master, e a venda de créditos inadimplentes a fundos do mesmo grupo abriram espaço para novas operações. O relatório ainda pede a consolidação de análises financeiras e patrimoniais para estimar o possível proveito econômico das suspeitas.

