As compras chinesas de produtos agrícolas dos Estados Unidos, excluída a soja, devem registrar neste ano o menor nível desde 2019, apesar de um acordo que prevê bilhões de dólares em importações. Dados alfandegários analisados pela Reuters mostram que Pequim adquiriu US$ 7,2 bilhões em outros produtos agrícolas entre janeiro e setembro, em meio a dúvidas sobre o prazo e as condições do compromisso.
Em maio, a Casa Branca informou que a China concordou em comprar US$ 17 bilhões por ano em produtos agrícolas norte-americanos a partir de 2026. A meta para este ano seria proporcional ao período. O acordo se somou a um compromisso assumido em outubro do ano passado para a compra de soja dos Estados Unidos.
A China está a caminho de cumprir a meta relacionada à soja, mas as compras de outros itens, como carne e milho, seguem fracas. O volume registrado até setembro é o menor para esse intervalo desde 2019, período marcado pela primeira guerra comercial entre os dois países.
Prazo do compromisso ainda é incerto
Não está claro se a China descumpre o acordo. A Casa Branca não informou se a contagem do prazo começou com o anúncio feito em maio ou se terá início apenas depois que Pequim finalizar os cortes tarifários propostos, o que ainda não ocorreu.
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos encaminhou perguntas sobre o calendário de compras ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês). O USTR, a Casa Branca e o Ministério do Comércio da China não responderam aos pedidos de comentários.
A lentidão nas importações aumenta a incerteza sobre a possibilidade de as compras crescerem neste ano. O cenário preocupa agricultores norte-americanos, que também enfrentam preços altos de combustível, e entrou no debate político antes das eleições de meio de mandato, marcadas para terça-feira. Democratas buscam atrair eleitores de áreas rurais, afastando-os do Partido Republicano do presidente Donald Trump.
“Nossos produtores são patriotas, mas há muitos silos cheios de grãos e, certamente, um desejo de ver o comércio de grãos”, disse Tim Lust, diretor-executivo da National Sorghum Producers, grupo do setor. “A soja está sendo comercializada, mas outras commodities não.”
Milho e sorgo enfrentam concorrência
A demanda chinesa fraca e a concorrência de outros fornecedores dificultam o cumprimento da meta, mesmo que as compras aumentem. Analistas afirmam que Pequim talvez precise orientar empresas estatais a comprar mais produtos norte-americanos para alcançar o valor prometido.
O milho ilustra a mudança no mercado. Em 2021, no pico das importações chinesas, o país comprou US$ 5,6 bilhões da safra, o equivalente a quase 20 milhões de toneladas. No mês passado, a COFCO Futures, corretora de futuros ligada à estatal chinesa COFCO, avaliou que o milho dos Estados Unidos não era competitivo, em parte por causa da ampla oferta doméstica. A empresa projetou importações de cerca de 900 mil toneladas do produto norte-americano na safra 2026/27, iniciada em setembro.
O sorgo dos Estados Unidos também disputa espaço com fornecedores brasileiros. As exportações norte-americanas para a China chegaram a 6,5 milhões de toneladas, avaliadas em US$ 2,1 bilhões, em 2021. O Brasil obteve acesso ao mercado chinês em setembro de 2025 e já embarcou 1,7 milhão de toneladas neste ano. Quase 1 milhão de toneladas adicionais estão planejadas para envio, segundo Eduardo Vanin, estrategista sênior de agricultura da Marex.
Até o fim de agosto, os Estados Unidos haviam exportado cerca de 3,7 milhões de toneladas de sorgo para a China, acima do volume do ano anterior, quando o comércio ficou estagnado em meio às tensões entre os países. As vendas, porém, pararam nos últimos quatro meses.
Carne também enfrenta barreiras
As importações chinesas de carne norte-americana, que já chegaram a valer vários bilhões de dólares, esbarram em restrições de mercado e regulatórias. Há excesso de carne suína e de frango na China, enquanto os preços da carne bovina dos Estados Unidos estão elevados devido à redução dos rebanhos.
Apesar de a China ter renovado em maio as licenças de exportação para mais de 400 frigoríficos norte-americanos, cerca de metade da capacidade de abate de gado de corte dos Estados Unidos não está habilitada a vender para o mercado chinês, segundo a Federação de Exportação de Carnes dos Estados Unidos. O porta-voz da entidade, Joe Schuele, afirmou que alguns frigoríficos foram barrados depois de autoridades chinesas relatarem resíduos de substâncias não aprovadas no país.
Diante desses obstáculos, analistas avaliam que a China provavelmente precisará recorrer a empresas estatais para cumprir a meta de US$ 17 bilhões, como já ocorre com a soja. Para Darin Friedrichs, cofundador da Sitonia Consulting, especializada em inteligência de mercado agrícola com foco na China, o resultado dependerá do uso dessas companhias nas compras. “É difícil chegar a US$ 17 bilhões em produtos que não sejam soja sem compras direcionadas e fora do mercado”, disse.

